Manifestantes na Câmera dos Deputados | Foto: Mídia Ninja

Mídia cidadã: jornalismo ou ativismo digital?

Grupos como Global Voices e Mídia Ninja circulam notícias com visões alternativas em relação à grande imprensa

Paula Morais

Computadores, celulares e ampla rede de colaboradores com o mesmo objetivo: estar onde a grande imprensa não chega. Chamados de “mídia cidadã”, grupos como Mídia Ninja e Global Voices circulam a informação através de uma nova forma de cobertura e ascende debate sobre o processo de produção de notícias da imprensa tradicional.

Em entrevista ao programa Roda Viva, o jornalista e líder do grupo Mídia Ninja (sigla de Narrativas Independentes Jornalismo e Ação), Bruno Torturra, define o coletivo como jornalismo independente. “O que a gente faz é jornalismo, sim. Acho até curioso que ainda seja uma dúvida”, afirma. O grupo ganhou visibilidade ao cobrir as manifestações que estouraram no país desde o mês de junho. A sua página no Facebook chegou a ter picos diários de 150 mil acessos e já conta com 169 mil “curtidas”. Para efeito de comparação, o site do jornal Folha de S. Paulo tem, em média, 100 mil cliques a cada notícia postada. O maior jornal do país ainda ganha – e muito – em “curtidas”, 1,8 milhão.

Ombudsman da Folha, Suzana Singer, discorda de Torturra e não classifica o Ninja e outros grupos semelhantes como veículos jornalísticos. O problema, diz ela, não está na falta de diploma de Jornalismo dos autores, mas no processo de produção adotado por eles. “O fato de não serem profissionais não é problema. As transmissões das manifestações são excelentes, dinâmicas, com acesso muito maior aos protestos do que a grande mídia. Mas não há edições, nem preocupação em ouvir o chamado ‘outro lado’. Acho que está mais para ativismo do que jornalismo”, opina.

No Roda Viva, Toturra comentou críticas direcionadas ao grupo, enfatizando que produzem conteúdo jornalístico. “Dá pra discutir que tipo de jornalismo a gente faz, a qualidade dele, a relevância dele. Mas o fato de ser um grupo organizado, de se colocar como um veículo, de ter dedicação diária e transmitir informação da maneira mais crua, honesta e abrangente possível, acredito que é jornalismo sim”, defende. Contactados pelo ID 126, os responsáveis pelo Ninja não responderam à reportagem até o fechamento desta edição.

A presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado da Bahia (Sinjorba) e repórter do jornal A Tarde, Marjorie Moura, afirma que a falta de técnicas e informações aprendidas na faculdade faz diferença no resultado final, assim como em qualquer profissão. “Acho que uma pessoa sem qualquer informação sobre as técnicas e conteúdos do jornalismo pode exercer esta atividade, mas, com certeza, sem a qualidade de quem detém este conhecimento formal”, explica.

Acesso à informação – Outro coletivo, a rede internacional Global Voices conta com colaboradores em mais de 20 idiomas. Segundo a co-editora de tradução do site em português, Débora Medeiros, a plataforma online cobre eventos em áreas de países que geralmente não recebem visibilidade da grande imprensa. “Nossos fundadores queriam que os habitantes desses países pudessem levar suas discussões e seu cotidiano para uma audiência internacional”.

Débora acredita que as mídias alternativas têm provocado discussões entre integrantes dos meios tradicionais porque se tornaram canais alternativos de informação que alcançam um número maior de pessoas. “A mídia cidadã tirou a arrogância de jornalistas, de serem os únicos a conhecer um assunto e a poder divulgar uma perspectiva sobre ele para um grande público. Agora, o público tem a opção de ir além daquela meia dúzia de especialistas que muitos jornalistas entrevistam para tudo e ver o que outras pessoas estão falando sobre isso”, contesta.

Riscos para grande imprensa - A nova forma de cobertura não desafia a imprensa convencional, defende Suzana Singer. “Os coletivos servem como agentes provocadores para que se faça jornalismo de qualidade”. Em artigo que publicou na Folha, a ombudsman criticou a cobertura do jornal na visita do Papa Francisco. “Faltou atenção à celeuma em torno da prisão dos manifestantes. O jornal parece não ter levado a sério as denúncias que surgiram na internet”, escreveu. Para ela, a cobertura de protestos não pode mais se basear apenas no testemunho de repórteres, versão da polícia e imagens de grandes emissoras.

A relação harmônica entre a grande imprensa e a mídia cidadã seria o resultado ideal para um jornalismo de qualidade, sugere Débora. “Muitos veículos já estão percebendo isso e criando mecanismos para trabalhar em conjunto com a mídia cidadã: a BBC tem uma divisão inteira para conteúdo cidadão (o User-Generated-Content Hub), bem como a emissora alemã ARD. Mas ainda existem muitos preconceitos”, diz.

 


 

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