Fotografia de arte ganha espaço em Salvador

Fotografia de arte ganha espaço em Salvador

Abertura de galeria voltada exclusivamente para arte fotográfica sinaliza potencial de crescimento do mercado

Natália Reis e Vanice da Mata 

Quando começou sua coleção de fotografias há sete anos, o fotógrafo Ricardo Sena, sócio da Alma Galeria Fineart, não podia imaginar que sua paixão pela imagem se transformaria num modo de ganhar a vida. Especializada em fotografia de arte em Salvador, a galeria inaugurada em setembro deste ano é atualmente a única voltada exclusivamente para comércio deste tipo de manifestação artística na cidade e pretende ser uma aglutinadora da produção fotográfica de artistas, principalmente os do Estado.

A aposta de Sena no negócio se deu em função do que ele entende ser uma tendência de aumento da procura pela fotografia de arte na Bahia. “É até difícil falar que existe mercado da fotografia de arte em Salvador, porque a demanda pode não estar sendo mostrada, mas pode estar esperando a gente provocá-la”, pondera. Antes de empreender no mundo da fotografia, Sena liderou equipes de planejamento estratégico em grandes empresas de telecomunicações. “Percebi que em outras capitais havia espaços dedicados à fotografia e aqui, em Salvador, não tinha, e isso me incomodava, principalmente porque a Bahia tem uma produção e expressão cultural muito forte”, observa.

Ricardo Sena, sócio da ALMA Galeria Fineart | Foto: Natália Reis

O fotógrafo não é o primeiro a investir no mercado de fotografia de arte na cidade. Outro projeto semelhante nos últimos anos foi a Galeria do Olhar, do empresário Armando Correia Ribeiro, no Trapiche Adelaide, no bairro do Comércio. A galeria funcionou entre 2003 e 2010, tendo suas portas fechadas quando o Trapiche transformou-se num complexo de apartamentos de luxo.

A Alma possui em seu acervo nomes importantes da fotografia produzida a partir da Bahia como Aristides Alves, Christian Cravo e Hirosuke Kitamura, além de fotografias do próprio Ricardo Sena e de seu sócio, Bruno Ribeiro.

Para o fotógrafo e professor da Faculdade de Comunicação da Ufba José Mamede, o mercado para a fotografia de arte ainda está em estágio embrionário em Salvador – diferente de capitais como Nova York e São Paulo, nas quais o mercado cresceu significativamente a partir da década de 1990. Mas Mamede acredita na tendência de avanço do mercado soteropolitano. “A iniciativa da Alma se junta à de outros atores da cena artística e fotográfica, que vem investindo e criando condições para que este mercado cresça, como Paulo Darzé, e mesmo atores mais recentes, como Ilan Iglesias e Larissa Martina, sócios da galeria RV Cultura e Arte”, afirma.

O acervo da Paulo Darzé Galeria de Arte, que é voltado para arte contemporânea baiana e brasileira, por exemplo, reúne obras de artistas renomados como Carybé e Calasans Neto, além de outros nomes importantes no segmento da fotografia como Pierre Verger, Christian Cravo, Beatriz Franco e Márcio Lima.

Ganhar espaço no mercado – Fazer parte de uma coleção respeitada, pública ou particular, e ser representado por uma galeria de renome são fatores que influenciam na valorização de artistas e seus trabalhos. O investimento no mercado da arte geralmente se dá a partir de duas motivações principais: a aquisição da obra, visando sua valorização no futuro; ou o prazer estético que a imagem propicia. Analisando essa situação com a perspectiva da obra enquanto investimento financeiro, Ricardo Sena afirma que “muitas vezes, pouco interessa o objeto em si, mas sim o nome, o quanto aquele artista vai valorizar no mercado”. O galerista compara a compra da arte fotográfica à aquisição de uma ação na bolsa de valores.

A discussão acadêmica acerca da legitimidade da fotografia enquanto obra de arte, em comparação a outras manifestações artísticas como pintura e escultura, parece superada. Mas, mesmo assim, a inserção da fotografia no mundo da arte ainda está em processo.

Exatamente por este aspecto “embrionário”, a fotografia tem se apresentado como opção mais barata para quem deseja investir em objetos de arte para decoração. Segundo Sena, durante a participação da Alma na Casa Cor deste ano, um cliente que pretendia decorar sua casa com objetos de arte acabou adquirindo oito fotografias – enquanto, pelo mesmo valor, conseguiria adquirir apenas uma pintura que o agradou no evento. A Alma trabalha com obras que variam bastante de preço: podem-se encontrar fotografias, mais “baratas”, entre R$ 2 mil e R$ 8 mil, até um exemplar de Christian Cravo avaliado no SP Arte Foto (uma das principais feiras de fotografia no país) em R$ 16 mil.

[continua]