Dever de memória

Após 46 anos, Bienal resgata trabalhos das primeiras edições

Renata Freire, Thais Motta e Alex Oliveira

Há 46 anos, não acontecia somente a 1ª Bienal da Bahia. Nascia com ela a ideia de construir um evento voltado para a produção local, em meio ao cenário da contracultura e da efervescência dos movimentos políticos no país. Idealizado por artistas como Juarez Paraíso e Chico Liberato – ambos  presentes na edição de 2014 – , o projeto colocou a Bahia em destaque no cenário artístico nacional. Além dos idealizadores, a primeira edição contou ainda com artistas como Lygia Clark, Lia Robatto, Rubem Valentim e Hélio Oititica.

A artista Lia Robatto estava presente na primeira edição com a coreografia Objetos estranhos à dança. Robatto considera que a Bienal foi fundamental para a consolidação de uma nova visão artística. Na edição, foi a única a apresentar uma coreografia. “Eu tive a ideia de me inscrever como artista plástica propondo uma obra que construía formas plásticas através de corpos em movimento. A gente mostrava através do movimento corporal também o movimento no espaço, que é tridimensional e dinâmico”, conta.

A segunda edição da Bienal ocorreu em 1968, no auge do Regime Militar no país. Na época, Luís Viana Filho era o governador do estado. Inaugurada no Convento do Carmo, a 2ª edição do projeto trazia consigo grandes expectativas de fortalecimento da cultura local. Apesar das expectativas, no entanto, a Bienal de 1968 terminou de forma prematura dois dias após sua abertura. Obras consideras subversivas pelo Regime foram apreendidas.

Ana Pato, curadora-chefe da atual edição, considera que a apreensão das obras representou uma das maiores violências realizadas contra a arte brasileira. É preciso olhar para trás e resgatar essa memória sobre uma nova perspectiva. “Poucas pessoas sabem que a Bahia teve duas bienais anteriormente. O fechamento da segunda bienal você encontra em nota de rodapé, não se fala disso. Isso precisa ser visível, assim como a produção desses artistas que participaram dessas edições”, diz.

A ideia, contudo não é reviver as edições anteriores, mas sim dar visibilidade aos artistas e aos trabalhos da época sob uma perspectiva contemporânea. Além dos artistas originários das primeiras edições, novos artistas são chamados para resgatar essas memórias. Dialogando com quem esteve presente no passado. “Hoje eu estou propondo uma citação sobre aquele momento, na verdade é uma citação de toda uma época. Para avançar para frente você tem que recuar, é como uma flecha, nós devemos apontar tendências para o futuro”, diz Lia Robatto.

O Corpo pela Arte | MAM Flamboyant from Bienal da Bahia on Vimeo.

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