100 dias com ela: 3ª Bienal da Bahia tem programação até setembro

100 dias com ela: 3ª Bienal da Bahia tem programação até setembro

Terceira edição da Bienal promete 100 dias de arte, educação e pesquisa

Renata Freire , Thais Motta e Alex Oliveira

Como preencher uma lacuna de 46 anos em 100 dias? Como saber quais são as expressões artísticas com que o Nordeste se identifica? Como saber onde terminam os limites geográficos e imaginários do Nordeste? É a partir de perguntas que ainda não têm respostas que a 3ª Bienal da Bahia se constrói, sob um contexto histórico bem diferente daquele que rompeu a sua antecessora, em 1968. Originalmente, uma bienal deve ser realizada a cada dois anos, como sugere o próprio nome. Porém, as forças do Regime Militar que censuraram a 2ª Bienal deixaram resíduos e lacunas na linha do tempo da arte na Bahia.

É tudo Nordeste? é a questão que move o conceito curatorial da Bienal. Um processo que, durante seus 100 dias de exibições, traz ciclos de filmes, performances, atividades educacionais e encontros/interações com artistas em mais de dez cidades baianas. De acordo com Ana Pato, curadora, a ideia não é resgate histórico, é atualização. “A gente não está trabalhando com a ideia de resgate, nosso trabalho é de atualização pensando no contemporâneo. Temos uma geração de artistas jovens envolvidos no processo de reencenação da primeira e segunda bienal”, explica.

O projeto é oriundo da parceria entre o Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM-BA) e da Secretaria de Cultura do Estado (Secult-BA). A proposta central é percorrer, através das obras e do pensamento dos mais de 200 artistas envolvidos, as diversas narrativas que compõe a visão de Nordeste. Mas a região vai além dos limites geográficos, pois pode ser encontrada nas fotografias do francês Pierre Verger ou na instalação da artista japonesa Yoko Ono, por exemplo.

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Corte performático na abertura. Foto: Alex Oliveira

Nordeste como uma experiência universal – O projeto curatorial traz uma abordagem na qual as expressões artístico-culturais devem ser consideradas em diversas perspectivas, para além dos espaços institucionalizados. Há uma preocupação com as zonas de identificações culturais, fundamentada por pilares educativos e de pesquisa, semelhantes à Bienal de Havana, de 1984. Esta apresenta diferentes narrativas face àquelas oficialmente constitutivas da história e dos mercados da arte. Situa-se como um modelo definitivo para as bienais da e para a arte contemporânea. “A Bienal de Havana se propôs a ser um contraponto das Bienais, uma Bienal de terceiro mundo. Contra o modelo tradicional (Bienal da Veneza), de grandes pavilhões”, explica Ana Pato.

O artista visual cearense Ícaro Lira está com suas obras em exibição na exposição No litoral é assim. As obras se encontram atualmente no casarão do MAM, mas devem percorrer ainda quatro cidades do interior baiano. Para Ícaro, o tema da terceira edição da Bienal trouxe algumas reflexões sobre a pluralidade do Nordeste. “O que eu tenho pensando do tema é se é tudo Bahia. Se Salvador é só Bahia ou se Salvador é Nordeste. O quanto existe o universo do litoral e o universo do sertanejo, e como vive um de costas para o outro”, afirma. Sobre a proposta da Bienal o artista ainda acrescenta: “Acho interessante o fato de ser uma exposição itinerante, de caminhar por outras cidades da Bahia. Não ficar aquela coisa de umbigo aqui, se auto-alimentando.”

Para Ayrson Heráclito, artista visual e curado-chefe da Bienal, o eventro traz uma complexidade grande de temas. “Abordagens que sempre existiram, mas estiveram trancafiadas, alienadas, os mais diversos fenômenos”, comenta. Segundo o artista, parte essencial do projeto reside em pensar o Nordeste além dos costumeiros estereótipos, de modo que o próprio Nordeste se veja de maneira diversa.

Exposição intinerante No litoral é assim. Foto: Alex Oliveira

A programação completa se encontra no site da Bienal. As exposições ficarão abertas ao público até o dia 07 de setembro. Além de Salvador, as ações e exposições vão passar também por Vitória da Conquista, Feira de Santana, Juazeiro e Alagoinhas. Abaixo, confira a entrevista com o Ayrson Heráclito, curador-chefe da Bienal.

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