R.I.P Orkut

R.I.P Orkut

Fim da rede social causa ondas de saudosismo na internet

Lara Bastos e Suely Alves

Após dez anos trazendo alegria para milhões de usuários, o Orkut teve seu fim decretado pelo Google no final de junho. Criada em 24 de janeiro de 2004, a rede social já tem data certa para encerrar: 30 de setembro de 2014. O Orkut viveu seu auge entre os anos de 2005 e 2008, quando caiu de vez no gosto nacional. Em 2010, mais da metade dos usuários eram brasileiros enquanto apenas 2% eram americanos. Mesmo perdendo popularidade para o Facebook em 2011, a rede social ainda possui cerca de 6 milhões de usuários ativos.

O motivo para a descontinuação do serviço ainda é nebuloso. Em um comunicado intitulado “Adeus ao Orkut“, enviado por e-mail a todos os usuários, é dito simplesmente que o crescimento da rede social não se compara ao do Blogger, Youtube e Google+. Esse é o motivo pelo qual a empresa decidiu investir seus esforços e recursos nessas outras plataformas sociais. Popular principalmente no Brasil e na Índia, o Orkut não pode ter o seu fim, mas nem por isso os fãs mais fervorosos deixarão de tentar revivê-lo.

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Novas contas não podem ser criadas. Fonte: Reprodução/Orkut

O imortal não morre no final – O primeiro a levantar a bandeira da resistência foi Peter Shelton Alves, estudante de Jornalismo da UFPB. O paraibano criou uma petição on-line no Avaaz no dia 30 de junho, mesmo dia em que o Google fez o anúncio, para tentar impedir o encerramento da rede social. Em um vídeo postado no Youtube, ele diz que sua maior motivação para criar o abaixo assinado foram as comunidades. Segundo Peter, muitas delas ainda se mantêm ativas, com debates relevantes sobre diferentes temas. Em entrevista ao G1, ele admite usar o Orkut “todo o santo dia”. Até o fechamento desta reportagem, o abaixo assinado virtual de Peter já contava com quase 90 mil assinaturas.

As comunidades são um ponto crítico na descontinuação do Orkut e o próprio Google reconhece isso. A empresa oferece a opção de recriar as comunidades no Google+, notificando automaticamente os membros do novo endereço. Entretanto, a migração não agrada usuários mais antigos como João Gabriel Brolio. O estudante do Paraná entrou no Orkut em 2006 e diz que o Google+ é “uma falha terrível” e sequer cogitou utilizá-lo. Ao invés, preferiu seguir os amigos para a russa VKontakte, que é “mais simples e sem frescuras”.

Mais conhecido como VK, a VKontakte apresenta uma estrutura de comunidade similar ao Orkut, inspirada nos antigos fóruns. Segundo João Gabriel, boa parte das comunidades de que participa ativamente já migraram para o VK, como “iPhone Brasil”, “São Paulo FC” e “Dota2 Brasil”. Entretanto, ele e os amigos não pretendem pular do barco antes do fim. “A maioria do povo que frequenta o Orkut está esperando a rede social acabar de vez para migrar para o VK”, conclui.

Back-up das emoções – O anúncio do fim gerou uma corrida desenfreada ao Google Takeout, serviço que permite fazer download de informações do Orkut, como as famosas scraps e fotos, bem como de outros produtos da empresa. Entretanto, o serviço de back-up enfrentou problemas devido à alta demanda e acabou se tornando mais um motivo para a queixa dos usuários. Aparentemente normalizado, o download estará disponível até setembro de 2016.

Já os membros de um grupo no Facebook encontraram uma maneira divertida de salvar algumas pérolas do Orkut e recriar os jogos que rolavam pelas comunidades. O grupo Orkut – Back-up conta com mais de 10 mil membros que postam frequentemente print-screens de scraps, depoimentos e comentários engraçados, além de jogos como “Beija ou passa” e “Qual música a pessoa acima te lembra”.

A princípio, o grupo possuía poucos membros e mudava sempre de tema, segundo Hell Ravani, Engenheira Mecânica e uma das administradoras. “O Facebook agora tem uma política de não poder mudar o nome [do grupo] com mais de 250 membros, então, para mudar sempre o assunto a gente mantinha com 248 pessoas. Antes de ser Orkut acho que era de life hacks ou tutoriais banais”, comenta.

Quando o assunto mudou para “Orkut – Back-up”, as postagens do grupo, visíveis mesmo para não-membros, começaram a receber dezenas de curtidas e os pedidos para entrar foram se multiplicando, até a situação fugir do controle. “Alguns dos moderadores deixou passar de 250 e acabamos abrindo a porteira e migrando para outro grupo. Só ontem a gente recebeu 400 novos pedidos para entrar”, conta.

Membros da comunidade do São Paulo no VK estão apenas “aguardando a exclusão do Orkut”. Fonte: Reprodução/VKontakte)

Bons tempos que não voltam mais – Mesmo com toda a onda de comoção, a maioria dos usuários já abandonou o Orkut há muito tempo. É o caso de Jéssica Alves, estudante de Jornalismo da UFBA. Usuária do Orkut desde 2006, afirma que a rede social vai deixar saudade porque marcou a sua adolescência e possibilitou que superasse a timidez, mas não afetará suas relações. “Todos os contatos que eu tinha no Orkut tenho no Facebook, Twitter e Whatsapp”, diz.

Jonatas Quinta, estudante do Bacharelado Interdisciplinar de Artes da UFBA, entrou no Orkut em 2004, quando a rede social tinha limite de publicação de fotos. Na época, apenas 12 imagens poderiam ser colocadas e o usuário tinha que receber um convite para participar. Fazia uso com frequência até ingressar na faculdade em 2011, quando os estudos ocuparam seu tempo livre. Hoje, nem lembra mais da senha. “Para mim não vai fazer falta, porque faz um bom tempo que não entro mais no Orkut”, afirma.

O estudante de Produção em Comunicação Cultura da UFBA Pablo Santana já foi um frequentador assíduo do Orkut. Hoje em dia, só entra para participar de alguns fóruns, já que ainda existem comunidades ativas. “O Orkut vai deixar saudades por tudo que ele representou, especialmente para a minha geração que passou a utilizar redes sociais de forma constante”, conclui.

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