Vício em smartphone. Foto: Adele Audisio/Labfoto

VÍCIO EM DISPOSITIVOS MÓVEIS CRESCE 123% EM UM ANO

Luire Campelo e Marcelo Argôlo | Foto principal: Adele Audisio/Labfoto

Ao redor do mundo, existem mais de 176 milhões de viciado em dispositivos móveis, de acordo com o estudo realizado em março de 2014 pela consultoria Flurry Analytics. O número representa um crescimento de 123% em relação a março de 2013, quando os viciados eram 79 milhões. Segundo o estudo, o viciado em smartphone é aquele que checa aplicativos mais de 60 vezes por dia, seis vezes a média demonstrada na pesquisa.

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A produtora cultural baiana, Karina Ribeiro, acredita estar dentro desse grupo. Residente em São Paulo desde agosto de 2014, ela é enfática ao afirmar que se sente viciada no seu smartphone, mesmo sem saber precisar quantas vezes por dia checa o dispositivo. Entre aplicativos de redes sociais, como Facebook e Instagram, e outros de serviços cotidianos, como o de transporte público, ela diz depender do aparelho para tudo.

“Eu uso o tempo todo. Na última greve da PM quando eu ainda morava em Salvador, eu não tinha medo que me assaltassem, mas sim de que levassem meu iPhone”, explica a preocupação com o aparelho. Karina admite que já usou até em situações proibidas por lei. “Confesso que já usei dirigindo. Tento me policiar, mas já usei o Whatsapp tanto para mandar texto quanto mensagem de voz”, confessa.

A estudante de direito Maria Clara também se considera viciada porque está constantemente no celular. “A depender do lugar, se eu estiver sem nada para fazer, sempre me distraio com celular; mas se eu estiver em algum lugar que tenha algo para fazer é menos mal ficar sem ele. Mas eu fico agoniada de qualquer jeito”, revela.

Motivações – O vício ou uso compulsivo desses dispositivos também é uma preocupação na área de psicologia e psiquiatria no Brasil. O Núcleo de Pesquisa da Psicologia em Informática (NPPI) da Pontífice Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e a psicóloga e diretora da Associação Brasileira de Hiponoze (ASBH), Márca Mathias, dedicam-se ao estudo e orientação dessa dependência.

Para o NPPI, esse tipo de dependência a dispositivos móveis é mais uma forma de tecnologia. “Na verdade, o vício em smartphone, computador, internet ou jogos eletrônicos têm todos, mais ou menos, as mesmas características”, afirma o psicólogo e membro do Núcleo da PUC-SP, Márcio Berber.

O especialista ainda conta que esse vício costuma estar relacionado a problemas nas relações estabelecidas fisicamente. “Para resumir bastante, seria algo como: ‘minha vida não vai bem, não tenho recompensas, tenho dificuldades nas relações sociais, no trabalho, na escola, família e quando eu estou em contato com a tecnologia tenho essas recompensas de forma mais claras'”, exemplifica.

O caso de Karina também serve como exemplo da relação entre os problemas pessoais e o vício. Desde que se mudou para São Paulo tem dificuldades de lidar com a saudade da família e dos amigos e o smartphone a ajuda a suprir essa lacuna. “Aqui em São Paulo eu uso mais porque fico falando com o pessoal de Salvador e eu me sinto mais próxima deles”, conta.

A produtora cultural Karina Ribeiro. Foto: Arquivo Pessoal

Já Márcia Mathias é cautelosa ao falar de vício em smartphone. “Primeiro eu acho que a gente tem que diferenciar o vício do modismo”, afirma. De acordo com ela, todo produto lançado no mercado tem um trabalho de psicologia de marketing para definir como serão os estímulos ao consumo. A facilidade de pertencer a um grupo dada pelos aplicativos, para Mathias, é a principal motivação para o vício, além de haver grupos nas relações físicas que impões a aquisição do dispositivo. “Para quem quer fazer parte de um grupo se torna uma obrigação possuir aquele item, é como se você não conseguisse viver sem porque você não ia pertencer a nenhum grupo”, conclui.

Nem por isso ela descarta a possibilidade de desenvolvimento de um uso compulsivo. “Tem pessoas que no contato com outros ela é tímida, mas quando usa smartphone, ela se transforma. Ai a gente fala da área de vício. É como se fosse consumir bebida. A pessoa se transforma”, explica a psicóloga.