MENTIR PODE SE TORNAR UM VÍCIO E TRAZER PROBLEMAS DE PERSONALIDADE

MENTIR PODE SE TORNAR UM VÍCIO E TRAZER PROBLEMAS DE PERSONALIDADE

Traumas de infância, baixa autoestima e insegurança podem ser as causas 

Juliete Santos

Uma mentirinha aqui, outra ali. Quem nunca mentiu? A mentira faz parte do cotidiano de muita gente, seja para agradar algumas pessoas ou para livrar-se de uma situação constrangedora. O problema pode surgir a partir do momento em que esse ato se torna rotineiro, levando o indivíduo a perder o controle, e a criação de histórias falsas se tornam um vício.

A mitomania é um distúrbio de personalidade caracterizado pela vontade incontrolável de mentir. Os mitômanos, como são classificados os viciados em mentir, algumas vezes contam mentiras irrelevantes. Em outras ocasiões, o grau de elaboração e de detalhes induzem ao próprio mentiroso a acreditar nelas. Eles distorcem a realidade a seu favor e sem medir as consequências das suas mentiras.

Segundo a psicóloga Rafaela Cabalda, existe uma diferença entre o mentir compulsivamente e apenas se livrar de uma situação. “A mentira socialmente aceita é aquela que o indivíduo não faz uso com frequência, geralmente para se proteger, ou sair de uma situação que considera de risco. A mentira patológica é aquela na qual o sujeito se utiliza desse artifício com frequência para estabelecer as suas relações, não conseguindo existir sem ela. Mentir é uma regra na sua vida, não uma exceção”, afirma.

Essa dependência pode ter causas distintas para cada paciente, diz a psicóloga. Os mais recorrentes são os traumas de infância ou como resultado de uma profunda insegurança emocional. “A maioria dessas pessoas veem na mentira um mecanismo de defesa. Geralmente apresentam um quadro de carência acentuada. Elas sentem uma grande necessidade de conquistar e chamar a atenção dos mais próximos, e assim elevam a sua autoestima que está em déficit”, explica.

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A ciência explica – Diferenças de estrutura na matéria cerebral dos mentirosos compulsivos podem explicar esse tipo de vício. Um estudo realizado em 2005 por um grupo de pesquisadores da Universidade da Carolina do Sul, nos Estados Unidos, identificou uma anomalia no cérebro dos mentirosos patológicos. A pesquisa foi realizada com voluntários selecionados em cinco agências de empregos temporários em Los Angeles.

Os voluntários foram divididos em dois grupos: o primeiro era formado por 12 homens e mulheres com histórico de serem mentirosos patológicos, o segundo grupo, com 21 pessoas, reunia voluntários sem retrospecto de mentiras ou comportamento antissocial.

O cérebro dos mentirosos patológicos | Infográfico: Juliete Santos

Famosos mentirosos – Alguns mentirosos se tornaram famosos e conhecidos em todo o Brasil. Talvez, o nome Marcelo Nascimento da Rocha seja comum, mas a vida que ele costumava ter estava bem distante da normalidade.

Marcelo, condenado por crimes como associação ao tráfico, estelionato e falsidade ideológica, fingiu ser oficial do Exército, falso líder do PCC, guitarrista da banda Engenheiros do Hawaii e herdeiro da empresa de linhas aéreas Gol. Em 2001, chegou a conceder uma entrevista para o apresentador Amaury Júnior, fazendo-se passar por filho de um dos donos da companhia aérea. A sua vida inspirou um filme, e coube ao ator Wagner Moura interpretá-lo nos cinemas. O longa, que se chama VIPs – Histórias reais de um mentiroso, conta as aventuras de Marcelo, que passou alguns anos na cadeia cumprindo pena por estelionato e atualmente oferece palestras sobre o poder de persuasão.

Maria Verônica, “a grávida de Taubaté”, ficou conhecida nacionalmente em 2012 ao afirmar estar grávida de quadrigêmeos. Até aí nada incomum, mas o que impressionava era o tamanho da sua barriga. Usando uma ultrassonografia que encontrou na internet ela deu entrevista para várias emissoras fazendo com que todos acreditassem na sua farsa. Meses depois a mentira foi descoberta e a barriga que tanto chamava a atenção era feita de silicone. Hoje, Maria Verônica vive isolada e passou por alguns tratamentos psiquiátricos.

A psicóloga Rafaela Cabalda alerta que provavelmente essas pessoas começaram a viver em uma situação em que elas acreditavam em suas mentiras. “A vivência patológica da mentira pode levar a pessoa a acreditar nas histórias contadas e inventadas por elas mesmas, é quando uma mentira se torna verdade”, explica.

Tratamento – Segundo a psicóloga o tratamento mais recomendado para quem sofre com a mitomania é entender que está doente e que precisa de ajuda, o que raramente acontece. “Os mitômanos estão tão envolvidos em sua rede de fantasias, que não se dão conta da doença, eles precisam muito do apoio familiar. Se o acompanhamento psicoterapêutico não for suficiente, os casos mais graves irão precisar de ajuda psiquiátrica”, aconselha.