Patrulha ideológica: eleições aguçam fanatismo político

Virgínia Andrade

O segundo turno das eleições no Brasil transformou as redes sociais em uma espécie de campo minado. Partidários de Dilma Rousseff e Aécio Neves se digladiam para provar que não há melhor candidato que o seu para ocupar o posto de presidente do país. Gráficos, capas de jornais antigos e estatísticas comparativas estampam timelines de norte a sul e acirram os ânimos e a disputa. Parece até decisão de campeonato, em que a vitória é uma questão de honra.

Até aí, nenhum problema. Cada cidadão, usuário ou não de rede social, tem garantido por lei o direito de manifestar publicamente sua opinião e defendê-la. A questão é quando se lança mão da intolerância para atacar o ponto de visto alheio e o próprio indivíduo, para defender determinado ponto de vista. O que deveria ser um espaço saudável de discussões se torna quase um ringue de Vale Tudo. Ninguém é poupado: nem “petralhas” nem “coxinhas”.

É neste contexto que o fanatismo político se coloca. Para além dos expurgos stalinistas na União Soviética e da perseguição aos comunistas americanos pelo macartismo, ainda hoje a política é usada como justificativa para a prática de violências – verbais ou físicas – contra opositores e manifestações de ódio às minorias, geradas pelas motivos mais diversos. A patrulha ideológica é mais uma das maneiras de materializar o extremismo político, que ficou com a palavra de ordem nessa eleição.

De acordo com o historiador e professor da Universidade Estadual de Campinas, Jaime Pinsky, em entrevista à Revista Criativa, o fanático não apenas acredita em uma ideia e a defende até as últimas consequências, como também é intolerante. Ele não abre espaço para discussões e quer, a todo custo, converter o outro às suas crenças. “Fanáticos são indivíduos que possuem uma certeza absoluta e incondicional a respeito do que consideram suas verdades”, afirma.

Embora não acredite na violência como melhor meio de alcançar o que se deseja, Yuri Brito não criminaliza comportamentos radicais | Foto: Milena Abreu/Labfoto

Organizador do livro Faces do Fanatismo, Pinsky explica que o termo “fanático” denota o furor que leva indivíduos ou grupos a praticarem atos violentos contra outras pessoas. A intolerância e a crença se tornam verdades absolutas, para as quais não admitem contestação. A noção de fanatismo para o estudante de Ciências Sociais, Yuri Brito, aproxima-se à do historiador.

“Quando se nega a realidade e o direito do outro ter uma opinião diferente, e que isso é legítimo, nos aproximamos do que poderia ser chamado de fanatismo”, pontua. O ex-coordenador do Diretório Central dos Estudantes (DCE) acha curioso como as pessoas associam o extremismo à ideia de alteridade. “O fanatismo é sempre uma característica do outro. Nunca uma qualidade própria. Você nunca se vê fanático daquilo que você crê, nem vê as pessoas fanáticas quando elas creem na mesma coisa que você”, reflete.

Sobre a relação fanatismo e violência, Yuri acredita que, à priori, nenhum comportamento é condenável. “Quebrar um carro ou agredir alguém, na maioria das vezes, não é uma ação política que gera as consequências que a gente deseja. Agora, se Dilma vence as eleições com 51%, a direita não reconhece o resultado e vai para a rua reprimir, agredir e tomar o poder à força, eu vou condenar quem jogou pedra em alguém? Não vou porque é uma leitura da realidade política”, diz.

Militante filiado ao PT, Yuri defende o que acredita de todas as maneiras possíveis | Foto: Milena Abreu/Labfoto

Para o militante do Partido dos Trabalhadores (PT), a criminalização de certos comportamentos está relacionada a uma postura idealista. “Não no sentido de que tem ideais, mas no de que ordena o mundo a partir das ideias e não do próprio mundo”, observa. “Para se ter um comportamento radical, ou seja, para ir à raiz das questões, é preciso compreender o que está acontecendo na sociedade. Muitas vezes radical é tratado como sinônimo de fanático e eu acho que não é”, ressalta. Yuri concorda que existe um limite saudável no envolvimento político e que ele precisa ser colocado por cada um, pois é variável.

Polêmica em rede social – Recentemente, o militante foi alvo de críticas após publicar uma mensagem ameaçando apedrejar carros com adesivos anti-PT, em seu perfil no Twitter.

Mensagem foi publicada pelo estudante em seu perfil no Twitter | Imagem: Reprodução/Twitter

A postura da professora de pós-graduação em Semiótica da Cultura da UFBA, Lícia Soares de Sousa, também gerou discussões após convidar as pessoas a darem as “boas-vindas” ao candidato à presidência pelo Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), Aécio Neves. A publicação ocorreu em seu perfil na rede social Facebook. O presidenciável esteve em Salvador para uma caminhada no Centro Histórico no dia 17 de outubro.

Professora foi alvo de críticas após mensagem postada | Imagem: Reprodução/Facebook

Contudo, não foram apenas os eleitores do PT que manifestaram sua contrariedade em relação ao psdbista. O antipetismo e o ódio de classe dos internautas correligionários de Aécio marcaram seu lugar no decorrer do processo eleitoral, especialmente após a vitória de Dilma na região Nordeste, no primeiro turno. Segundo levantamento realizado para o jornal espanhol El País, de 5 a 8 de outubro, o Ministério Público Federal recebeu 131 denúncias por racismo nas redes sociais, das quais 85, mais de 20 por dia, atacavam especificamente os nordestinos.

Imagem: Reprodução/Facebook

Os ataques partem de todos os lugares do país, do Oiapoque ao Chuí. No Mato Grosso, a auditora Ingrid Berger sugeriu um ataque com bomba no Nordeste e pode perder o cargo após denúncia feita na ouvidoria do Ministério. Outro caso que gerou polêmica foi o do coletivo de médicos que sugeriu a “castração química” da população nordestina. “70% de votos para Dilma no Nordeste! Médicos do Nordeste causem um holocausto por aí! Temos que mudar essa realidade!”, diz uma das postagens.

Ataques contra voto dos nordestinos é uma forma de expressar o ódio de classe | Imagem: Reprodução/Twitter

Imagem: Reprodução

Para além do preconceito, o episódio com os nordestinos afeta de forma direta a esfera política. Perfis falsos têm sido criados como estratégia de disseminar o ódio e reforçar arquétipos de votantes do PT ou PSDB. O perfil falso de Alexandra Santos foi um dos desmascarados pelo Ministério Público. A “autora” realizou diversas postagens depreciando negros e pobres. A procuradoria disse que analisará cada uma das publicações individualmente.

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