Diabetes e acidentes são maiores causadores de amputações no Brasil

Diabetes e acidentes são maiores causadores de amputações no Brasil

Alan Alves e Anderson Silva | Foto principal: Pedro Pimenta/Arquivo pessoal

Das 13,2 milhões de pessoas que declararam apresentar algum tipo de deficiência motora no Brasil, 470 mil foram vítimas de amputações, segundo dados do último Censo divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2010. A estimativa é de que a incidência média anual de amputações seja de 13,9 por 100 mil habitantes. As maiores vítimas são os homens – 58,2% do total de amputações, contra 41,8% das mulheres.

Entre os maiores causadores de perda de membros no país estão os problemas vasculares, sobretudo os resultantes de diabetes. Segundo o Ministério da Saúde, a doença é responsável por 70% das cirurgias de amputações no Brasil. Em 2013, do total de 1.700 pacientes amputados atendidos pela Associação Brasileira Beneficente de Reabilitação (ABBR), 51% haviam perdido membros, ou parte deles, por esse motivo.

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Uma dessas vítimas foi o motorista baiano Lázaro Freitas, de 49 anos. Em 2013, ele teve um ferimento no pé esquerdo em um acidente de trabalho e foi obrigado a amputar parte da perna, devido a complicações por conta do diabetes. “Foi muito difícil ser submetido a isso. Desde que descobri que estava com diabetes, há seis anos, procurei cuidar mais da minha saúde, mas infelizmente sofri esse acidente e complicou tudo. Hoje, só saio pra rua de muleta”, conta.

Os acidentes em geral estão entre os maiores causadores de perda de membros no país. Em 2013, foram os responsáveis pelas mutilações de 20% dos pacientes amputados que procuraram atendimento na ABBR. O vigilante Alberto Santos de Oliveira, de 59 anos, morador da cidade de Simões Filho, na região metropolitana de Salvador, foi vítima de um acidente de trânsito, em 2009. Ele diz ter sofrido “uma reviravolta na vida” após ter parte de um dos braços decepados em uma colisão.

Alberto perdeu parte do braço esquerdo em um acidente de trânsito. Foto: Arquivo pessoal

Alberto trafegava com um sobrinho em uma moto pela BR-110, próximo à cidade de Alagoinhas, quando foi atingido por um carro, que estava na contramão. O vigilante também teve fraturas nas duas pernas – o motivo de hoje ter dificuldades para andar e nunca se separar da muleta.

“Claro que tenho que agradecer a Deus por ter sobrevivido, né? Mas não sou mais o mesmo. Quando se perde uma parte do corpo, tudo muda, ainda mais quando se percebe que a gente passa a ter dificuldades para fazer coisa simples do dia a dia que antes eu fazia quase que de forma involuntária”, afirma.

Além de problemas vasculares e traumas, amputações podem ser ocasionadas por infecções, tumores e doenças congênitas. O número de mutilados que procuraram a ABBR no ano passado (1.700) superou em mais de 100% a quantidade de pacientes atendidos em 2012 (799). Para o diretor da instituição, Deusdeth Nascimento, a falta de cuidado é um dos responsáveis pelo aumento do número de casos, tanto com a saúde como no trânsito.

“Em algumas situações, por exemplo, os pacientes que foram vítimas de amputações por diabetes tiveram que tirar o membro porque não cuidaram da saúde como deveriam. Já no caso do trânsito, a imprudência, na maioria dos casos, é o principal fator”, afirma.

Reabilitação – De acordo com Nascimento, um trabalho integrado dos diversos tipos de profissionais envolvidos na reabilitação do paciente é fundamental no sentido de buscar uma completa recuperação para a vítima. “Isso, na maioria dos casos, determina o êxito do trabalho reabilitacional programado. O objetivo é capacitar o paciente ao maior aproveitamento de suas potencialidades de forma que ele, mesmo sem um membro, possa ser independente nas atividades do dia a dia”, explica.

Com a mudança física, a perda da parte do corpo pode ocasionar problemas psicológicos. Segundo a a psicóloga e professora Fátima Mendonça, após a amputação, grande parte das pessoas passa por uma série de reações emocionais. “Além de quadros de ansiedade, depressão e desesperança, as vítimas podem apresentar profundas desorganizações na estrutura psicológica. E, nesses casos, é preciso trabalhar no sentido de realizar um processo complexo de reorganização da vida da pessoa. Outras vítimas, no entanto, podem ter certo impacto psicológico inicial e depois se adequar sem maiores problemas à mudança”, explica.

Os problemas psicológicos podem prejudicar a aceitação e assimilação de uma prótese que substitua o membro perdido. “É preciso que os amputados se adequem ao seu corpo. Isso será essencial para a recuperação da autoestima. Mas a adaptação vai depender de cada pessoa, de como ela percebe o apoio social e de como enxerga sua reabilitação”, destaca.

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