Um corpo, duas mortes

Um corpo, duas mortes

Nos principais programas policiais da Bahia, 16,9% das violações dos direitos humanos é por exposição de corpos

Cássio Santana | Foto principal: Adele Audisio/Labfoto

Na televisão, um apresentador: tarjas pretas, olhos vermelhos, gestos convulsos. Ele se aproxima da tela a tal ponto que incomoda. Chama uma matéria aos berros. Surge um corpo ensanguentado e um homem negro agoniza. Em outra matéria, mais um corpo encontrado numa área de difícil acesso. Este é um cenário cotidiano para muitos baianos. No horário do meio dia, programas policiais tomam conta da programação de televisão baiana. A violência e o sangue chamam atenção. O prato principal são os corpos vivos e, principalmente, mortos. Mutilados, ensanguentados, carbonizados e desfigurados, tudo isso no horário do almoço.

Segundo pesquisa do Centro de Comunicação Democracia e Cidadania (CCDC) da UFBA, a exposição de corpos é um fato recorrente nos três principais programas policiais da Bahia. Para o Coordenador do CCDC, Giovandro Ferreira, o corpo tem um papel fundamental na relação entre o público e o programa. O pesquisador afirma que a maneira como o corpo é apresentado cria um discurso, negativo ou positivo sobre ele.  “Esse tipo de exposição faz parte de uma tradição arcaica deste tipo de programas. O importante é se perguntar que tipo de discurso é convocado pelo corpo dentro das emissões dos programas”, aponta.

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“A maioria dos corpos expostos é de pessoas pobres, negras e de classes menos favorecidas”, explica a jornalista e pesquisadora de programas sensacionalistas pela UFRJ Janaine Aires. De acordo com a doutoranda, os familiares das vítimas têm dificuldade em exigir seus diretos à justiça.“Fomentando-se, assim, um ciclo de violência e desrespeito aos Direitos Humanos que é extremamente nociva para a concretização de direitos, da inclusão social e, portanto, da nossa democracia”, avalia.

O jornalista do jornal Massa, João Eça, discorda da prática de expor corpos em matérias e conteúdos jornalísticos. “Na grande maioria das situações, sou absolutamente contra e acho totalmente desnecessário essa exposição de corpos na mídia. Além do respeito ao público, essas imagens também ferem os familiares das vítimas. Ou seja, esses familiares são vítimas duas vezes: além do crime, são obrigados a conviver com essas imagens na mídia”, diz.

Vítimas – A empregada doméstica Anamaria Silva perdeu seu filho no ano de 2012. “A polícia disse que foi troca de tiro, mas meu filho não estava armado”, revela. Segundo a moradora do bairro do Vale das Pedrinhas, imagens do corpo do seu filho foram exibidas em um programa de televisão no dia seguinte a sua morte. “Aquilo para mim foi horrível. Eu passei um tempo sem sair para a rua”, desabafa.

Caso parecido aconteceu com a vendedora Júlia Oliveira. Em 2013, ela perdeu o irmão no bairro de Itapuã. “Eu ainda estava muito abalada quando soube que o corpo do meu irmão estava passando na televisão”, conta. Júlia pensou em entrar com uma ação contra o programa, mas não teve ânimo para seguir em frente. “A gente fica sem forças, o baque é muito grande”, justifica.

Ética – A Faculdade de Comunicação da UFBA discute sobre a legitimidade e pertinência jornalística na exposição de corpos por programas policiais. Muitas imagens surgem sem nenhum tratamento, embora pesquisa realizada pelo CCDC revele que esta tendência esteja em declínio nos principais programas de telejornalismo policial da Bahia. Entre as discussões mais acaloradas estão as possíveis alternativas ao “jornalismo mundo cão”.

“Podemos tratar os homicídios de forma jornalística sem perder de vista o respeito humano. Uma coisa não invalida a outra. Expor corpos não é sinônimo e nem condição fundamental para conseguir informar uma notícia”, defende João Eça. Segundo o jornalista, o jornal Massa! não compactua com a prática de exposição de corpos. “No jornal Massa!, nós não podemos expor corpos de vítimas de crimes e até mesmo sangue.”, revela. “Desde o início do jornal, essa é uma das regras mais rígidas na nossa redação. Muitos até estranham quando falo dessa atitude do Massa!”, explica.

João Eça defende outras formas de abordagens no jornalismo policial. Foto: Virgínia Andrade

Janaine Aires acredita que o debate sobre a exposição de corpos na mídia precisa avançar para além de um debate simplesmente ético de uma profissão. “O debate ético é fundamental para refletir sobre estas produções, mas não é suficiente para que possamos vivenciar um cenário de respeito aos direitos humanos fundamentais. Mais do que ética jornalística é preciso construir mecanismos regulatórios e educação para uma leitura crítica da mídia”, conclui.