Coletivos urbanos ocupam espaço público e mudam a cara de Salvador

Coletivos urbanos ocupam espaço público e mudam a cara de Salvador

Gestores dos seus espaços, grupos investem em ações de conscientização, recriam a paisagem urbana e espalham arte pelas ruas da cidade

Virgínia Andrade | Foto principal: Lucas Seixas/Labfoto

Para além da contemplação e do entretenimento, a arte pode ser uma eficaz ferramenta de ressignificação do espaço urbano e reflexão sobre a cidade. É esta a premissa defendida por grupos que se organizaram para pensar e promover ações em prol de uma Salvador diferente da que se vê. Gestores dos seus espaços, estes coletivos investem em ações de conscientização, recriam a paisagem urbana e espalham arte pelas ruas da cidade.

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Em Salvador, existem coletivos de todos os tipos. Há os que pensam a cidade em diálogo com uma arte específica e aqueles que trabalham nas fronteiras das mais variadas linguagens artísticas. De espetáculos circenses a performances conceituais, de instalações plásticas à reforma de fachadas, o objetivo é afetar não apenas a arquitetura da cidade, mas o próprio sujeito em si.

Cidade plataforma da arte – A ocupação do espaço urbano com arte é um movimento recente no Brasil. As intervenções urbanas se consolidaram no país durante a década de 1970, mas as ações com caráter político só apareceram pelos idos dos anos de 1990. Isto explica parte das tensões estabelecidas entre o poder público e os coletivos urbanos. Na contramão do processos de privatização do espaço público, estes grupos valem-se da própria cidade como plataforma para a arte que fazem.

Painel pintado na Praça dos Veteranos pelos grafiteiros Júlio Costa, Bigod e Prisk, do Museu de Street Art de Salvador (Musas). A ação foi uma parceria do coletivo com o projeto Salvador Meu Amor | Foto: Salvador Meu Amor/Instagram

Em artigo publicado na Arquitetura Revista, o professor Carlos Henrique de Lima afirma que a força dos coletivos urbanos está em rejeitar a projeção de estigmas, do medo e da violência em espaços de convivência coletiva. “Estes coletivos se pautam em estratégias consistentes para minar propostas autoritárias, com as quais os aparelhos de Estado constroem ações normativas”, esclarece.

O publicitário Maurício Galvão, idealizador do projeto Salvador Meu Amor, concorda que é preciso questionar a forma como o poder público lida com a arte na cidade. Só assim será possível pensar a reverberação das ações realizadas dentro deste espaço. “Queremos abrir o diálogo com a gestão municipal para levantar questões sobre o espaço público, mas também o apoio a essas ações no dia a dia e não somente com editais”, diz.

Intervenção coletiva para recuperação de canteiro abandonado no Gantois | Foto: Canteiros Coletivos/Facebook

Ações na cidade – Uma destas iniciativas é a exposição coletiva Politicarte. A mostra reúne peças pintadas sobre placas de propaganda eleitoral recolhidas de canteiros públicos, praças, escolas e jardins, após a última eleição. As obras estão expostas de quarta a domingo, em cinco pontos da cidade: Vale do Canela, Avenida Garibaldi, Câmara Municipal, Avenida ACM e Prefeitura. Depois de expostas, as obras serão colocadas à venda no Instagram do Salvador Meu Amor. “O valor arrecadado será revertido em um grande painel de grafite”, conta Maurício.

 

Além da Politicarte, outras ações são apoiadas pelo Salvador Meu Amor, que atua como um articulador de grande parte dos coletivos da capital. Descrito como um “movimento independente de gestos voluntários de amor pela cidade”, o projeto foi criado por Galvão no último ano da gestão do ex-prefeito João Henrique Carneiro.

“Decidi publicar fotos de coisas bacanas que rolavam em Salvador e conheci projetos que já estavam acontecendo, o que me deu ânimo. Comecei a mapear esses projetos e divulgá-los no Instagram”, conta. Mas divulgar não era suficiente e o publicitário criou a marca Gente Boa se Atrai, em parceria com o músico Peu Meurray, compositor da canção que dá nome à grife.

A ideia era gerar dinheiro, a partir da venda de produtos como camisetas, ecobags e postais, para ajudar a manter o próprio movimento e projetos parceiros. “Resumindo, estamos fazendo ações com baixo custo e alto impacto”, finaliza Galvão.

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