Grupos de jovens transformam espaços urbanos em locais de livre expressão

Grupos de jovens transformam espaços urbanos em locais de livre expressão

Indies, otakus, roqueiros e gamers são alguns dos agrupamentos que permeiam os locais públicos em Salvador

Guilherme Reis | Foto principal: Arquivo pessoal

Jardim de Alah, Museu de Arte Moderna (MAM), praças e pubs. Estes são alguns dos vários locais de Salvador utilizados como pontos de encontro por grupos de jovens que compartilham os mesmos interesses culturais, vestem-se de modo semelhante e ouvem os mesmos gêneros musicais. Conhecido como “tribos urbanas”, esse fenômeno tem se tornado cada vez mais presente no cotidiano das grandes cidades, sendo tema de debates e alvo de pesquisadores que tentam buscar uma relação entre esses indivíduos e os elementos que compõem a malha urbana.

Para o professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Oswaldo Mammana Neto, a formação de tribos e grupos de jovens é inerente à configuração das grandes cidades. “Onde essas manifestações de grupos juvenis se tornam mais visíveis à parcela da sociedade que ignora as complexidades de suas produções de sentido? Em que ambiente circulam informações especializadas produzidas como formas de representação dessas tribos? Na cidade”, aponta.

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De acordo com Neto, os grupamentos juvenis são antes de tudo um reflexo da globalização cultural e econômica, que difundiu estilos musicais que respondem aos anseios e inquietações dessas pessoas. “A cultura juvenil se desenvolveu vertiginosamente nas cidades através das músicas de protesto, do rock e de seus subgêneros, do reggae, do hip hop, e de diversos outros estilos musicais porta-vozes dos grupos juvenis que representam”, defende. Dessa forma, esses indivíduos procuram os locais que estão em consonância com o seu estilo de vida e os transformam em redutos de livre expressão.

A psicóloga Dalila Costa vai além e afirma que as tribos urbanas representam a busca por uma identidade própria. Segundo a profissional, a adolescência e o início da vida adulta incitam a busca por novos parâmetros de vida. “E para esta descoberta, o espaço familiar não é mais suficiente, o adolescente necessita de outras referências então, nesse momento, cresce a importância de inserir-se em um grupo. Essa inserção, proporcionará a legitimação dos próprios sentimentos e visões de mundo, além de visibilidade diante da sociedade e reconhecimento”, analisa.

Redutos – Henrique Mota é administrador do grupo virtual Indie e Alternative Salvador, dedicado a compartilhar conteúdos relacionados ao tema e a marcar encontros entre os membros. Ele explica que as reuniões costumam acontecer “em festas com apresentações de bandas e festas que envolvam música, como baladas” e locais públicos. “O Campo Grande, o Jardim de Alah e o MAM na maioria dos casos”, acrescenta.

Segundo Henrique, o interesse pelo grupo indie existe por sentir uma inadequação diante da cultura em que vive. “Eu como baiano, respeito muito a cultura do lugar onde vivo. Mas não consigo me sentir parte dele. Então vivemos numa busca para achar o lugar que nos sentimos bem, confortáveis e em casa”, declara. Sendo assim, acredita que a influência do grupo é quase sempre benéfica ao romper a solidão das metrópoles, mas pode se tornar prejudicial a depender da postura adotada por seus membros. “Se os seus membros não pararem para pensar e refletir as influências, e seguirem a diretriz do grupo de modo automático sem questionar, pode gerar seres robóticos que reproduzem aquele comportamento muitas vezes baseado naquele senso comum do grupo”, complementa.

Henrique (o segundo da dir. para a esq.) e membros do grupo indie reunem-se em festas e praças. Foto: Victor Carvalho

Lenon Gates, que se define como gamer, também acredita nos benefícios trazidos pela convivência com pessoas de estilo de vida semelhante. “Acho que na maioria dos casos é aprendizado, conversar com pessoas do meio de algo que você gosta te ajuda a descobrir mais e mais”, diz. Assim como outros jovens amantes de jogos e cultura digital em geral, Lenon costuma frequentar casas de jogos e praças da cidade. Alguns gamers frequentam a Liga Oficial Pokémon, no Shopping Bela Vista, também um dos points dos que se definem como otakus.


O Gamepólitan reúne gamers e amantes de jogos em geral

Os amantes da cultura japonesa em geral costumam frequentar praças, parques, shoppings e eventos de cultura oriental. É o caso de Yuri Santana, ex-administrador do grupo no Facebook Máfia dos Otakus, que reúne quase cinco mil pessoas. O grupo é dos mais ativos na cena urbana no que se refere à produção de eventos e reuniões entre os membros. “Promovemos encontros em praças públicas, shoppings e marcamos reuniões nos principais eventos, como Anipólitan, Bon Odori etc. Costumamos desenvolver atividades voltadas para o tema, sorteios de brindes, sessões de cinema e promover a socialização dos novos membros”, conta Yuri.

Realizado anualmente, o Anipólitan ocorre em Piatã Foto: Divulgação Anipólitan

Victor Karl é fundador do grupo Cosplayers – BA e conta que costumava realizar encontros mensais como forma de interação e troca de ideias entre os membros. As reuniões geralmente são realizadas em locais como shoppings e locais públicos “que possuam um cenário interessante para sessões de fotos e descontração”. Para Victor, a vida em grupos como o seu é positiva graças à afinidade. “Ainda mais quando esse gosto pode ser rejeitado pela maioria ou tido como estranho dentre os leigos. Levando para o lado que conheço, muitas pessoas têm interesse em fazer cosplay e não tinham respaldo ou apoio para começarem a confeccionar seus trajes”, declara.

Victor Karl vestido como Thor em um dos encontros de Cosplayers realizados em praças da cidade Foto: Arquivo pessoal

Roqueiro, Lucas Marques apresenta uma justificativa similar à de Victor para se inserir em um grupo. “Sempre fui excluído pela maioria na época do colégio, sempre fui o cara dos gostos estranhos, e acredito que com maioria funcione dessa forma. Então quando alguém assim acha um grupo de pessoas com os mesmos gostos estranhos, ela ‘entra para turma’”, acredita. Assim como os outros grupos citados anteriormente, Lucas costuma se encontrar com os seus “iguais” em praças e parques públicos, além de espaços para shows e outros eventos. Nesses momentos, todos chegam mais perto de satisfazer a necessidade de autoafirmação. “A necessidade de se afirmar como parte de algo existe, todo mundo quer ter seu grupinho de amigos, as tribos existem para se escolher o perfil desse grupo que melhor combinar com você”, defende.

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