Coletivos de arte transformam a rua em palco

Do circo à dança, o que interessa aos coletivos é estar em diálogo e em constante troca com as pessoas e a cidade

Virgínia Andrade

A rua é o espaço preferido dos coletivos que buscam integrar sua arte ao cotidiano da cidade. Cada bairro, praça ou largo ocupado acaba sendo tão protagonista quanto os personagens dos espetáculos apresentados, sejam eles de teatro, circo, música ou dança. O que interessa para estes coletivos é expandir as possibilidades de estar em cena e em constante troca com o público e a própria cidade.

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São em espaços abertos que os universos circense e teatral do grupo Nariz de Cogumelo e do coletivo de palhaços Palhaçaria de Choque ganham ainda mais força. “A arte na rua invade o cotidiano das pessoas, democratiza, desmistifica o fazer artístico e transforma a praça, ou espaço público, em um local de convivência e troca”, pontua a atriz Luiza Bocca, ou palhaça Calçolina Sexta-Feira 13.

Nariz de Cogumelo em cena com o espetáculo "É das Palhaças Que Eles Gostam Mais" | Foto: Ricardo Borges/Divulgação

Presente em praças públicas da cidade com números tradicionais de palhaço e circo, o Nariz de Cogumelo foi criado há oito anos, em Salvador. O objetivo era pesquisar a arte do palhaço no teatro e no circo. Mas não demorou para que o grupo extrapolasse os limites do tablado e montasse seu picadeiro na rua. Desde então, já criaram quatro espetáculos para a rua – o mais recente A Maré do Amor Sem Fim.

Também foi na rua e com muito bom humor que o Palhaçaria de Choque encontrou um jeito de protestar contra a violência adotada pela polícia militar diariamente. “Estamos defendendo nosso direito ao caos. Sou palhaça, acredito que o caos é necessário para o ser humano, que precisamos ter o direito ao caos para poder ir vir e rir como quisermos”, explica Naia Pratta, a palhaça Curri Gatarilda.

Palhaçaria de Choque foi às ruas com sua tropa no feriado de 7 de setembro | Foto: Lucio Tavora/Divulgação

Apesar de ter sido organizada durante as manifestações de 2013, o fim dos protestos não tirou os palhaços da rua. “O palhaço saiu do circo para ganhar o mundo de maneira ‘independente’ e foi para as praças, para as ruas, se apresentar e sobreviver. Então, estar na rua é um hábito do palhaço”, pontua. Ainda assim, durante o último desfile de 7 de setembro, viram cerceado seu direito de acompanhar o cortejo.

“Fomos barrados no final do Corredor da Vitória. Acharam [os policiais] que íamos bagunçar o desfile. Disseram que só podiam passar moradores e pessoas normais! Rimos muito disso. Ficou bem claro que o que desestabiliza não pode existir”, observa Naia. Veja o vídeo gravado pelo Palhaçaria após o ocorrido.

Educar para crescer – O duo arte e educação dá o tom nos projetos Balé da Comunidade e Coletivo de Artes João Ninguém, ambos desenvolvidos no bairro de Cajazeiras, em Salvador. Voltadas para jovens e adolescentes em situação de risco, as iniciativas investem em ações socioeducativas a fim de reeducar através da arte.

O ator e músico Aílson Leite criou o núcleo de formação de atores João Ninguém para resgatar a autoestima dos jovens da periferia e oferecer uma alternativa à criminalidade. “Nosso foco é o teatro, mas também tem hip hop. Como não temos patrocínio, contamos com o apoio de voluntários e da escola Leonor Calmon, onde realizamos nossas atividades”, conta o arte-educador.

Atores do Coletivo de Artes João Ninguém em cena com o espetáculo SOMA - O Mito da Caverna | Foto: Aílson Leite/Divulgação

Com apoio do edital Calendário das Artes, o João Ninguém volta a cartaz dia 5 de dezembro com o espetáculo SOMA – O Mito da Caverna. Além das apresentações teatrais, o coletivo realizará oficinas gratuitas de música, grafite e teatro nos centros culturais de Plataforma, Cajazeiras e Uruguai. “A ideia é realizar pequenas intervenções para formar plateia nesses locais e depois ocupar a praça com shows e oficinas”, sinaliza.

Assim como Aílson, o professor de dança e fundador do Balé da Comunidade, Edson Souto, também acredita na premissa “educar para crescer”. Com um corpo de 120 bailarinos, o grupo está em atividade desde 2003 e já recebeu mais de 600 jovens. O próximo passo de Souto é transformar o projeto em ONG.

Ocupar é preciso – Como o Coletivo de Artes João Ninguém, o Coletivo Boom Clap também acredita que a intervenção social deve acontecer a partir da arte e da cultura. Por isso, investe na ocupação artística dos espaços públicos da cidade. “A ocupação se faz de forma planejada e estratégica. Buscamos partir de um conceito de luta e causa e depois pensamos na parte artística”, explica o idealizador do coletivo André Costa, o MC Coscarque.

Conhecido como MC Coscarque, André Costa é idealizador do Coletivo Boom Clap | Foto: Divulgação

Integrado à rede colaborativa Fora do Eixo, o coletivo desenvolve ações de valorização do hip hop com apresentações musicais e rodas de bate-papo em escolas, realiza cursos de formação profissional em DJs e produção cultural e participa de debates em espaços acadêmicos. Em parceria com artistas, produtores e agentes culturais, o Boom Clap também costuma realizar ações em praças e largos do Centro Histórico.

A escolha dos espaços não é aleatória. “Se fazer presente com ações como as nossas dentro do Centro Histórico é um ato de pertencimento, um ato político, reivindicatório, transformador e de acessibilidade a bens e espaços culturais”, pontua Coscarque. Desde 2013, o Boom Clap realiza mensalmente uma edição do 3º Round – Circuito de Rima Improvisada no Pelourinho, evento que reúne rap, break e grafite.

A próxima ação do coletivo é o projeto SoteroHipHop. A iniciativa pretende reunir artistas e representantes do poder público e organizações não governamentais para discutir questões referentes ao uso e à ocupação do espaço urbano. “Se não nos organizarmos e levarmos nossas propostas para serem debatidas e inseridas em certos espaços, iremos permanecer na inércia e reclamando da falta de espaço e visibilidade”, ressalta.

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