Dia a dia nas praças: costume antigo volta a moda em Salvador

Dia a dia nas praças: costume antigo volta a moda em Salvador

Em seis anos, Salvador revitalizou diversas praças e agora registra crescimento na ocupação das ruas e na qualidade de vida dos bairros

Aymée Francine e Rebeca Menezes | Foto principal: Jôse Leite

Com o surgimento dos shoppings e a criação de condomínios que oferecem piscinas, academias, cinemas, salões de convivência, quadras e até bares, as pessoas passaram a não buscar as ruas como espaços de convivência. Famílias deixaram de se reunir nos largos e foram para as praças de alimentação dos maiores centros de compras. Aliada a essas facilidades, a violência urbana só aumenta a reclusão.

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Visando reverter esse movimento, as gestões municipais passaram a investir na construção e revitalização de áreas públicas de Salvador. Há seis anos, foram construídas as praças do Imbuí e da Avenida Centenário. A partir de 2012 foram desenvolvidos projetos de requalificação de áreas como Barra e Subúrbio Ferroviário. Segundo o site da prefeitura de Salvador, foram investidos mais de R$150 milhões nos últimos dois anos.

Decoração praça do Imbui

Para o gerente da Acidos Naturais, lanchonete na praça do Imbuí, José Carlos Mota, esse movimento cresceu muito com o passar dos anos. “Nos dias de maior movimento, sexta, sábado e domingo, temos cerca de 1,5 mil pedidos. No ano em que a praça foi inaugurada não chegava a mil. Isso porque somos um dos estabelecimentos que menos vende aqui, já que abrimos mais tarde e fechamos mais cedo. O pessoal dos bares atende o triplo de pessoas”, conta.

Para a dona de casa Tânia Bárbara, o aumento de propagandas sobre as alterações têm gerado curiosidade e atraído pessoas. “Quando a gente vai, vê que tem muita gente. Criança brincando, um lugar pra tomar cervejinha e dar risada, e acaba sempre voltando”, diz. Tânia tem dois filhos adultos e lembra que costumava levá-los para brincar fora de casa. “Quando meus meninos eram pequenos, a gente trazia eles para praça. Para brincar na rua. Fizeram vários amigos, alguns até hoje são grudados com eles. Agora que meu primeiro casou, estou esperando os netos para trazer eles também. Ainda mais que tem carrinho, pula-pula”, afirma ela, em referência aos diversos negócios de entretenimento infantil encontrados na região.

Feira de Adoção na Praça Ana Lúcia Magalhães.

Um deles fica na Praça Ana Lúcia Magalhães, localizada no bairro da Pituba. O casal Dimas Souza e Adriana Rios namora há 10 anos e passou a frequentar o ambiente quando resolveram adotar um cachorro na feira de adoção de animais da Associação Brasileira Protetora dos Animais em Salvador, que acontece no local em quase todos os finais de semana. “Desde então viemos aqui sempre trazer ele para passear e para passar o tempo mesmo. As pessoas vêm com suas famílias, seus filhos, fazem piquenique, andam de skate e bicicleta. Sentamos na grama e não parecem mais que estamos no mesmo ambiente de trânsito e estresse que é a cidade hoje”, avalia a jovem.

Para o secretário municipal de Desenvolvimento, Turismo e Cultura, Guilherme Bellintani, a recuperação dos espaços públicos e a organização de atividades variadas nesses locais fez com que essa mudança no perfil do soteropolitano ocorresse de forma natural. “O espaço melhor cuidado e o fomento a atividades como andar de skate ou bicicleta foi mudando a ocupação dessas regiões. A prefeitura vem fazendo sua parte, que é ordenar os espaços, fazer projetos e desenvolver tanto festivais como eventos menores, que de certa forma vão ampliando esse movimento”, defende Bellintani. Para o secretário, a maior quantidade de pessoas nas ruas acaba inibindo a ação de marginais e gera maior segurança.

Crianças brincam em praça na Pituba. Foto: Rômulo Portela

Mas Fábio Oliveira, morador do Imbui há dois anos, discorda. Ele acredita que a prefeitura poderia fazer mais. “Falta muita segurança por aqui. É importante nessas praças grandes que se tenha uma administração que tome conta fisicamente e também de quem vem frequentar. Meu filho já foi assaltado aqui, […] não se pode andar com nada de valor. Se der bandeira o pessoal leva”, reclama. Frequentador do local, Oliveira ainda defende que os espaços deviam ser melhor aproveitados, não só com comércio mas com atividades culturais. “Eu queria, na verdade, é que a praça tivesse política cultural para todo mundo. Não só os bares, mas um violão, uma peça, algo mais cultural e menos de farra”, confessa.