Mercado gay: pink money movimenta U$ 3 trilhões por ano

Mercado gay: pink money movimenta U$ 3 trilhões por ano

Poder de compra de público LGBT cria nicho de mercado e segmentação

Alexandre Galvão e Naiana Ribeiro

Ir à boate todo sábado é uma forma de divertimento. O passeio, no entanto, traz gastos, além de prazer. O táxi, as roupas de marca, a bebida, a entrada no clube e até a “capinha” colorida do iPhone fazem parte de um mercado muito maior. Para o público formado por lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, transgêneros, drag queens e simpatizantes (LGBT), a movimentação de dinheiro é ainda maior.

Configurado para atender as necessidades do público LGBT, o pink money (ou dinheiro rosa) une a necessidade de expressar ideias, poder ser e fazer o que quiser com a movimentação de grandes quantias de dinheiro. Segundo a empresa especializada em marketing Community Marketing Inc., o montante está estimado em U$3 trilhões. A empresa acredita também que mais de 400 milhões de pessoas, representantes de 5 a 10% do mercado global de consumo, movimentam o dinheiro rosa ao redor do mundo.

De acordo com a agência de marketing Witeck-Combs, só em 2011 o poder de compra de gays e lésbicas nos Estados Unidos excedeu U$ 835 bilhões. Uma pesquisa de mercado realizada pela agência Out Now revelou que este público contribuirá, até o final de 2014, com cerca de U$ 202 bilhões apenas para a indústria de viagens. Isso mostra que o pink money já passou de um mercado marginalizado para um espaço sofisticado. O levantamento também concluiu que os EUA e o Brasil lideram o mercado de turismo neste ramo, movimentando U$ 56,5 e U$ 25,3 bilhões, respectivamente.

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No entanto, todo esse poder de compra traz uma carga negativa. O pink Money estimula a segregação dentro do público gay, de acordo com o professor da Universidade Federal do Oeste da Bahia (Ufob) e integrante do Grupo de Pesquisa em Cultura e Sexualidade (Cus), Fábio Fernandes. Para ele, o pink money segrega, pois valoriza os modelos de existência heteronormatizados e impõe valores altos a quem quer fazer parte desse “maravilhoso mundo gay” a la The Week/San Sebastian. “Não há um interesse pela diversidade sexual e de gênero. Bichas, sapatas – aqui se apropriando do insulto pra ressignificá-lo -, pessoas trans pobres, pretxs, moradores de favelas, são consideradxs anomalias pelo pink money”, explica.

Pink money no Brasil – No Brasil, o público LGBT também representa um item importante no tocante ao movimento da economia. Segundo o fundador da LGBT Capital, Paul Thompson, o mercado brasileiro faz circular cerca de R$ 300 bilhões. Os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) também mostram o alto poder de compra deste público: cerca de 10% da população brasileira é composta por homossexuais e, desse total, mais de 9,4 milhões são economicamente ativos (potenciais consumidores com poder de compra e renda média individual de R$ 2,5 mil). Segundo o instituto Data Popular, somente em 2013, os mais de 67 mil casais que se declararam gays no IBGE movimentaram mais de R$ 6,9 bilhões.

Segundo a Associação da Parada do Orgulho LGBT (APOGLBT), a explicação para os gastos está na sociabilidade: gays, lésbicas, transsexuais e transgêneros saem mais de casa e ainda gastam mais. A maioria deste público gasta muito porque não tem filhos e consome em benefício próprio. Além disso, os LGBTs prezam pela sofisticação e pelo conforto, por isso, não se incomodam em pagar mais por produtos e serviços de qualidade.

Foto: Matheus Thierry

Points LGBT em Salvador – O mercado LGBT na capital baiana segue uma vertente paradoxal quando comparado à movimentação bilionária que o pink money tem no país. A cidade é marcada, cada vez mais, pelo crescimento de estabelecimentos fechados como points e, sobretudo, pela falta de segurança. Saunas, cabines e boates se reinventam e para tentar resistir ao mercado instável de Salvador.

O editor-chefe do site Dois Terços (especializado em produzir conteúdo para o público LGBT), Genilson Coutinho Pereira, afirma que a instabilidade do mercado soteropolitano é fruto da falta de fidelidade. “As coisas aqui abrem e fecham muito rápido, os clientes não são fiéis. Nos anos de 1980 e 1990 tínhamos alguns pontos mais movimentados com bares e restaurantes na Avenida Carlos Gomes, no Beco dos Artistas e no beco da antiga boate Off. Mas hoje a própria condição da cidade para programas noturnos não é ideal. Uma cidade que às 24h já não tem mais ônibus passando, fica difícil”, constata.

Ainda que não sejam os mesmos pontos de antes, há um mercado forte que movimenta a economia da cidade. “Um estabelecimento – seja boate ou sauna – chega a empregar de 20 a 30 funcionários. Há muitas pessoas envolvidas. A sauna Planetário 11, por exemplo, tem em média 10 funcionários e atrai de 150 a 200 pessoas diariamente. Uma boate como a San Sebastian ou The Hall, recebe em de 400 a 500 clientes em dois ou três dias da semana. Algumas delas chegam a atrair de 2 mil a 3 mil pessoas semanalmente, dependendo da programação. Já as saunas levam de 100 a 300 pessoas por dia”, diz Pereira. Segundo ele, além dos estabelecimentos que estão sempre cheios, existem eventos que atraem o público LGBT, como festas ou pontos como o Largo da Dinha e o Mercado do Peixe.

Já o antropólogo e jornalista Tedson Souza considera que o poder de consumo do público LGBT é mal aproveitado na capital baiana. “Salvador praticamente ignora o pink money. O Centro, que já foi o principal lugar da cena LGBT soteropolitana, hoje é marginalizado por uma série de questões, mas, sobretudo, porque é um lugar predominantemente negro e periférico”, afirma. Para Souza, é preciso profissionalizar o mercado, pois há uma falta de visão e um preconceito por parte do poder público e dos empresários. Segundo ele, a questão racial ainda é predominante. “Por que uma boate de hoje que fica na Orla do Rio Vermelho ou da Barra é bem recebida e tem um público alto? É a lógica do público branco de classe média. Até mesmo no ‘mundo gay’ tem segregação”, desabafa.

Ainda assim, ambientes específicos para o público LGBT existem há algum tempo e continuarão existindo, de acordo com Genilson Coutinho Pereira. “Nesses points e estabelecimentos, sobretudo no caso de saunas e cabines, há a questão da liberdade. Você não precisa ter maiores preocupações: vai ser bem recebido e ainda pode fazer coisas que não faria em outros lugares”, garante.

O Impressão Digital 126 fez um apanhado dos principais points LGBT em Salvador. Confira abaixo no infográfico:

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