Praças se transformam em refúgio para quem deseja se distrair na periferia

Praças se transformam em refúgio para quem deseja se distrair na periferia

Anderson Ramos

Em grande parte dos bairros periféricos de Salvador, não é novidade que a população carece de espaços de lazer. Nesses lugares, na sua grande maioria, os locais para se divertir se resumem às praças, às quadras e aos campos esportivos. Em Mussurunga, em cada um dos 11 setores, divididos por letras de A a L, existe , pelo menos, uma praça, que nos fins de semana costumam ficar lotadas.

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Jovens, crianças e idosos, ocupam as praças, seja para beber, brincar ou apenas jogar conversa fora. Mas esses mesmos lugares servem de espaço para eventos que mudam a rotina do bairro. O “Sarau Aa Cara do Ethos”, promovido pelo estudante de Filosofia Davi Sousa, acontece mensalmente, desde agosto de 2014 na praça do Setor A. Visando levar cultura e debate sobre diversos assuntos, o estudante não se intimidou em realizar o projeto ao ar livre, de forma improvisada.

“É o único espaço público que temos. Se não fosse dessa forma não existiria. Mussurunga é um bairro que não tem nada, não acontece nada e essa foi uma forma de contribuir para que o bairro comece a ser visto de outra forma. Trazemos convidados e divulgamos para chamar ainda mais gente. Só temos apoio ao projeto, ninguém critica”, resume Davi.

Um pouco mais adiante, no mesmo setor, outra iniciativa chama a atenção. O grupo Amigos do Bairro, promove o evento “Fome? Só de bola”, onde acontece o campeonato de futsal, aulas de dança e gincana para crianças. De acordo com Leonardo Bamberg, um dos idealizadores do projeto, o evento promove a inserção social, além de ser um atrativo para os moradores do bairro. “Com a ajuda dos moradores conseguimos reformar a quadra onde acontece o campeonato, que estava abandonada, cheia de buracos e servindo de ponto para usuários de drogas. Agora o local está sendo reocupado e utilizado como deve”, resume.

Num dos bairros mais populares da capital a situação não muda muito. “O maior bairro da América Latina”, como costuma ser chamado por moradores, conta com uma ampla variedade de serviços como bancos, supermercados, faculdades e um comércio efervescente. Porém na hora da diversão, as opções minguam drasticamente.

Em Cajazeiras, os pontos de encontro mais visitados são as praças, que ficam nas rotatórias que levam as divisões do bairro. Na famosa Rótula da Feirinha, na Cajazeiras X, é possível “encontrar de tudo um pouco”, como afirma o morador de Cajazeiras XI, Marcos Cota. “Tem acarajé, sorvete, bolo, pizzaria, churrascaria. O que quiser você encontra aqui”, diz. Mas a badalação cobra um preço. “O problema são os engarrafamentos gigantescos. Até no fim de semana fica complicado andar por aqui. Tentam organizar o trânsito, mas não adianta”, revela.

Em Pernambués, bairro mais ao centro, é na Praça Arthur Lago que as coisas acontecem. Mesmo estando muito bem localizado, os moradores tem de recorrer a bairros vizinhos se quiserem um pouco mais de diversão. Cabula, Brotas e a região do Iguatemi são os locais mais procurados por eles. Porém na Arthur Lago, o que também impera, é a quantidade de reclamações, já que está localizada em meio a condomínios residenciais. Os problemas não estão relacionados apenas ao barulho nos dias de descanso.

“Essa praça virou praticamente um local loteado pelos comerciantes. No fim de semana o pessoal põe o som alto mesmo sabendo que no entorno é área residencial. Não considero mais como point porque muitas famílias já não podem frequentá-la. A não ser que queiram ouvir e ver baixaria”, esbraveja a moradora Reni Mendes.

Já a comerciante Andreza Santana, que vende bebidas no local nos fins de semana defende sua ocupação. “Se não fossem os comerciantes esta praça estava largada as baratas. Somos nós que cuidamos dela”, retruca. Um grande problema para o bairro é a falta de espaços para a prática de esportes. Num dos poucos lugares onde a prática é estimulada, no Centro Social Urbano (CSU), as quadras se encontram em péssimo estado, embora muitos grupos pratiquem atividades por lá.

O projeto “Baketball Linces”, promovido pela ex-jogadora Izabel Linces, dá a oportunidade para jovens de Pernambués aprenderem e se dedicarem ao esporte. A equipe já conquistou vários títulos estaduais, regionais e nacionais, em várias categorias, mesmo com as dificuldades de se manter na quadra de basquete do CSU. “Esse é um projeto pioneiro na Bahia, mas que não conta com nenhum apoio. Temos que treinar nessa quadra em péssimas condições porque não temos outra no bairro. Treinamos à noite, onde mal há iluminação, mas se não for assim, o projeto não existiria. Não podemos parar, pois várias crianças recebem bolsas porque estão na Seleção Baiana. Acima de tudo é um trabalho social muito importante”, conclui Izabel.

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