Grupos investem em ações de promoção à cidadania

Da recuperação de canteiros à pintura de fachadas, cada coletivo colabora como pode e no que lhe parece mais urgente

Virgínia Andrade

Arte e cidadania são as palavras de ordem dos coletivos que extrapolaram as paredes dos espaços expositivos convencionais. A proposta é interagir, de maneira criativa e poética, com a cidade e com quem por ela circula. A ideia desses grupos é fazer as pessoas refletirem sobre como se vive nos grandes centros urbanos e reivindicar novas leituras dos espaços públicos. Tudo em favor do coletivo e da solidariedade.

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Em Salvador, as intervenções ambientais ganham força e cada um colabora como pode: desde a recuperação de canteiros até a pintura de fachadas. “As características de cada grupo apontam para detalhes das poéticas dos coletivos e atentam para as preocupações que estes têm em relação à cidade”, explica a artista visual Anne Marie Sampaio, no artigo Arte, Cidade, Esfera Pública: Ações Efêmeras no Espaço Urbano.

Menos muros, mais ideias – Aleatoriedade, humor e reflexões a respeito da vida e suas singularidades. O Grupo de Interferência Ambiental – GIA sugere que estes talvez sejam os pontos-chave do coletivo que foge a qualquer tentativa de definição. “Preferimos ficar alheios aos rótulos, e agir conforme os desejos e singularidades do grupo”, explica a professora de artes visuais Ludmila Britto.

Intervenção urbana "Cama", no Farol da Barra, em 2005 | Foto: Gia Bahia/Facebook

Formado por arte-educadores, designers e artistas visuais, o GIA atua na interface das linguagens artísticas contemporâneas que dialogam com a arte e o espaço público. Por meio de pequenas inserções no ambiente, o coletivo se insere na rotina de bairros da cidade. As ações permitem que o GIA discuta questões como excesso de lixo nas ruas, segurança e infraestrutura. “As ações são definidas coletivamente, em momentos em que quase todos opinam sobre a melhor maneira de realizá-las. Às vezes, uma grande ideia de intervenção surge de um único integrante do grupo, mas suas táticas de realização são lapidadas nas conversas”, comenta Ludmila.

Conheça outras intervenções do GIA.

A arte-educadora defende que é preciso repensar o espaço público e a maneira como a arte dialoga com as pessoas que compartilham esse espaço. “É preciso repensar que estamos todos partilhando espaços, os ditos ‘espaços públicos’, construídos por um sistema que nem sempre está atento aos desejos coletivos”, reflete.

Responsabilidade compartilhada – Logo ao chegar em Salvador, há três anos, a gaúcha Débora Didonê decidiu pôr a mão na massa e cuidar da cidade. Ao se deparar com um canteiro abandonado próximo à sua casa, mobilizou os amigos e recuperou o lugar. A intervenção aconteceu no Vale do Canela e foi a primeira de um movimento que deu início ao Canteiros Coletivos.

Praças e canteiros já foram recuperados em diversos bairros da cidade. “Na verdade a ideia era de muita gente, era uma vontade latente de se sentir transformador(a) da cidade. Uma espécie de gestão participativa encubada, querendo se reconhecer nos espaços coletivos”, pontua Débora. Nos mutirões de limpeza e plantio, cada um ajuda como pode. Mudas, tintas e até caronas solidárias são bem-vindas.

“É um espaço de trocas, em que cada um leva a sua experiência, oferece um tipo de ajuda e participação, mas em que todos se enxergam como um coletivo que interfere no espaço público de maneira positiva”, explica. A ideia do movimento é trazer à tona a sensação de bem-estar nos espaços de convívio social e a identificação das pessoas com esses espaços.

Por atuar em parceria com as comunidades dos bairros ocupados, o Canteiros coloca em destaque a questão da gestão participativa. Através de oficinas formativas, o coletivo busca capacitar lideranças para gerir seus próprios espaços. As comunidades do Gantois e do Engenho Velho de Brotas já recebem essa capacitação, por meio do projeto Formação Cidadã e Portal dos Canteiros Coletivos.

Clique no mapa e conheça os canteiros que já foram recuperados pelo coletivo

Que ladeira é essa? – Antes de ser estigmatiza com o apelido de cracolândia, a Ladeira da Preguiça era conhecida como um dos acessos preferidos por quem costumava tomar banho de mar na Baía de Todos os Santos. Era também a principal via de ligação do porto à cidade alta de Salvador. Por ela, circulavam artistas como o cantor e compositor Gilberto Gil, que compôs uma música em homenagem ao lugar.

Marcelo Teles mora na Preguiça desde que nasceu. Cansado do preconceito com que os noticiários policiais falavam de seu bairro, criou o Centro Cultural Que Ladeira é Essa?. A ideia era transformar a Ladeira em um circuito ativo de produção de arte e valorização da cultura. Com a ajuda de vizinhos e amigos de outros coletivos, organizou um mutirão para revitalização das fachadas dos casarões antigos do local.

A transformação significou o resgate da autoestima do bairro. “Representou o levante de mais um quilombo. Hoje a Ladeira da Preguiça é vista de outra maneira, com bons olhos. E se existe preconceito, ele deve ser invisível”, diz Marcelo, orgulhoso. O centro cultural promove atualmente oficinas de arte, aulas de percussão e atividades esportivas, além de abrigar uma biblioteca aberta à comunidade.

Um dos parceiros do Que Ladeira é Essa? é o Museu de Street Art de Salvador, o MUSAS. O coletivo é uma iniciativa dos grafiteiros Bigod, Marcos Prisk e Júlio Costa e investe em ações de valorização da cidade. Os usos do espaço público, os problemas da cidade e o acesso à arte também entram em pauta. Nas ações do coletivo, praias viram galerias, ruas viram cinema e bares, lugar de poesia.

Júlio Costa, Marcos Prisk e Bigod, grafiteiros do Museu de Street Art de Salvador | Foto: MUSAS/Facebook

“O Musas serve para irradiar a ideia de que você mesmo cuida, você mesmo limpa, você mesmo pinta sua cidade. Eu vivo todos os dias isso”, descreve Júlio. O coletivo saiu do Solar do Unhão após dois anos de atuação na comunidade. O motivo foi falta de dinheiro para comprar a casa que ocupavam. Esta foi a deixa para o trio expandir as atividades para outros bairros e dinamizar a produção de outros coletivos.

“Vimos que talvez todo o conteúdo de anos de independência podia ser mais útil”, lembra o grafiteiro. Além da Ladeira da Preguiça e da Gamboa de Baixo, o MUSAS também está presente em Manguinhos, Vasco da Gama; na Ocupação Cidade de Plástico, Periperi; e em São Brás, sua nova sede. “Chamamos de lar no recôncavo. Lá já inauguramos uma estátua de Zumbi dos Palmares e estamos fazendo outras homenagens com o graffiti”, conta.

Onde a cidade encontra a arte – Assim como o MUSAS, o Atelier Coletivo VISIO. é feito por quem quer mudar Salvador. Um espaço aberto, onde os artistas pintam, conversam e trocam ideias entre si e com o público. Criado pela artista visual e ativista cultural Andrea May, o VISIO. acontece em vários formatos e reúne artistas de diversas linguagens.

Lê-se “visio ponto” e como o próprio nome sugere é um ponto de encontro virtual e presencial sobre a visualidade. “[o atelier] Serve para troca de informações, estilos e inspirações das artes plásticas, fotografia, arte digital, design gráfico, videoarte, web art, live act, dentre outras linguagens em Salvador, no Brasil e no mundo”, explica May.

Para a artista, o que muda do trabalho individual para o coletivo é a força que ele ganha quando se desprende dos objetivos particulares para pensar no todo. Por isso, acredita que a arte em diálogo com a cidade significa “imersão sem restrições, acessível a todos os olhares, possibilitando novos sentidos e valorização da cultura com maior pertencimento”, ressalta.

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