O uso de dispositivos móveis em salas de aula

O uso de dispositivos móveis em salas de aula

 

O ID126 discute o projeto de lei que quer proibir a utilização de tecnologia móvel em todas as escolas do país

Caíque Bouzas | Foto destaque: Caíque Bouzas

Em análise na Câmara dos Deputados, um projeto de lei prevê a proibição do uso de aparelhos eletrônicos portáteis, como celulares e tablets, nas salas de aula do Brasil. O PL 104/15 abrange a Educação Básica e Superior do país e se justifica a partir do argumento de “preservar a essência do ambiente pedagógico.” Em parágrafo único, fica acordado que os aparelhos podem ser usados “desde que inseridos no desenvolvimento de atividades didático-pedagógicas e devidamente autorizados pelos docentes ou corpo gestor.” O ID126 ouviu alguns especialistas, coordenadores, professores e estudantes para entender melhor como é a relação com os dispositivos móveis nas aulas.

Para a Mestra em Educação e pedagoga Karina Menezes, a lei é inconveniente, pois a concepção de educação que a respalda está equivocada. É preciso analisar também como os smartphones e tablets chegam aos alunos nas escolas. “Se não chegam através das iniciativas individuais, chegam por políticas públicas que colocam netbooksnotebooks, computadores de baixo custo ou tablets nas mãos de estudantes e professores”, explica.

De acordo com Karina, falta articulação e diálogo sobre intenções claras e compartilhadas entre estudantes, pais, professores e gestores. A proibição prevista pela lei não pode ser considerada um apoio aos professores. “Diferente do que pode parecer, essa proibição não vem como apoio aos professores e aos educadores, mas coloca neles toda a responsabilidade que deveria ser de toda a sociedade.”

Extensão para a educação, o uso nas salas de aula gera polêmica | Foto: Caíque Bouzas / Labfoto

O professor titular da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (Ufba) André Lemos argumenta que o uso de aparelhos na sala aula para fins não didáticos é muito nocivo por conta da dispersão, mas uma lei que proíbe a prática é uma medida radical. “Se não for para fins didáticos, o celular tem que ficar fora, assim como a pessoa não pode entrar na sala de aula e abrir um jornal enquanto estamos dando aula”, diz o professor.

Segundo Lemos, o uso tem que ser controlado. “Temos que buscar um meio para trazer o inimigo para próximo”, afirma. Ele já está em sua terceira experiência com o uso dos dispositivos nas aulas. “Pedia para colocarem coisas nas redes sociais que tivessem relação com a aula. Nunca apareceu nada, ainda que usassem bastante.” Depois a solução foi proibir. Mas atualmente, com o método de “classe invertida”, pede para que debatam na sala e usem os aparelhos como suporte.

Legislar contra o uso dos aparelhos em ambientes educacionais é um retrocesso, segundo Karina. Ela cita uma publicação feita pela Organização das Nações Unidas para a Educação (Unesco), financiada pela Nokia em 2013, que elenca benefícios que as tecnologias móveis trazem para a educação. Ela salienta ainda a importância de tais tecnologias para a inclusão de alunos deficientes. “Hoje, já observamos na universidade estudantes surdos que recebem, pelas mensagens de celular, esclarecimentos dos colegas enquanto um professor faz a sua aula oralmente, sem a presença de interpretes de libras. Isso é a nossa realidade, que não é ideal, e exatamente por isso é o cenário do qual emergem as respostas dos próprios estudantes para lidar com as dificuldades, usando para isso as tecnologias que tem em mãos.”

Dificuldade
No Colégio Estadual Severino Vieira, os vice-diretores Sheise Teixeira e Valmor Castro encontram dificuldades para lidar com a proibição do uso dos aparelhos nas salas. O colégio tem Wi-Fi liberado e a flexibilidade para a utilização tem gerado conflitos. “Não utilizamos uma regra única. Não chegamos nesse consenso na escola. O tema já foi alvo de várias reuniões de professores. Uma parte precisa usar e outra é totalmente contra”, conta Sheise.

Dispersão é um dos fatores que atrapalha as aulas | Foto: Caíque Bouzas / Labfoto

De acordo com Sheise, nas provas tem aluno que até fotografa para compartilhar as respostas. “Isso acontece. Colam mesmo. Não é folclore”, revela. Alguns usam a lábia para enganar os professores que não são da matéria que estão tomando conta da prova, alegando permissão para usar calculadora.

Segundo Castro, o problema é bem mais recorrente no turno matutino, por conta da idade dos alunos. Durante a tarde e noite, eles são mais velhos e estão acostumados com aulas tradicionais. “Vem do grau de maturidade. Os alunos da noite trabalham, são pais e aceitam mais as orientações”, explica o vice-diretor.

Uso consciente
O professor do eixo de infraestrutura Anderson Spavier sempre pede que desliguem antes de começar, mas abre brechas dependendo dos pedidos dos alunos. “Recentemente, estava dando aula de uma matéria de desenho industrial. Queria que o aluno prestasse atenção, pois estava desenhando e explicando ao mesmo tempo. No fim, me perguntaram se poderiam fotografar e eu não me opus.”

O celular na aula da professora Valda Barbosa é tratado como uma ferramenta | Foto: Caíque Bouzas / Labfoto

A professora de matemática Valda Barbosa vê o uso dos aparelhos de forma positiva. Ela diz que os próprios alunos estabelecem regras de convívio em sala. Eles usam para fazer contas, pesquisar e se distrair após a prova, enquanto esperam os outros colegas acabarem.

A aluna do terceiro ano do ensino médio do Colégio Salesiano, Yasmin Prates, 17, diz saber da importância do uso adequado do celular na aula. “Costumava usar antes, mas agora no 3º ano eu parei. Sempre desligo no início da primeira aula e só ligo no intervalo”, afirma.

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