Educação para a vida

Educação para a vida

A trajetória e os planos futuros de Monique Evelle, idealizadora do projeto Desabafo Social

Carolina Filgueiras | Foto destaque: Arquivo – Desabafo Social

Obstinação é palavra de ordem para Monique Evelle, jovem cheia de sonhos e ideais. É assim que a criadora do projeto Desabafo Social se enxerga, com apenas 20 anos. Aos 16 já tinha o desejo de transformar a realidade de jovens e adolescentes, ao desenvolver um trabalho que dialogasse com os direitos humanos, comunicação e cidadania. Desde os tempos de escola, Monique já se interessava e atuava na busca por esse lugar de fala, onde ela pudesse contribuir para uma construção social mais digna e humana.

Assim foi criado o projeto Desabafo Social, DS e ganhou força, com o desenvolvimento de atividades em plataformas on-line, cursos, palestras e workshops, além de oficinas em comunidades, instituições e participações em eventos. Hoje o DS está presente em treze estados brasileiros e estimula o contato dos jovens com os Direitos Humanos e a participação juvenil em diversas causas sociais.

Monique também tem sido exemplo para jovens, e em 2013 ficou entre as 25 negras mais influentes da internet brasileira, pelo site Blogueiras Negras. Em março de 2014, o DS levou o Prêmio de Protagonismo Juvenil pela Associação Brasileira de Magistrados, AMB, Promotores de Justiça e Defensores Públicos da Infância e da Juventude. O ID126 bateu um papo com Monique sobre o seu projeto.

Oficinas do Desabafo Social em Maceió-AL | Foto: Desabafo Social

Impressão Digital 126: Como surgiu o interesse em criar o projeto Desabafo Social? 

Monique Evelle: Quando comecei com o Desabafo, a ideia era que ele fosse um projeto do grêmio estudantil do colégio onde estudava, o Thales de Azevedo. Só que a gente entrou pro grêmio no meu último ano de colégio. Estávamos prestes a sair. Não dava para fazer quase nenhuma ação. Terminado o colégio, cada um dos membros do grêmio tomou outros rumos e eu acabei levando o DS sozinha, fazendo oficinas com crianças no bairro onde moro, o Nordeste de Amaralina. Fazia exibição de filmes na minha casa, mas o espaço foi ficando pequeno para a quantidade de crianças e tive que transferir as oficinas para a minha rua. Em um determinado momento, sozinha e sem grana, precisei repensar o projeto. A partir daí, criei com uma amiga uma revista do Desabafo. Na época era algo bem simples, só para postar na internet. No dia 02 de dezembro de 2012, lançamos a revista nas redes e foi nesse dia que o Desabafo Social virou uma rede. Pessoas de todos os cantos do Brasil começaram a me procurar perguntando como poderiam fazer parte do projeto, mas eu não tinha grana nem condições de manter uma rede desse alcance. Hoje crescemos e contamos com uma equipe de oito jovens e adolescentes espalhados pelo país.

ID 126: Hoje o DS conseguiu um alcance maior, com colaboradores espalhados por sete estados brasileiros. Como você consegue manter essa conexão de trabalho? Você conta com patrocínio?

ME: O dinheiro que mantém o DS hoje sai do meu bolso. Minha mãe era empregada doméstica e por motivos de saúde precisou parar de trabalhar e meu pai é segurança. Mesmo com todas as dificuldades, eles sempre me deram ajuda financeira para manter o projeto. O que facilitou bastante foi às tecnologias nômades. Enquanto eu não entrei na rede, ninguém sabia da existência do DS. Bombou, porque eu criei uma página. Mesmo com toda visibilidade, a gente não conseguiu nenhum apoio, nem logístico, nem financeiro. Recentemente, recebi uma notícia que deve mudar a estrutura de trabalho do DS: a Defensoria Pública do Estado cedeu uma sala com todos os equipamentos necessários e nos colocou na lista de projetos deles para 2016.

Oficinas do DS no Nordeste de Amaralina | Foto: Desabafo Social

ID 126: O DS ainda é um projeto novo, mas com bases sólidas. De que forma você enxerga esse projeto daqui a alguns anos? 

ME: A gente conseguiu tudo muito rápido. São só quatro anos de caminhada, mas a intenção é que os anos se prolonguem. Como nosso objetivo principal é a educação e sempre sonhei em ser professora, acho que o meu ideal seria transformar o DS numa escola livre, com pensamentos libertários e que construísse suas bases dialogando com os direitos humanos e através da prática, do aprender fazendo. Eu vejo o DS dessa forma: um lugar de construção livre, num espaço maravilhoso e que pode se manter sozinho, prestando serviços para a população.

ID 126: A imprensa tende a reafirmar as desigualdades e conflitos sociais em algumas abordagens. Você, enquanto agente de mobilização acredita na possibilidade de construir uma imprensa ou mídia livre dessas estruturas de poder? 

ME: Acredito. Tive um professor que sempre me dizia o seguinte: “Se você odeia a mídia, torne-se a mídia”. No momento em que ouvi isso, fiquei inquieta e entendi que tinha que estar nesse lugar. Se pensarmos em acesso à internet no Brasil, os dados são tristes ainda, mas hoje temos possibilidades de produção e difusão de conteúdos de diversas formas, a exemplo do sistema Vojo. Lá você pode publicar na internet sem acesso a ela. Isso é sensacional. Imagina você popularizando ferramentas possíveis para essa galera? É democratizar os acessos e torná-los horizontais. É por isso e para isso que eu trabalho.

ID 126: Saiu uma matéria no “Blogueiras Negras” com um ranking de 25 mulheres negras influentes na internet e você estava na lista. Como é a sensação de se ver como espelho para outros jovens e adolescentes?

ME: Me ver naquela lista me deu um choque. O ranking tinha pessoas de quem sou muito fã. Eu estava sem internet quando publicaram e só tive acesso à matéria dias depois. Na hora, perguntei para mim mesma: “o que faço com isso?”, meio sem acreditar. Claro que é bom ver nosso trabalho reconhecido. Até porque tomei muito “não” na cara, de pessoas que na época não acreditavam na ideia do Desabafo. Mas com o reconhecimento vem também a responsabilidade.

Encontramos na Internet um vídeo sobre o trabalho de Monique feito pelo Imagina Coletivo.

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