Animal na pista

Animal na pista

A rotina de quem resiste à modernização e mantém a tradição de usar animais como meio de transporte

Lucas Gama | Foto destaque: Lucas Gama

Era domingo. Encontro Antônio Lopes, vulgo Totinho, no centro de Paripe, próximo à feira. Lá, ele e seu parente, Ramiro, alugam um largo terreno, com pasto, para seus dois cavalos. Os cavalos “Cochilo” e “Brinquedo” são inseparáveis. “São como dois irmãos. Se um ficar longe, o outro fica triste. Emagrece e adoece”, conta Totinho. Neste dia, os cavalos recebem um banho “vip”, com sabão de côco, dado pelo compadre Ramiro. Depois, comem um pouco de aipim cru da feira, como um regalo, um carinho, para quebrar a monotonia da grama do pasto e se preparar para a cavalgada.

O cuidado especial com os bichos, além de demonstrar o carinho pelos animais, tem uma segunda razão. Isso porque seu Antônio Lopes e o seu compadre, Ramiro, ainda utilizam seus cavalos como meio de transporte. Embora ainda seja uma realidade, o uso de animais como meio de locomoção tem se tornado cada vez menos frequente no dia a dia da cidade.

A cena é rara tanto no centro, quanto nas regiões mais periféricas. Pode-se argumentar que isso deriva de um processo natural, resultado da modernização. A estrutura da cidade–metrópole já não comporta essa prática, por questões de segurança, pela dificuldade de manter o animal no meio urbano e pela maior acessibilidade a veículos motorizados.

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De acordo com o Código de Transito Brasileiro (CTB) cabe aos municípios permitir e regulamentar o uso de animais como meio de transporte. A cidade de Brasília, por exemplo, decretou, em 2014, a proibição da prática nas áreas urbanas da cidade. Já em Belo Horizonte, uma lei municipal foi aprovada com a intenção de regulamentar e criar formas educativas para o uso de carroças e animais no trânsito, com a intenção de zelar pela segurança e saúde dos animais e dos cidadãos.

“O código de trânsito prevê medidas para disciplinar quem usa animais como meio de transporte. A intenção é zelar pela segurança”, pontua o funcionário administrativo da Superintendência de Trânsito de Salvador (Transalvador), Roque Cerqueira. Em Salvador, não há uma lei que determina uma regulamentação desses tipos de transporte. Cerqueira explica: “Não há demanda”.

Por outro lado, a diminuição do uso de animais como meio de transporte também pode ser explicado pelo que Cerqueira denomina de fato social. “É custoso manter um animal na cidade. É preciso vaciná-lo, alimentá-lo diariamente e ainda abrigá-lo em um local seguro . Muitas pessoas optaram por trocar os animais pela praticidade das cinquentinhas. Isso é um fato social”, conclui. Até 2013, em todo estado da Bahia, ciclomotores, principalmente as popularmente conhecidas como cinquentinhas – que não ultrapassem 50 Km por hora – estavam legalmente isentas de fiscalização.

História e Tradição

A medida que houve expansão automobilística, as carroças e os animais foram perdendo espaço pros novos veículos, mas foi um processo lento. Nem todo mundo tinha dinheiro para comprar carro – até mesmo quando seus preços se tornaram mais acessíveis.

Os animais eram usados como transporte de cargas e pessoas na cidade de Salvador. Até um pouco mais da metade do século 20, a cidade ainda tinha uma estrutura de casas e algumas regiões, como Itapuã e a ilha de Itaparica, ainda eram grandes fazendas – o que propiciava o uso de animais como meio de transporte no dia a dia.

Ladeira da Barra em 1885 | Foto: Guilherme Gaensly / Arquivo Fundação Gregório de Mattos
Ladeira da Barra em 1885 | Foto: Guilherme Gaensly / Arquivo Fundação Gregório de Mattos

“Cresci morando em uma casa grande, com muito terreno e vários animais, como galinhas e burros”, conta Marcia Bessa, que até 1967 morou na casa Vila Serena, hoje, um condomínio na Ladeira da Barra. A modernização e os edifícios reduziram os pastos e locais para guardar os animais. O próprio asfalto propiciava a locomoção tanto de pedestres, quanto de veículos.

Segundo o antropólogo Eduardo Guimarães, nas décadas passadas, os animais eram utilizados como transporte, trabalho, mas também em festejos. “Até o final da década de 1980 e início da década de 1990 sempre se via duas ou três carroças na porta dos depósitos de material de construção no bairro de Pero Vaz” conta o antropólogo e professor Eduardo Guimarães, que foi criado no bairro da Liberdade. “Eram as mesmas carroças que estavam na Lavagem do Bonfim”, completa.

“Carroça em meio ao trânsito” | Foto: Arquivo Fundação Gregório de Mattos/ Diário de Notícias

Nas festas típicas da cidade, era comum ver o cortejo sendo puxado por  burros, mulas e jumentos, como na Mudança do Garcia, durante o carnaval, na festa do largo de Itapuã e na Lavagem da Igreja do Senhor do Bonfim. Na Festa ou  Lavagem do Bonfim, por exemplo, os animais eram utilizados por conta da distância (pois, na época, a Colina Sagrada ficava longe do centro, local de veraneio e de manguezal) e das chuvas.

“Lavagem do Bonfim – Carroça enfeitada” | Foto: Arquivo Fundaçao Gregório de Mattos / Prefeitura Municipal de Salvador

“A Festa do Bonfim não era uma festa de verão. Acontecia no mês de junho. Mudou para o verão por causa das máximas pluviométricas desse período”, explica o antropólogo. As mulas ou melhor, os jumentos – pois para a festa usavam-se “mais jumentos do que mulas” ressalta o Guimarães -, cruzavam a distância e passavam pela lama. “Se pagava para ir na carroça”, complementa. “Também era no lombo do cavalo que as pessoas levavam água, vassouras e comidas para a lavagem”, lembra.

Após os preparativos, Totinho e “Cochilo” estão prontos para a cavalgada | Foto: Lucas Gama

Como se ainda estivesse nos anos 1980/90, seu Totinho cuida do seu cavalo “Cochilo”. “A ferradura não fere a pata, pois passa pela unha, que não tem carne”, explica Totinho, que há mais de 50 anos andando a cavalo. Brinquedo, para seu Toinho, é tal qual o cavalo Rocinante, de Don Quixote de La Mancha: sempre o conduz pelas andanças da vida.

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