Skate: uma alternativa de estilo

Skate: uma alternativa de estilo

Mesmo com os problemas da cidade, o uso do skate como método alternativo de transporte vem ganhando força

Maili Dias | Foto destaque: Fernando Gomes

Com as limitações de locomoção em Salvador, que conta não só com um trânsito caótico, como também limitações nos transportes públicos, muitos jovens acabam transformando o lazer em uma alternativa aos problemas de mobilidade que a cidade enfrenta. É dessa forma que andar de skate deixa de ser apenas um esporte e torna-se meio de transporte. Mas será que a cidade e os seus habitantes estão preparados para os skatistas que querem deixar as pistas de skate e tomar as ruas?

O estudante Fernando Hiltner, 20, acredita que Salvador ainda apresenta déficit na estrutura para aqueles que querem fugir dos métodos tradicionais de locomoção. “Tenho dois skates, mas eles ficam guardados nos dias de semana. Não me arrisco a sair andando pela cidade, uso eles apenas em lugares com pistas ou em praças e calçadas”, esclarece Hiltner.

Segundo o estudante, outro problema seria a intolerância dos motoristas soteropolitanos com quem anda de skate ou bicicleta. “Quando tentei ir para faculdade de skate o problema não foi só as ladeiras e falta de pista apropriada, as pessoas também são muito mal-educadas. Os carros cortam e os ônibus passam raspando. Não existe respeito com o pessoal que anda de bicicleta, imagina com os skatistas”, queixa-se.

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Apesar dos problemas, existem vantagens

O fenômeno de incentivo político e da própria sociedade pode ser explicado pela busca de métodos alternativos aos meios de transporte tradicionais e que sejam ecologicamente corretos e menos poluentes. Além disso, outro benefício do skate seria a possibilidade de se exercitar enquanto se locomove para o lugar que queira ir.

“Com essa situação caótica do trânsito de Salvador, para mim é muito melhor ir de skate para o seu destino. É muito mais econômico, saudável, sustentável e divertido”, ressalta o estudante Hector Durier. Ele pratica o esporte desde os doze anos e usa o skate como alternativa a falta de bons transportes públicos na cidade, além de acreditar que é uma alternativa que faz bem para saúde e ao meio ambiente.

Ainda assim, Durier acredita que, apesar de estar melhorando, a cidade ainda é falha em sua estrutura para o esporte se tornar meio de transporte.  “Ainda não tem como andar em via pública com segurança. Tem muitos buracos, o asfalto é ruim e há ainda a má educação dos motoristas que não respeitam os skatistas e ciclistas”, acrescenta.

Para além de Salvador

Em muitas cidades do mundo, como Portland (Estados Unidos), Lyon (França) e  Sydney (Austrália), o uso do skate para transporte já é visto como método legítimo e muito mais habitual de se ver. O jornal The New York Times publicou, em 2013, uma reportagem especial sobre jovens que usam o skate para trabalhar, estudar, encontrar amigos e fazer atividades do dia-a-dia na cidade de Nova York, nos Estados Unidos, onde seu uso é liberado como meio de transporte legítimo.

Motivado pela política em Nova York, a prefeitura da cidade de São Paulo liberou o uso de ciclovias para os skates, com o intuito de diversificar os meios de transporte e também de popularizar as vias especiais. Na cidade do Rio de Janeiro, o uso do skate para mobilidade urbana já é considerado parte do estilo de vida carioca e seu uso vem crescendo entre mulheres, pessoas com mais idade e por àqueles que querem mais do que apenas praticar o esporte.

O carioca Raphael Logan anda de skate desde os sete anos e acredita que o Rio de Janeiro já tem uma estrutura qualificada para seu uso, mesmo comparada à cidades no exterior. “Passei um tempo em Copenhagen na Dinamarca e lá a gente consegue ir de uma ponta a outra de bike ou skate. Não vejo aqui muito diferente, mas os responsáveis por isso têm que querer nos ajudar também”, afirma Logan. Ele usa o skate para ir para todos os lugares que considera acessível e que não sejam arriscados, por seu um objeto prático e fácil de guardar e, principalmente, para fugir do trânsito.

Usuários variados

O skate é um esporte visto como um esporte masculino, mas as mulheres se mostram cada vez mais interessadas em dominar as práticas e também levá-las para a vida cotidiana. É o caso da estudante Renata Assis, que usa o skate para ir ao trabalho e para alguns eventos que acontecem por perto de onde mora. “O skate é mais que um esporte, é um estilo de vida. Ele não só é usado como atividade física ou hobby, mas também como meio de transporte”, indica a skatista.

A skatista Renata Assis | Foto: Fernando Gomes

Renata acredita que a estrutura na cidade de Salvador está melhorando mas apenas para prática do esporte e não para ser usado como meio de transporte. “O fato de não haver ciclovias para essa locomoção é um problema. Daí vamos para as ruas disputar espaço com motos e carros, é muito perigoso”, pontua.

No Brasil o método skate ainda vem buscando condições propícias para se instaurar e ainda é visto como incomum. O fenômeno, no entanto, mostra que vem apresentando cada vez mais potencial e aderência. Além de ser considerado um meio de transporte ecológico limpo, por não emitir poluentes nem depender de combustível, é também uma atividade física, um esporte, um estilo.

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