Construção da ponte SSA-Itaparica deve começar esse ano e divide opiniões

Construção da ponte SSA-Itaparica deve começar esse ano e divide opiniões

A ponte, que tem previsão de entrega em 2020, é destaque no projeto de desenvolvimento socioeconômico e ambiental do Governo

Ailma Teixeira | Foto destaque: site do empreendimento

Quem costuma frequentar a região de Itaparica na Bahia já tem como rotina do feriado aproveitar as praias, a maré baixa e as grandes filas nos terminais de ferry boat e das lanchas. Nos feriados tradicionais como reveillón e Semana Santa – quando há maior fluxo de pessoas no trajeto Salvador-Itaparica – o tempo de espera nas filas de embarque já passou de dez horas.

Passageiros perdem muito tempo nas filas do Ferry boat | Foto: Caíque Bouzas

Entretanto, há um projeto em fase de andamento que pretende melhorar o transporte de Salvador para Ilha e vice-versa. Trata-se da construção da Ponte SSA-Itaparica com 12,2 km de extensão, que deve ter suas obras iniciadas ainda este ano. A ponte, que deve estar pronta em 2020, de acordo com cronograma da Secretaria de Planejamento do Estado (Seplan), pretende otimizar o acesso de pessoas e mercadorias na região, diminuir o fluxo sobrecarregado nos terminais de ferry boat e, principalmente, promover o desenvolvimento socioeconômico da ilha.

Infografico | Fonte: ID 126

O administrador de empresas, Fabiano Oliveira, 37, já precisou adiar viagens para a ilha de Barra Grande, onde está construindo um chalé, em decorrência dos transtornos com o sistema ferry boat. Oliveira, que vai para ilha quase todo fim de semana, tem uma relação antiga com o lugar. “Meu pai tem casa lá há quase 30 anos e mesmo antes sempre alugava”, lembra. A família, que era do interior, gostava de curtir a “tranquilidade da ilha”, além do atrativo do baixo custo da viagem.

Os terminais marítimos de Bom Despacho e São Joaquim também são muito conhecidos pela estudante de medicina veterinária, Marilaine Sousa, 21. No momento, Marilaine têm duas residências: uma em Salvador e a outra na cidade de Vera Cruz para onde retorna entre duas a três vezes na semana. Nascida e criada lá, a estudante costuma fazer suas viagens de lancha. “Prefiro viajar de lancha pelo fato de ser o transporte mais rápido, mas às vezes ficam superlotadas e não rodam 24 horas”, conta.

Investimento

A ponte faz parte do Sistema Viário Oeste (SVO), projeto de desenvolvimento socioeconômico e ambiental da Seplan. Orçado em R$ 7 bilhões de reais, o SVO compreende outras obras como a redefinição do traçado da BA-001 na Ilha de Itaparica; a duplicação da Ponte do Funil entre as cidades de Vera Cruz e Jaguaripe, a requalificação das estradas BA-001 e BA-046 até Santo Antônio de Jesus, a construção de trecho de rodovia entre Santo Antônio de Jesus e Castro Alves, a requalificação da ligação viária entre Castro Alves e a BR-116 e a criação de novas avenidas em Salvador.

Segundo informações divulgadas pela secretaria, o sistema prevê estímulos ao desenvolvimento das regiões impactadas com o projeto através da educação, saúde, segurança pública, logística, indústria naval, turismo, agricultura, comércio e construção civil. Em comunicado enviado ao Impressão Digital 126, eles afirmam que “em 30 anos, a expectativa é que o crescimento destas atividades possibilite a criação de 100 mil novos postos de trabalho”.

Para Oliveira e Marilaine, a construção da ponte representa benefícios. A estudante, que pretende fixar estadia em Salvador, acredita que na nova via de acesso as viagens serão mais rápidas e o fluxo de pessoas e mercadorias irá aumentar. Ela defende que a ponte “reduziria o custo no transporte de mercadorias, reduzindo assim os impostos sobre os produtos que são importados de outras cidades para ilha”.

A construção da ponte também reduzirá a distância de transporte terrestre entre a capital e cidades da região sul do estado como Ilhéus e Porto Seguro. Consulte no mapa produzido pela equipe do empreendimento que ilustra a melhoria proposta pelo empreendimento nessa questão.

Para o administrador, em contrariedade aos conselhos dos amigos que investem em imóveis na região do litoral norte – um deles garante que nos primeiros três meses que aluga já fatura o equivalente aos gastos do ano inteiro –, está construindo uma casa de veraneio na ilha de Barra Grande. Oliveira tem planos de transformar o terreno em um chalé, onde possa aproveitar com sua família, mas também alugar para outras pessoas.

A criação da ponte interessa aos negócios do administrador, pois, para ele, até a especulação já atrai investimentos. “Quando ainda estavam fazendo mergulhos na área para avaliação, eu cheguei a receber uma proposta para vender um dos meus terrenos. Ou seja, isso já chama a atenção de investidores para o desenvolvimento da área”, conta.

Via de mão dupla

Mas há quem discorde de Oliveira e ache que o investimento na ilha deveria ser anterior à criação da ponte. É o caso da aposentada de 63 anos, Ligia Machado. Dona Ligia tem casa em Barra Grande há mais de 20 anos e não vê com bons olhos a construção. “Se a ilha tivesse infraestrutura poderia ser bom, mas não tem. A ilha não tem saneamento básico, hospital, escola e a ponte a encheria de gente”, justifica.

A estudante de Bacharelado Interdisciplinar em Saúde, Andressa Silveira, 21, vai mais longe e diz que a ponte tornará a ilha – que tem como característica ser uma área de tranquilidade – mais violenta. Com casa em Cações, distrito a 42 km de distância de Bom Despacho, Andressa frequenta a ilha desde que nasceu. “Era uma fazenda, a Fazenda Cações, e minha família era dona de tudo. Com o passar do tempo, foram vendendo os terrenos e virou um vilarejo”.

Embora sua família ainda tenha alguns terrenos que poderão ser valorizados com o desenvolvimento do local, ela se mantém contra a construção. “Acho que a violência vai aumentar muito do lado de lá. Os engarrafamentos provavelmente serão constantes devido o fluxo de pessoas, tanto moradores, quanto turistas que vão utilizar a ponte”, defende. Com o melhor acesso, investimentos surgirão, portanto, se espera que a ilha seja mais povoada.

Já Dona Ligia destaca o transporte via lancha. Ela, que costuma vir a Salvador para fazer compras ou ir ao médico, passa, em média, 35 minutos no mar. Ligia acredita ser o melhor transporte. A solução que Andressa aponta é investir no funcionamento dos ferry boats para que eles façam percursos mais rápidos – o ferry boat mais rápido hoje é o Ivete Sangalo que faz o percurso em 40 minutos –, e na compra de embarcações maiores para transportar mais pessoas e veículos por viagem. “Os novos ferry boats nada mais são do que embarcações velhas vindas de outro país”, critica.

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