TV on-line e o poder do Netflix

TV on-line e o poder do Netflix

Com a promessa de ser o futuro da televisão, Netflix atrai o público brasileiro, especialmente o jovem, para assistir diferentes conteúdos em vários tipos de dispositivos

Vanessa Matos

O conteúdo da TV chega à internet através dos sites de hospedagem de vídeo sob demanda e o antigo discurso da manipulação dos programas televisivos parece ser amenizado pela ideia de que o usuário poderá assistir o que quiser, quando e onde puder e de qualquer lugar. Normalmente, este espectador vai à internet para ver o conteúdo de canais fechados, séries e filmes mais recentes, o que poderia ser feito na própria tevê a cabo, é verdade.

Porém há o fato de que a televisão por assinatura não está expressivamente presente nos lares brasileiros como nos países desenvolvidos. Dados da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) informam que o número total de assinantes no país é de pouco mais de 16 milhões, o que equivale a 28,1% dos domicílios. Nos Estados Unidos, em torno de 43% dos domicílios possui serviço de TV por assinatura, o que representa 56 milhões de assinantes.

A questão é que o telespectador não tem controle efetivo sobre a produção do conteúdo da televisão, a não ser na resposta dada a um programa em termos de audiência. Assim, quando estes produtos chegam à internet, os usuários começam a ressaltar o poder que agora têm de assistir qualquer coisa, a qualquer hora em qualquer lugar, inclusive vídeos antigos e séries encerradas sem depender da disponibilidade de exibição dos canais via satélite.

A variedade deste tipo de conteúdo, principalmente séries, na plataforma Netflix é um grande atrativo para o público jovem. Os irmãos Fernanda e Laerte Lima, de 17 e 15 anos, respectivamente, são assinantes do serviço desde 2014. Fernanda diz que o mais interessante é poder assistir suas séries preferidas pelo celular, não ter restrição de lugar (tela de exibição) com imagem de alta qualidade. Laerte ressalta a variedade de títulos, porém ambos consideram o atraso na inclusão de novos conteúdos (na Netflix Brasil) como um ponto baixo da plataforma.

O estudante Arthue El é assinante desde 2013 e classifica o serviço da Netflix como excelente. Ele ressalta que, embora o preço da assinatura tenha subido nos últimos dois anos, o conteúdo e a dinâmica do serviço só crescem e ainda afirma que a plataforma substituiu a TV que ele já nem via muito.

Essa televisão que funciona em função da escolha do público é o que entusiasma. E é aqui que despontam os citados serviços de video-on-demand dos quais o Netflix é apenas exemplo, embora o mais famoso, popular e lucrativo – o lucro líquido da empresa em 2014 ultrapassa US$ 70 milhões.

É preciso considerar o aumento do número de famílias na classe média e a disseminação de planos mais acessíveis de internet banda larga como fatores importantes para a penetração do serviço sob demanda no mercado brasileiro. O pesquisador Marcel Silva, da Universidade Federal de Juiz de Fora, fala sobre esta “espectatorialidade hiperconectada” que a tecnologia proporciona: uma cibertelefilia que é comum à cultura das séries e está ligada à possibilidade de acesso contínuo e em retrospecto.

Talvez o mais interessante desse processo seja a difusão de comentários e trocas de experiências de usuários do Netflix através de outras plataformas como o Youtube, Google Vídeos, Vimeo, apenas para citar alguns dos mais populares. Observa-se, nesse contexto, um fenômeno comum e curioso ao mesmo tempo, em que internautas utilizam a linguagem do vídeo para discutir sobre um serviço que disponibiliza conteúdo também em vídeo, como nos dois exemplos a seguir.


Abaixo, podemos conhecer alguns fatos importantes sobre a empresa Netflix.


Um pouco da história do Netflix

Segundo Rachel Botsman e Roo Rogers em O Que é Meu é Seu: Como o Consumo Colaborativo Vai Mudar o Nosso Mundo, Reed Hastings, CEO da Netflix, teve um insight quando passava por uma locadora e observou uma família pagando US$ 40 de multa pelo atraso na devolução de Apolo 13. Assim surgiu a ideia de oferecer um serviço de aluguel de filmes pelo correio. No início, a empresa oferecia ao assinante um catálogo de títulos disponível no próprio site; a opção escolhida era entregue em casa numa embalagem vermelha (daí a cor na logomarca).

Reed Hastings, CEO do Netflix

A partir de 2007, quando a Netflix começa a disponibilizar conteúdo para ser visto on-line, o maior desafio era negociar os direitos de exibição. A ausência de uma “doutrina de primeira venda” (que é o regulamento de distribuição de filmes e séries para canais de televisão), segundo Ted Sarandos, executivo-chefe de conteúdo da Netflix, foi o grande entrave naquele período. Afinal, as emissoras estavam mais interessadas em formar seus próprios serviços de video-on-demand do que em disponibilizar material para a Netflix.

Sobre o assunto, a pesquisadora da Universidade Federal da Bahia Maíra Bianchini, que estuda o modelo de produção, distribuição e exibição das séries televisivas da Netflix , afirma que o sucesso da plataforma se deve a Ted Sarandos, quem negocia o programação exibida, desde 2000. Ele também é encarregado do investimento em produção original.

“Apresentei o roteiro de House Of Cards para vários estúdios de televisão. Alguns autorizaram a produção de um episódio piloto. A Netflix bancou o risco de produzir uma temporada inteira” (Kevin Spacey, protagonista e produtor da série House Of Cards, original da Netflix no Festival de Edimburgo, Escócia).

House Of Cards foi a primeira grande aposta de série original Netflix. Estreou em fevereiro de 2013, enquanto um remake de uma produção homônima da BBC, datada de 1990. A plataforma investiu inicialmente US$ 100 milhões pela produção de duas temporadas. Um negócio de alto risco, porém necessário, na medida em que muitos assinantes são atraídos pela disponibilização de produtos mais sofisticados do ponto de vista narrativo como Breaking Bad e Mad Men.

Lorenzo Richelmy, ator que interpreta Marco Polo, série original Netflix lançada ano passado

As dificuldades impostas pelos canais na distribuição de direitos de exibição destes tipos de séries mostraram que a produção de séries originais de qualidade com profissionais consagrados do campo audiovisual seria a melhor alternativa. E deu certo: em 2014, House Of Cards foi indicada como melhor drama de televisão ao Emmy Awards e a plataforma ainda conseguiu outra indicação com Orange is the New Black para a categoria melhor série cômica.

A Netflix, desse modo, tem conseguido sustentar o discurso de ser o futuro da televisão.

“A pirataria é um indicador de demandas não atendidas”

Reed Hastings afirmou em entrevista ao jornal Folha de São Paulo que a equipe da empresa está sempre à procura do que os usuários mais assistem, inclusive em sites ilegais, pois aí abrem-se possibilidades. A Netflix desenvolveu um sistema de coleta de dados baseado na tecnologia de algoritmos que captam as preferências dos usuários de acordo a navegação e oferece uma gama de opções de títulos para cada cliente , que simula, de longe, o fluxo televisivo.

A estratégia de lançar o conteúdo das séries originais de uma temporada em uma só mão é interessante porque reforça o poder de escolha atemporal do usuário. De um lado, temos a televisão que produz um conteúdo, estima um público e vende esta estimativa para o anunciante. Quando surgem esses serviços on-demand e streaming é preciso olhar mais para o engajamento do espectador com o programa do que para os números da audiência. Neste ponto, podemos dizer, a Netflix é visionária.

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