Na travessia Mar Grande-Salvador, a maré é quem dá o tom

Na travessia Mar Grande-Salvador, a maré é quem dá o tom

A lancha de Mar Grande a Salvador é o principal transporte para os nativos de Vera Cruz que precisam trabalhar na capital, mas dependem do balanço da maré para seguir viagem na Baía de Todos os Santos

Ednilson Sacramento e Bárbara Gomes | Foto destaque: Bárbara Gomes

O município de Vera Cruz, que tem praias conhecidas como Mar Grande, fica localizado na Ilha de Itaparica e tem como principal meio de transporte para a capital baiana as lanchas que saem a cada 30 minutos fazendo a travessia entre os dois lados da Baía de Todos os Santos. A primeira embarcação do dia sai às 5h da manhã de Mar Grande e encerra às 20h, com a última lancha saindo do Terminal Náutico de Salvador. Cerca de oito mil pessoas chegam a transitar pelo terminal que é coordenado pela Associação dos Transportadores Marítimos da Bahia (Astramab). Muitas vezes, o percurso de lancha é apenas um trecho da caminhada, pois motos, vans e ônibus complementam a viagem dos transeuntes, seja o destino Salvador ou Itaparica.

Moradora do município de Vera Cruz, Crislene Fernandes, 22, estuda letras em Salvador e usa as lanchas desde criança. Todas as manhãs, sua rotina para ir à faculdade depende de variados meios de transportes: vans ou moto-táxi, lancha ou ferry-boat e ônibus. A estudante conta que o fato mais curioso é a relação do transporte com a maré, “Se está baixa, se está alta, se está ventando. Toda a travessia é permeada pela influência da maré”. O supervisor de operações da Astramab, Luis Augusto Brito, informa que quando a maré está muito baixa as embarcações não conseguem atravessar por causa da pouca profundidade no canal. “A travessia tem esse condicionante da maré. Algumas embarcações, quando permitido, fazem o trajeto Salvador-Ilha de Itaparica. Mas os moradores já sabem dessas condições. Ou eles aguardam a maré subir, ou fazem a opção pelo ferry boat”, diz.

O ferry boat é administrado pela Internacional Travessias Salvador, com saídas a cada uma hora. Geralmente disponibilizam as embarcações: Agenor Gordilho, Rio Paraguaçu, Zumbi dos Palmares, Ivete Sangalo, Maria Bethânia e Juracy Magalhães Júnior, além de ferries reservas, caso o fluxo seja intenso. O valor da passagem para pedestre é R$ 4,30 durante a semana e R$ 5,60 aos sábados, domingos e feriados. A tarifa para os carros é de R$ 36,00 na semana e R$ 51,00 no fim de semana.

Terminal Náutico em Salvador | Foto: Bárbara Gomes

Apesar dos ferries, muitas pessoas preferem as lanchas. É o caso de  Jerfter Javan, 31, que vive em Salvador e faz a travessia há mais de um ano. Suas viagens são feitas para tratar de negócios, mas às vezes também se desloca até a ilha para o lazer. Ele deixa o carro no bairro do Comércio, onde fica o terminal (em frente ao Mercado Modelo) e pega a lancha quase que semanalmente. Depois da travessia,  ainda usa uma topic para chegar até a praia de Barra do Gil. Quando o entrevistamos, Javan aguardava a maré subir para que a lancha pudesse fazer o trajeto. “Espero cerca de uma hora, mas curto muito essa viagem, porque ela é prática e eu já me acostumei”, comenta.

O comandante da lancha Joana Angélica, Gidion Tosta,  há 28 anos é mestre de cabotagem. Ele diz que a travessia é tranquila, com distância de cinco milhas e duração média de 40 minutos. O comandante, que tem experiência com o transporte, diz que já fez amizade com alguns moradores da ilha empregados em Salvador. Questionado em que momento a tranquilidade na lancha acaba, ele pontua: “No final de semana, geralmente nos últimos horários de Mar Grande para Salvador, o pessoal exagera na bebida e vem embriagado. Muitos já se jogaram no mar e a gente tem que parar o trajeto e pegar”. Já se houver o caso de alguém passar mal Tosta garante que a tripulação faz o atendimento básico de primeiros socorros, e quando necessário, a emergência do SAMU é acionada para dar continuidade ao atendimento.

O marinheiro Roberto Carlos Cardoso e o comandante Gidion Tosta | Foto: Bárbara Gomes

Segundo  assessoria da Astramab, o sistema marítimo de lanchas conta com uma frota de 14 embarcações que cumprem horários de saída de 30 em 30 minutos nos terminais. A grade de horário é padrão estabelecido pela Agência Estadual de Transportes da Bahia (Agerba). Mas quando o movimento de passageiros exige, são disponibilizados horários extras com saídas a cada 15 minutos. As lanchas não possibilitam a travessia de carros por causa do seu tamanho. Para quem mora em Vera Cruz, o Ferry Boat não ajuda tanto, porque exige que o passageiro utilize  outro tipo de transporte, como as vans, para chegar em seu destino.

Confira os valores da travessia

Salvador – Vera Cruz (Mar Grande):

De segunda a Sábado – R$ 5,60  Domingos e Feriados – R$ 6,60

Vera Cruz (Mar Grande) – Salvador:

De segunda a Sábado – R$ 4,60   Domingos e Feriados – R$ 5,60

A Astramab informou que são duas tarifas diferentes: a de Salvador para Mar Grande e a de Mar Grande para Salvador.  A da capital custa um real a mais por causa da taxa de utilização do terminal (TUTE) que é cobrada pela administradora do Terminal Náutico da Bahia. O sistema é regulamentado pelo estado da Bahia e fiscalizado pela Agerba. As embarcações são administradas pelas empresas privadas Vera Cruz e CL e se revezam com os horários de partida. Apesar de ser usada com frequência pelos trabalhadores,a lancha também é uma boa forma de deleite e turismo. Vale a pena conhecer as ilhas que cercam Salvador e explorar mais o balanço do mar, através do transporte marítimo, sempre que a maré permitir.