Os 7 pontos da Avenida Sete

Os 7 pontos da Avenida Sete

Caminhamos por toda a Avenida Sete de Setembro, em Salvador, para mostrar as peculiaridades e as diferenças de sete pontos de um logradouro que reúne comércio, moradia e lazer

Amanda Lima, Laís Lopes, Luciano Marins, Luiz Fernando e Nathália Luna

Às 7h da manhã de sábado, a missa no Mosteiro de São Bento da Bahia se inicia ao som dos cânticos religiosos. É o sinal da nossa partida para caminhar em uma das principais vias do centro de Salvador: a Avenida Sete de Setembro, que surge na Ladeira de São Bento. Nosso ponto de partida é o próprio Mosteiro de São Bento, localizado no Largo de São Bento. Fundando em 1582, ele é o primeiro mosteiro beneditino das Américas e sua história está ligada à história da Bahia. No mesmo local, está situada a Biblioteca do Mosteiro com um acervo que reúne obras raras e especiais que datam desde 1503 até os dias atuais.

Acima, a Ladeira de São Bento por volta de 1930. Abaixo, a mesma região com o Mosteiro de São Bento atualmente. (Fotos: Arquivo / Mosteiro de São Bento)

A Avenida Sete de Setembro foi inaugurada em 1916 pelo então governador José Joaquim Seabra. Foi idealizada como parte do plano de reforma urbana de Salvador, iniciado em 1912, buscando conectar o centro antigo aos novos bairros que surgiam ao sul da cidade. Diferente da maioria das avenidas, ela apresenta diversas interrupções no seu trajeto e perde a denominação oficial em muitos trechos. Questionada sobre o fim do trajeto da Avenida, a dona de casa Damiana Paixão, 38, afirmou que “termina no Campo Grande”. Resposta errada! A maioria das pessoas que perguntamos não sabia que a Avenida Sete, como é mais conhecida, termina na Barra, no território da Vila do Pereira. “É verdade? Nunca soube disso”, surpreendida com a informação.

A Avenida Sete possui uma ocupação variada em seus três principais trechos; o distrito de São Pedro, distrito da Vitória e o distrito da Barra, cada um com suas características socioeconômicas e paisagísticas. Diante dos seus 4,6 mil metros, escolhemos sete pontos da Avenida Sete de Setembro para mostrar os seus contrastes, a sua história, curiosidades e personagens que roubam a cena ao longo de sua extensão até a região do Farol da Barra.

As horas e histórias do Relógio de São Pedro

Cercado por construções antigas e comércio local está o Relógio de São Pedro, o nosso segundo ponto. Em sua volta, não é difícil encontrar histórias: são pessoas que acompanharam de perto as mudanças desse espaço marcado pela presença de um relógio. Cada rua transversal ao São Pedro é um pedaço que se encaixa na história de vida das pessoas que trabalham ali. Comerciantes que trabalham mais de três décadas no local lembram bem de quando o Relógio de São Pedro funcionava em perfeito estado e era ponto de encontro de amigos. Muitos cresceram no entorno da região e sentem falta da visibilidade que antes tinha o local. “Tive a influência de meu pai e já tenho 30 anos trabalhando aqui na Avenida Sete. As histórias engraçadas desse tempo são sempre quando o rapa passa e temos que guardar tudo ou quando gritam ‘pega ladrão’ [risos]”, diz o comerciante Sidrônio Santos de 46 anos.

O vendedor Sidrônio Santos no Relógio de São Pedro. (Foto: Nathália Luna)

Algumas pessoas que circulam pela região não imaginam o lugar importante que a mesma ocupa no cenário da história local. Infelizmente, muitos desses marcos históricos, concentrados na arquitetura que havia no local, já não são mais encontrados, devido às mudanças que ocorreram entre as décadas de 1960 e 1970. O apreço pelo avanço fez com que monumentos como a Igreja de São Pedro Velho e o prédio do Senado Estadual fossem demolidos, para dar lugar a ruas mais espaçosas e fazer com que o centro da cidade fosse modernizado. No lugar da antiga igreja, foi construída uma estátua em homenagem ao Barão do Rio Branco e o então Relógio de São Pedro.

Reforma do Relógio de São Pedro na Avenida Sete de Setembro. (Foto: Nathália Luna)

Atualmente, a região do Relógio de São Pedro, passa por mais uma transformação. O Relógio, que há tempos não funcionava, será restaurado e terá uma nova praça. Alguns comerciantes, apesar da relocação que sofreram, reconhecem a importância da obra e as possibilidades de organização do local geradas por ela. Enquanto isso, esperam ansiosos pelo término e resultados dessas mudanças.

Território de Piedade

A Praça da Piedade foi inaugurada no século XVIII e fica localizada no meio do percurso entre o São Bento e o Campo Grande. É servida tanto da Avenida Sete quanto da Avenida Joana Angélica e inicialmente foi chamada de Praça do Hospício – em razão da construção do Hospício de Nossa Senhora da Piedade. Antigamente, os presos saíam do Paço Municipal, onde ficava a cadeia, e passando pela Rua Carlos Gomes, eram deixados na Rua da Forca, a qual o nome já diz o que era pretendido. É na Praça da Piedade que também encontramos quatro bustos dos mártires do Movimento Revolucionário de 1798, intitulado Conspiração dos Búzios, Revolta dos Alfaiates ou Conjuração Baiana.

Nas redondezas da Piedade ficam situados a Catedral de Nossa Senhora da Piedade, o Instituto Histórico e Geográfico da Bahia, o Gabinete Português de Leitura, a Faculdade de Economia da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e a antiga sede da Secretaria da Segurança Pública. São inúmeras as suas confluências, como a Estação da Lapa que é, sem dúvida, um dos principais pontos de transporte para os soteropolitanos, e não é à toa que dois shoppings populares foram instalados nessa área.

Apesar de nas décadas de 1970 e de 1980 a Praça ter vivido momentos de abandono e de insegurança, após a sua restauração voltou a ser palco de um movimentado fluxo de pessoas e encontro de moradores, como afirma o engraxate Roque Rodrigues, 65 anos. “Tudo que é importante para a cidade, protesto ou comemoração, tem que passar aqui pela Piedade e Avenida Sete. Aqui os trabalhadores se encontram, comerciantes, estudantes, aposentados e vem o pessoal das TVs”, remetendo ao quadro “Desaparecidos” do telejornal Bahia Meio Dia (Rede Bahia), que todas as quartas-feiras recebe parentes e amigos de pessoas desaparecidas na Praça da Piedade. O clima era de comoção entre os que acompanhavam o momento de angústia dos que buscam reencontrar pessoas queridas.

Praça da Piedade no dia do quadro 'Desaparecidos', comandado pela repórter Andréa Silva, do telejornal Bahia Meio Dia. (Foto: Nathália Luna)

Os contrastes de um Corredor

Conhecido como o “metro quadrado mais caro de Salvador”, o Corredor da Vitória está localizado em um dos pontos mais nobres da cidade e a partir da década de 1940 tornou-se um dos locais preferidos dos intelectuais e artistas baianos. Intitulado de “Vitória”, por ser o corredor no qual as forças libertadoras marcharam, o bairro sempre foi ocupado pela classe burguesa e no século XIX era cenário das grandes residências dos senhores de engenho e comerciantes estrangeiros. Ainda ocupado pela classe alta da cidade, o Corredor da Vitória, abriga três importantes museus de Salvador: o Museu Geológico da Bahia, o Museu Carlos Costa Pinto e o Museu de Arte da Bahia.

Não é difícil perceber os contrastes do local. Em meio aos prédios de coberturas luxuosas e carros importados, transitam os trabalhadores e estudantes da Avenida Sete de Setembro. São principalmente os estudantes do Colégio Estadual Odorico Tavares e moradores da Residência Universitária da UFBA, que conhecem esse contraste evidenciados no dia-a-dia. “Nós sabemos que não somos bem aceitos aqui, principalmente por sermos estudantes de uma escola pública em um bairro nobre. Percebemos os olhares duvidosos dos moradores quando transitamos pelo bairro. Fica bem claro o preconceito social”, diz a estudante Laina Oliveira, 17, que há dois anos estuda no Odorico Tavares e já conviveu com a ameaça frequente de uma possível relocação dos estudantes.

A realidade é semelhante para os estudantes da Universidade Federal que moram na Residência Universitária do Corredor da Vitória. “É complicado você vir do interior e passar a morar em um bairro nobre como esse, o contraste é grande. Mas também sabemos que é um ato de resistência ocupar esse lugar, que é concedido pela Universidade”, afirma Riam Santos, estudante do 7º semestre do curso de Administração e morador da Residência Universitária da UFBA. Confira um trecho do depoimento dele:

Mesmo com as transformações crescentes da urbanização, o Corredor ainda apresenta algumas características arquitetônicas da época em que começou a ser habitado e é um outro contraste em relação aos outros pontos que também fazem parte da Avenida Sete. Através dele, pode-se observar de que maneira essas diferenças compõem e enriquecem a história da Avenida.

Na descida da Ladeira da Barra

Engana-se quem pensa que os problemas de acessibilidade da cidade de Salvador são algo recente. A história da construção da Ladeira da Barra nos indica que essa já era uma discussão que causava certo desconforto aos que projetavam a cidade para cumprir o importante papel comercial que a mesma tinha no país. Com a intenção de facilitar o trajeto entre as partes alta e baixa, além de criar uma estrada propícia para o transporte que levava os animais e as mercadorias dos fregueses da Igreja da Vitória até o Porto da Barra, foi criado a Ladeira da Barra.

Antônio Robson, 66, maitre do Yacht Club da Bahia, que há 40 anos frequenta a região, é testemunha das transformações que ocorreram na Ladeira. “O tráfego foi modificado, as linhas de ônibus, o movimento era maior e atualmente não temos mais a segurança de antes. Até hoje algumas pessoas não sabem que aqui também faz parte da Avenida Sete.” Registramos algumas fotos da Avenida no trecho da Ladeira da Barra até o destino preferido de muitos soteropolitanos: o Porto da Barra.

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Depois do Porto, encontra-se o Farol da Barra. Visando auxiliar as embarcações que passavam pela Baía de Todos os Santos, ele foi construído no interior do Forte de Santo Antônio da Barra. Segundo o Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, é o primeiro farol do Brasil. O Farol da Barra , deste então, se tornou um dos cartões postais mais belos do país, e por ser um local calmo e de beleza exuberante, é ponto para encontros de casais, amigos e famílias. Com uma das vistas mais procuradas para assistir ao pôr-do-sol, o local também serve de cenário para fotos e inspiração para letras musicais.

Na mesma região em que começa o circuito Barra-Ondina no Carnaval, termina a Avenida Sete de Setembro. Onde termina também o nosso especial. Diferentemente do seu início, onde o comércio ferve, a região do Farol da Barra é conhecida por receber turistas do mundo inteiro e abrigar shows em alguns períodos do ano. O visitante Túlio Mateus, 24, também faz parte do grupo de pessoas que não sabem que ali está um pedaço da Avenida Sete. “Não sabia, mas aqui é um lugar que sempre venho quando chego em Salvador. Além de ter a melhor vista no pôr-do-sol e ser um ponto de encontro, é o ponto mais lindo da cidade”, confessa já esperando o espetáculo que encontraria no fim da tarde em plena Avenida Sete de Setembro.

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