Do Centro Antigo ao antigo Centro

Alessandra Carvalho, Cris Almeida e Paloma Morais

A arquitetura das casas do Centro Antigo de Salvador chamam atenção de quem passa nessa região pelo estilo arquitetônico e história que levam consigo até hoje. Janelas enormes e arredondadas, forros específicos e portas com altura até mais que a metade das paredes são algumas das características notadas na maioria das casas dos bairros que vão do Barbalho ao Pelourinho.

Durante todo esse percurso, é possível notar as reformas que vêm acontecendo nos asfaltos, encostamentos e pistas do Centro, obra da prefeitura que tem sido elogiada pelos moradores. Segundo eles, a reforma mantem toda a característica do ambiente, preservando a história do Santo Antônio Além do Carmo, um dos bairros com mais imóveis tombados da cidade. São 81 edificações, entre casas, igrejas, terreiros, entre outros.

OS CENTROS: ANTIGO E HISTÓRICO

Espaços que se misturam

O Centro Antigo de Salvador compreende bairros do Centro Histórico (que inicia próximo ao Mosteiro de São Bento e segue até o Forte Santo Antônio Além do Carmo), assim como 11 bairros do entorno: Centro, Barris, Tororó, Nazaré, Saúde, Barbalho, Macaúbas, parte do espigão da Liberdade, Comércio e Santo Antônio Além do Carmo. Ao todo, são 7km2 de área, sendo 0,8 Km2 pertencentes ao Centro Histórico, de área protegida pela lei n 3.289/83.

Caminhos que divergem

Apesar de serem muito próximos (e até mesmo um tanto indistintos) quando observados sob o ponto de vista geográfico, existe um fator importante para a distinção dos Centros: a preservação legal das construções históricas. As casas do Centro Histórico de Salvador são tombadas pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) desde 1984, para que a manutenção da estética antiga – uma preciosidade arquitetônica – seja garantida.

A METAMORFOSE DO CENTRO

A história das casas da história

Até a primeira metade do século XX, o Centro Antigo era considerado a área mais urbanizada da cidade. Era, inclusive, onde se situavam os prédios administrativos, as principais casas residenciais, e onde se concentravam as atividades comerciais e portuárias.

As casas antigas encontradas no centro que foram construídas no século XIX, possuem características muito semelhantes entre si, devido à proibição, datada de 1626, de construção de casas que não fossem aprovadas pela Câmara. Dessa forma, havia um controle e padronização das casas coloniais. Mesmo com essa limitação, os moradores encontraram uma maneira de diferenciarem suas casas, colocando elementos diferentes em suas fachadas.

As grandes transformações ocorridas no Centro Antigo de Salvador ao longo do tempo, somadas  ao crescimento da cidade com a urbanização, fizeram com que esta região perdesse valor comercial. Mas, apesar da evasão de muitos moradores, a região é valorizada por seu rico patrimônio histórico, arquitetônico e cultural.  Em 1959, o primeiro imóvel na zona do Centro Histórico foi tombado pelo IPHAN, abrindo caminhos para que outras edificações fossem tombadas e para que sua estrutura arquitetônica e estilística seja mantida até os dias atuais.

Patrimonio Arquitetonico de Salvador

Quando a casa cai

Desde o período colonial até os dias de hoje ocorreram transformações no centro, com perda de atividades do comércio, serviços e população. No século XX, iniciou-se uma fase de modernização no Centro, com ampliação da região do Comércio. Foi demolida grande parte das edificações coloniais para construção de prédios modernos e para alargamento de vias.

Ao mesmo tempo, desde a década de 1950, Salvador tem passado por inúmeras manutenções em moradias consideradas antigas, porém perigosas. É verdade que as fundações, as instalações e até mesmo a pintura nas fachadas ilustram as histórias e vivências dos moradores. O problema é que, pelo fato do tombamento ser um tipo de preservação, nada da estrutura da casa pode ser modificado sem autorização legal.

É o caso da moradia de Maria José Freitas, 84 anos e moradora do bairro há 36. “A minha casa é tombada, como a maioria por aqui. Eu não posso mexer em nada na estrutura da casa, senão sou multada”, explica. Segundo ela, não houve aviso prévio de que a casa seria tombada.

A maior preocupação de Maria José, que criou seus seis filhos na casa, é com a segurança. Segundo a aposentada, depois que algumas casas foram abandonadas e, consequentemente, o movimento no bairro foi caindo, as proximidades tornaram-se perigosas. O medo da violência prendeu Maria José dentro da própria casa.

O ATUAL CENTRO ANTIGO

Eu nasci aqui, eu cresci aqui

Apesar da violência ser crescente nos bairros históricos, o amor pelo local de origem não diminui ao longo do tempo. Moradores antigos de Santo Antônio, Barbalho e Pelourinho, muitas vezes, prefeririam passar a vida inteira no mesmo lugar do que deixar casa e história para trás.

Shirley Guimarães, moradora do bairro do Barbalho há 34 anos diz que, apesar das ondas de assaltos que a região vem enfrentando, não moraria em nenhum outro local, uma vez que nasceu e foi criada na mesma casa onde vive agora com seu marido e filha e que, anteriormente, abrigava, além dela, seus pais e irmãos. “A vizinhança mudou muito por conta da compra de terrenos que aconteceu há alguns anos pelo Grupo Iguatemi. Antigamente era mais fácil sentar todos os vizinhos na porta e conversar, hoje cada um fica em sua casa. Mesmo assim, não me vejo morando em nenhum outro lugar”, disse.

Um Centro pra inglês ver

Hoje, o centro Antigo de Salvador se transformou em um grande comércio turístico, e está sendo ocupado cada vez mais por imigrantes e classes sociais mais abastadas, em acordo com dados do IBGE 2012. Com isso, a população de classe inferior está sendo “empurrada” para fora do Centro, contribuindo para a imagem idealizada que é apresentada aos turistas. Lea Damasceno da Silva, que trabalha nas proximidades do Pelourinho há 30 anos, diz que a segurança no Pelourinho, por exemplo, é garantida para os turistas e não para os próprios moradores, principalmente, em localidades mais simples.

Diante dessa situação, estamos perdendo uma parte do patrimônio histórico de Salvador, que são as histórias dos próprios moradores. Os protagonistas da construção da cidade são, muitas vezes, esquecidos ou escondidos. É fundamental garantir a preservação não só das casas antigas, mas também das gerações que passam por essas casas, preservando histórias, memórias e identidades.

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