"Ai, meu dente tá mole!"

“Ai, meu dente tá mole!”

Crianças e especialista falam sobre a queda do primeiro dente. Saiba mais sobre os mitos e verdades dessa fase que envolve medo, ansiedade mas também muita magia

Gabriela Galeno | Foto destaque: Dudu Assunção

Não tem jeito, um dia todo mundo fica banguela. As charmosas janelinhas se abrem lá pelos seis ou sete anos de idade e marcam uma importante fase na vida de qualquer criança. Os dentes de leite se vão para dar lugar aos permanentes, que se bem cuidados, nos acompanharão para o resto da vida. A Fada do Dente — aquela que pega os dentinhos debaixo do travesseiro e deixa moedas em troca — ajuda a contar essa história.

Era uma vez Stéphanie Martins, 6 anos. Com uma janelinha generosa, a pequena contou aos risos que “doeu só um pouquinho” quando perdeu seu primeiro dente. Já experiente, Stéphanie está na sua quarta janelinha. Sua avó Maurina Pereira, com quem mora, disse que quando seu primeiro dente ficou mole, a pequena ficou alegre, mas com um pouco de medo: “Arrancou em casa mesmo, dois foram acidente”, diz.

Para tirar o dente de Stéphanie, Dona Maurina usou um chumaço de algodão e arrancou o dente da neta enquanto ela dormia. E como era na época de Dona Maurina? “Muito difícil. Minha mãe me levava naquelas comadres que arrancavam o dente amarrando a linha na porta. Não tinha essa comunicação, essa coisa leve de hoje em dia. Nem sabia da Fada do Dente”, conta.

Já Alice Costa, de 7 anos, mostrou seu sorriso banguela com muito orgulho. A pequena exibiu seu dente mole como quem dizia: “a fada do dente está vindo aí”. Nayguel Costa, pai de Alice, disse que o primeiro dente da filha caiu no dia que o Brasil estreou na Copa do Mundo, em junho de 2014. “Quem arrancou foi a mãe, mas ela ficou bem tranquila”, afirmou.

Nayguel acha importante incentivar a história e acredita que a Fada ajuda nesse processo. Ele contou também como seu filho do meio, que ainda não começou a troca de dentes, tentou barganhar um presente. “Ele queria alguma coisa e eu disse que não ia dar. Então ele disse: ah, tudo bem, quando eu arrancar meu dente vou colocar debaixo do travesseiro e comprar sozinho!”.

Stéphanie e Alice acreditam piamente na fadinha. As duas abrem um sorriso de ponta de orelha quando se recordam das moedas ganhas, todas gastas em (acredite) balas.

Com a palavra, a dentista

Dentista Maria Dulce Ribeiro em seu consultório | Foto: Gabriela Galeno

Maria Dulce Ribeiro, especializada em odontopediatria, trabalha há mais de 20 anos com crianças e defende que “cada criança é um mundo”. Sobre a dificuldade em lidar com os pequenos, confessa que o mais difícil no tratamento com criança são os pais, mas quando eles colaboram, tudo funciona bem.

Para os pais de plantão que têm dúvidas se o melhor é tirar os dentes dos filhos em casa ou no consultório, Maria Dulce aconselha que o procedimento seja feito em casa. No entanto, tudo fica ao critério dos pais. “Já veio paciente que chegou com o dente pendurado com fio dental. Em casa, precisa ser feito aos poucos”, explica a dentista.

A técnica mais indicada é amolecer bastante o dente para que ele saia com facilidade e sem dor, usando algodão. Às vezes nem o algodão é necessário, o dente cai sozinho. Já os que preferem a segurança do consultório, o procedimento é feito de acordo com o caso.

Sobre os cuidados que se deve tomar no período, a dentista explica que é importante manter a rotina da criança e a escovação. Algumas crianças deixam de escovar a região e acabam gerando uma inflamação. Depois da remoção também é importante evitar tomar sol, calor excessivo, colocar a língua no local e ingerir alimentos quentes, para não atrapalhar a coagulação natural da gengiva.

E quem achou que a Fada do Dente era coisa de quem tira o dente em casa se enganou. A doutora conta que incentiva a história e acha importante a fantasia no processo, evitando o trauma. “Tem algumas crianças que querem tirar o dente para dar para a Fada do Dente. Além disso, a extração geralmente é uma sessão tensa. Também tomo cuidados como não deixar elas verem a agulha e não uso as palavras agulha, dor e sangue”, diz.

Maria Dulce reforça ainda que os pais são 99% do tratamento. “Sempre oriento os pais a se manterem presentes sem interferir, lendo um livro, uma revista, pois traduz para as crianças que eles estão concordando. Os pais são o foco.”

Stéphanie Martins, 6 anos, conta que "doeu só um pouquinho" perder o primeiro dente | Foto: Dudu Assunção

Fada do Dente

Agora vamos falar dela que é a musa, a diva, a rainha das crianças (Xuxa que me desculpe). Para alguns, a Fada do Dente não é santa. A versão macabra conta a história de uma senhora idosa que vivia em uma cidadezinha e arrancava os dentes das crianças de lá e em troca dava moedas de ouro. Certa vez, duas crianças sumiram da cidade e ela foi acusada de tê-las matado. Não conseguindo provar sua inocência, a senhora foi condenada à morte na fogueira, mas volta das trevas para se vingar. A lenda conta que até hoje ela vem atrás de quem está perdendo o último dente. Por isso, é preciso jogá-lo em cima do telhado, para que ela não venha atrás de você. Se ligue.

A versão boa é a mais famosa. Quando cai um dente, a criança deve colocá-lo embaixo do travesseiro antes de dormir. À noite, a Fada do Dente leva o dente de leite e, em recompensa, deixa uma moeda. Algumas até negociam os dentes com as mães, pois muitas delas gostam de guardar como recordação.

Versões a parte, o consenso é geral: a Fada do Dente é um elemento importante no processo da troca de dentes. A magia da história ajuda até hoje crianças de todas as idades a enfrentar o momento que, para algumas, não é fácil.

Para fechar, não sejamos injustos com os mais velhos. Pergunte para sua mãe ou sua avó se ela conhece a história do Morão. Sabe não? Depois de arrancar o dente, jogue-o em cima do telhado. Em seguida, recite o versinho:

“Morão, Morão

Pega seu dente pobre

E me dá o meu são!”

Agora escute a versão da história na opinião de Pedro Santos, 7 anos: Fada do Dente por Pedro Santos.

Veja abaixo mais alguns baixinhos e suas banguelinhas:

Share