Amor que fica, amor que vai

Amor que fica, amor que vai

Idosos contam suas histórias de amor e provam que amar, em suas diversas formas, traz benefícios ao processo de envelhecimento. 

Maria Dominguez | Foto destaque: Gabrielle Guido

Quando se pensa em amor, quase sempre se imagina um casal jovem e feliz para sempre. Um exercício útil para compreender a ideia dominante doesse sentimento para as mentes contemporâneas é buscar a palavra “amor” ou seu correspondente em inglês “love” no Google. Além de corações em todos formatos e frases clichê, tomam conta da tela fotos de casais jovens e apaixonados.

Por muito tempo, as diversas formas de amar foram negadas aos mais velhos, como se estes estivessem fadados ao “até que a morte nos separe” ou à solidão. A boa notícia é que, na medida em que envelhecem, idosos apaixonados continuam se dedicando ao amor. E só veem benefícios.

“Desde que me divorciei de um casamento de 25 anos, já tive seis namorados”, diz a pecuarista Idalice de Souza, 75. “E estes foram só os firmes, que duraram entre dois e quatro anos. O mais recente eu conheci no Carnaval deste ano e desde então, namoro à distância”, completa. Para Idalice, amar e ser amada traz benefícios à sua saúde e bem-estar. “Ter alguém que ligue todos os dias e que me faça companhia é muito importante no processo de envelhecimento”, afirma.

Além disso, todos os namorados passam pela aprovação da família. “Minha mãe é hipertensa, mas percebo uma melhora até na sua saúde quando está namorando. Durante os namoros, a pressão arterial baixa e ela fica mais tranquila e alegre. Até os médicos percebem”, diz sua filha Simone Peixoto.

Renato[1], 69, foi casado por 20 anos. Depois que se divorciou, voltou a se apaixonar por sua namorada da juventude e já estão juntos há quatro anos. Entretanto, Renato e sua amada preferiram não casar e o aposentado se define como “namorido”, já que “o relacionamento é mais sério que um namoro mas não chega a ser um casamento”, explica.

“Ela mora na casa dela e eu, na minha. Assim conseguimos manter a independência acima de tudo. Nos fins de semana, nos encontramos para ir ao cinema e saímos para jantar. Nos feriados, viajamos juntos. Dessa forma, consigo conviver também com minha família e meus amigos”, defende. Segundo ele, a escolha pelo namoro é interessante pois nem sempre é possível conviver de forma saudável com outra pessoa quando os dois têm interesses e rotinas diferentes.

Os desafios também são muitos para aqueles que se mantém unidos há décadas. Afinal, quando se fala em amor, o casamento é lembrado como símbolo de união mais tradicional entre duas pessoas. Neste quesito, os idosos detém os maiores conhecimentos sobre a arte de viver com alguém ao seu lado.

Marlene Lacerda e José Albuquerque estão unidos há 45 anos. | Foto: Marco Antônio Correia/Labfoto

“O segredo é ter tolerância e paciência. O ideal é que quando um fique nervoso, o outro se mantenha calmo e brigue o mínimo possível”, diz Marlene Lacerda, 72, aposentada. “ O bom humor também ajuda, mas o amor tem que prevalecer”, completa. Casada com José Albuquerque, 69, há 45 anos, Marlene diz que por serem diferentes, um ainda aprende com o outro. “Ele cuida mais da saúde e da alimentação do que eu. Quero perder uns quilos e tento seguir a linha dele”.

Maria Lúcia Oliveria e Geraldo Oliveira estão casados há 55 anos. | Foto: Maria Dominguez

Para Geraldo Oliveira, 85, casado há 55 anos com Maria Lúcia Oliveira, 78, o estilo romântico ajuda a manter a paixão acesa no relacionamento. “Gosto de dar um buquê de flores vermelhas com cartão todos os anos, no aniversário dela e no dia dos namorados”, afirma. Maria Lúcia, por sua vez, defende que o segredo é tolerar e manter a paz dentro de casa. “No nosso relacionamento não falta compreensão e saber fazer a vontade do outro. Se um estiver feliz, o outro também está”, diz ratificando que o casal “nunca foi de brigar”.

Segundo Marco Aurélio Ornellas, terapeuta de casal, envelhecer ao lado de alguém pode trazer benefícios à saúde mental, psíquica e física. “O ser humano vive em busca do prazer, que se manifesta de diversas formas. A química que o nosso corpo demanda durante as sensações de prazer é a que nos dá vitalidade, traz benefícios para a nossa saúde e nos dá qualidade de vida. Além de nós mesmos, um outro ser humano é capaz de nos proporcionar momentos de prazer através do contato, é o que nos nutre e alimenta”, explica. No entanto, o terapeuta alerta para o efeito inverso. “Se o casamento for mantido por vícios e dependência do outro, o desprazer toma conta. O contato com o outro vai trazer negatividade e o relacionamento não será mais capaz de fornecer benefícios”, alerta.

Dely Santos Leite relembra momentos com o seu marido falecido, Oswaldo Santos Leite. | Foto: Gabrielle Guido/Labfoto

Mais cedo ou mais tarde, idosos apaixonados passam por um dos momentos mais difíceis do casamento: quando um dos dois vai embora. Apesar de ter perdido o marido há 16 anos, a aposentada Dely Santos Leite, 82, acredita que continuará unida a ele. “Logo depois que ele morreu, um senhor falou que queria casar comigo. Eu saí correndo e não quis nem saber. Oswaldo foi o meu único”, conta Dely, lembrando do seu marido Oswaldo Santos Leite.

Em consonância com outros casais, Dely diz que o que manteve o relacionamento estável por tantos anos foi esforço de entender mais o outro e de brigar menos, além de manter a fidelidade absoluta. “Desde que se foi, rezo todos os dias por ele”, confessa. Mesmo com as boas lembranças e a “saudade eterna”, como definiu, Dely ainda sente na pele a perda do seu amado. “Quando ele faleceu, ela ficou diabética e a pressão subiu. É difícil se acostumar a viver sem o amor da sua vida”, desabafa Tânia Leite Souza, filha de Dely.

Ah, o amor. Em suas diversas facetas, nuances e expressões. A lição que fica é que os prazeres do amor não podem ser negados aos mais velhos. Ainda bem!


[1] Prefere manter seu nome sob sigilo
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