Ciência e religião mantêm suas pontes

Ciência e religião mantêm suas pontes

Se parecem longe no discurso, a confiança na ciência e a crença no sobrenatural, às vezes, estão conectadas   

Aline Valadares, Camila Fiuza, Fabiana Guia e Naira Diniz

Geografia, matemática, química, física quântica. Muitas pessoas acreditam que essas ciências estejam dissociadas da religião em geral, mas elas podem  influenciá-la mais do que se  pensa. É o caso do Espiritismo e do Islamismo, por exemplo. O primeiro usa técnicas cirúrgicas, com a ajuda espiritual, mas amparada em conceitos médicos, para a cura de doenças. O segundo utiliza a bússola como forma de orientação para que os praticantes façam suas orações na direção exata em que orienta o Corão, seu livro doutrinário.

Foto: Reprodução BBC UK

Integração

O médium José Medrado, 55, fundador e presidente do projeto social Cidade da Luz,  diz que, na doutrina espírita, o conhecimento científico está sempre presente : “Allan Kardec propôs que o espiritismo andasse de mãos dadas com a ciência. É uma integração que procura ser absoluta”.

De acordo com ele, o procedimento cirúrgico pode ter características diferenciadas. “Há dois tipos de cirurgia espiritual: a que tem corte e a sem corte. Pessoalmente, não concordo com a de corte pois seria uma afronta à ciência acadêmica. A cirurgia sem corte é a de nível energético, o que nós chamamos de perispírito, sendo esse o que liga o corpo físico ao espírito. Ele é o modelo organizador do corpo e traz  a matriz de registro, de sentimentos, traumas, de tudo aquilo vivenciado pelos espíritos ao longo de suas reencarnações”, diz Medrado.

Foto: Reprodução Cidade da Luz | Youtube

Foi com essa experiência que Marly Soares, aposentada, melhorou dos problemas na coluna que a atormentavam. “A cirurgia é feita em uma sala onde tem pouca iluminação. Você fica em uma maca. Lá, eles trabalham com as mãos usando óleos de essências. Não se fala nada, você apenas mentaliza em oração e manipula o local e os pontos de energia, como a planta dos pés e testa, por exemplo. Normalmente, é mais de uma sessão a cada oito dias, depende muito da questão de cada um”, afirma.

Cirurgia espirital é realizada sem cortes | Foto: Reprodução Instituto de Medicina do Além - IMA

“No último tratamento, fiquei quase um ano sem reclamar mas, como no tratamento convencional, algum tempo depois você pode voltar a sentir. Só que você sente um conforto em um prazo maior”,  acrescenta Marly, sobre as vantagens da cirurgia espiritual.

Aproximação 

Para o Islã, a influência da ciência aparece de forma distinta. Os cinco pilares da religião são: a fé monoteísta, as orações obrigatórias, a caridade, o jejum e a peregrinação até a Kaaba,  a casa sagrada da cidade de Meca, na Arábia Saudita. Para cumpri-los é necessário obedecer a uma escala orientada pelo Calendário Lunar e pela Qibla (direção, em árabe), como determina o Alcorão.

 “Através da bússola se localiza Meca, pelo plano cartesiano; calculando a latitude e longitude encontramos a quantos graus estamos da cidade sagrada”, explicou Hassan Meireles, vice-presidente do Centro Islâmico da Bahia. Daí é possível depreender uma conexão com conhecimentos de astronomia, geografia e matemática como bases para cumprir ritos da religião.

O sheik Abdul Hameed Ahmad, presidente do Centro Islâmico da Bahia | Foto: Mallu Silva/ LabFoto

Hassan conta que, além da posição de oração, o Islã sofre diretamente a influência da lua. “Assim que surge a aurora, aquela primeira lâmina de luz solar indica a hora da oração”, disse alertando que o atraso insinua adoração ao Deus Sol, de povos politeístas. “O Islamismo é uma religião monoteísta. Portanto há somente um Deus [Alah]”, afirma. A linearidade do tempo para a religião árabe é orientada pelo calendário lunar, diferente da ocidental, que segue a tabela solar. “Toda vez que chega a lua nova a gente sabe que um novo mês se inicia”, pontua Meireles.

Conexão

“Para os europeus conhecerem a ciência como eles conhecem existiu um condutor para chegar  até eles. Os árabes fizeram esse papel no momento em que o mundo estava num atraso terrível, a Idade Média”, destaca Hassan, salientando que ciência e a religião muçulmana estão ligadas de forma íntima.

Os árabes chegaram à Europa através do Estreito de Gibraltar  e dominaram a Península Ibérica, em grandes cruzadas. “E ali ficaram 800 anos. Levaram a náutica, a astronomia, conhecimentos de engenharia na construção das embarcações, o astrolábio e a numeração hindu-arábico”, lista Hassan.

Após a oração é permitido que homens e mulheres confraternizem juntos | Foto: Mallu Silva/LabFoto