Quando a música conduz à oração

Quando a música conduz à oração

Melodias e conexão com elementos como letras  facilitam a comunicação com o sagrado

Laís Andrade | Foto: Divulgação

Em algum grau,  práticas religiosas reservam um lugar especial para a música como forma de expressão capaz de traduzir o sentimento de fé. A canção sagrada entoada de maneira correta tem a função de facilitar a  comunicação com os deuses, fazer preces ou até trazer a presença deles à terra.

No candomblé, as orações entoadas em forma de cantiga tem a função de conduzir  as divindades para entrar em contato com seus devotos e promover os ritos praticados na religião.  “Os tatas, huntós e alabês (como são chamados os sacerdotes preparados para tocar as músicas sagradas no candomblé) são os detentores do saber para trazer à terra nossas divindades. Estes homens são parte importante do candomblé porém não entram em transe”, conta o  tata de inquice Anselmo Santos Minatojy, 61,  líder religioso  do Terreiro Mokambo, de nome sagrado Nzo Nguzo za Nkisi Ndandalunda ye Kitembo, localizado no bairro do Trobogy, em Salvador.

Cada ritual tem cantigas diferentes, em  línguas diversas, e cada nação de candomblé tem sua especificidade para tocar. Além disso, há um maior ou menor limite de participação nos ritos. “O segredo exigido depende do tipo de ritual que se pratica. Em um ritual comum é permitida a participação dos presentes, mas rituais secretos não poderão ter suas cantigas utilizadas para o grande público devido à forte energia liberada através delas” completa tata Anselmo.

As músicas de candomblé costumam ser ressignificadas para sair do ambiente dos terreiros como na composição Canto para Oxum, do grupo cultural Bantos do Iguape, sediado em Cachoeira, Bahia.

A atenção, a concentração na melodia e letra, reflexão e silêncio são parte da experiência religiosa envolvendo a música. Na década de 60, o mestre vaishnava indiano Srila Prabhupada veio ao ocidente pregar a filosofia védica e foi apelidado de Hare Krishna, por causa do mahamantra homônimo. Acredita-se que a melhor forma de se purificar e elevar a consciência é entoando este mahamantra. Mantra é uma palavra em sânscrito que significa libertação da mente.


Segundo Katia Adorno, 52, estudante de filosofia védica há 15 anos, integrante do movimento Hare Krishna de Salvador, os vedas são primariamente em número de quatro e a leitura de todos eles sempre foi cantada. “O mantra deve ser entoado de forma audível, e olhos semicerrados, para que os sentidos não nos roubem a atenção” completa Katia.

Algumas práticas religiosas envolvem o uso de substâncias enteógenas, como a ayahuasca, bebida resultante da combinação de plantas e utilizada em rituais indígenas e de religiões tradicionais brasileiras. Embora para efeito farmacológico a ayahuasca seja definida como “alucinógena”, entre os usuários para fins religiosos é preferível o termo “enteógeno” que significa “gerador da divindade interna”.

Ana Carolina Rezende, 29 anos, integrante da egrégora neo ayahuasqueira Casa do Coração de Maria, pontua a importância da escolha das músicas em centros que utilizam o chá em seus rituais. “O chá traz uma expansão de consciência do espírito e todos os sentidos ficam muito aguçados. Entre eles, a audição e a percepção do som é o que mais se altera” explica Ana.

Para Ana, os hinos proporcionam o link entre a sensibilidade da pessoa que está expandida e a vibração sonora da música. Por isso é importante que as pessoas envolvidas na escolha da canção tenham sensibilidade para saber o efeito da melodia na percepção individual . Além dos hinos e cânticos, durante as sessões existem também as “chamadas”, palavras normalmente escritas pela condutora da casa e entoadas como música.