Desculpe o transtorno, mas precisamos falar de divórcio

Desculpe o transtorno, mas precisamos falar de divórcio

O fim de relacionamentos longos, inclusive de famosos como Brad Pitt e Angelina Jolie, ainda choca

Marcos Costa | Fotos: Mr. & Mrs. Smith – Official® | Divulgação

O amor e o seu fim são inerentes à existência humana. Apesar das mudanças simbólicas que casamento e divórcio passaram nos últimos anos, o fim de matrimônios aparentemente sólidos, como o dos jornalistas Fátima Bernardes e William Bonner ou dos atores  Angelina Jolie e Brad Pitt, aponta que o tema continua capaz de provocar reações de estarrecimento.

“O divórcio impressiona tanto as pessoas porque a separação, mesmo quando necessária na vida de um casal, implica inicialmente numa perda, uma escolha, abrir mão de algo que foi ou é importante, o que determina uma vivência de luto”, explica a psicóloga Ana Suely Vieira. Para ela as diferenças de expectativa em relação à vida e ao parceiro contribuem para o fim.

“Essas diferenças se apresentam na medida que o tempo junto vai passando, e também existe a própria dificuldade de aceitação dessas diferenças”, opina. A psicóloga  ressalta que o desfecho da relação acarreta emoções como tristeza, dúvida, culpa e ressentimento. “A separação apresenta-se como uma passagem de um ‘lugar conhecido’ para outro, novo e estranho”, salienta.

O divórcio de Angelina Jolie e Brad Pitt foi um dos assuntos mais comentados no mundo

Rompimento

O fato concreto é que casais brasileiros embarcaram aos montes nesse caminho “novo e estranho” ao decorrer da última década. Para ser mais preciso, 341,1 mil, de acordo com levantamento realizado pelo IBGE em 2014 e divulgado no final do ano passado. O número representa um crescimento de 160% na última década.

Na ocasião de divulgação dos números, o instituto avaliou que o aumento de divórcios poderia ser visto como evidência de uma mudança gradual na sociedade brasileira e no acesso aos serviços de Justiça relacionados à formalização do final dos casamentos. “A separação judicial era uma etapa necessária para a solicitação para o divórcio, mas hoje não é mais”, conta o advogado especialista em direito familiar Ivo Mendes Filho.

Com o final dessa obrigatoriedade em 2010, a justiça instituiu o chamado Processo de Divórcio Direto, que tornou o processo muito mais rápido. A partir daí, por exemplo, um casal sem bens ou filhos pode realizar todo o processo de desquite direto em um cartório. Para Mendes Filho, a mudança tem colaborado para desafogar as Varas de Família. “Com a ampliação do conceito de família, questões envolvendo todos os tipos de famílias passaram a ser analisadas por essas varas. Casos de família homoafetiva, monoparental e outros”, afirma.

O especialista salienta que o número de casais que recorrem ao seu escritório em busca de uma ruptura consensual é muito maior que os casos de divórcio litigioso, e acrescenta que questões patrimoniais são responsáveis pela maioria de situações de acirramento durante o processo. “Contudo, questões patrimoniais não são um impeditivo. O juiz pode decretar o divórcio e depois decretar a divisão patrimonial”, garante.

Sentimento e fé

Em outubro de 2016, o papa Francisco afirmou categoricamente que existe uma guerra, que se vale de artifícios ideológicos como a teoria dos gêneros por exemplo, contra a sagrada instituição do casamento. “Quem paga as despesas do divórcio? Os dois? Quem paga mais é Deus, porque quando uma só carne se divorcia se suja a imagem de Deus”, disparou na época.

Padre Miguel de Souza, da Paróquia de Nossa Senhora do Resgate, não só concorda com a colocação, como acrescenta que o matrimônio deve ser concedido com responsabilidade como um processo de doação regido pela “Lei Divina”. “De fato há uma guerra global. Todos os dias as pessoas querem provar que o casamento não é importante. E o matrimônio é a aliança mais perfeita que Deus criou entre o homem e a mulher para que a procriação aconteça e se dê a perpetuação da espécie”, disse.

Diferente do eclesiástico, Mendes Filho acredita que o divorcio consiste em uma questão de cunho jurídico, que vai muito além de dogmas religiosos. “Vejo casamento e divorcio como benefícios para quem quer realizar uma união. Representa a possibilidade de entrada e saída. O divorcio é como desfazer um contrato. É sobre a possibilidade de regulamentar a questões para que as partes possam deixar a relação de uma boa forma”, argumenta.

É a saída para conflitos que começam sem muita explicação como no filme Separados pelo casamento (The Break-Up, 2006),protagonizado por Jennifer Aniston e Vince Vaughn.

Ironicamente, especula-se que um ano antes do filme, Jennifer Aniston foi deixada por Brad Pitt depois que ele se rendeu à paixão por  Angelina Jolie iniciada nas filmagens de Senhor e Senhora Smith (Mr. e Mrs. Smith (EUA, 2005)  que também passeia por uma crise no casamento depois que os dois descobrem que levam a dupla vida de assassinos de aluguel.

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Bônus: Rindo para não chorar – Duas dicas para rir da separação

1ª Dica: Divorce

A nova comédia do canal HBO “Divorce” mostra um casal (Sarah Jessica Parker e Thomas Haden Church) navegando pela desagradável experiência de uma separação, e todos os seus altos e baixos. Com uma boa dose de drama, o programa faz piada de situações de profundo constrangimento, conflito e frustração. Assista ao trailer legendado:

 

2ª Dica: Louis CK falando sobre divórcio em um de seus Stand Ups

Conhecido pelo texto sofisticado, o comediante norte americano Louis CK tem um largo histórico de fazer graça da sua própria vida de homem de meia idade, divorciado e pai de duas filhas. No trecho que separamos (infelizmente, sem legendas) do stand up produzido em 2013, “Oh My God”, Louie apresenta uma visão otimista e inusitada sobre o final do matrimônio:

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