Fluidez dos relacionamentos implica na definição de novas regras

Fluidez dos relacionamentos implica na definição de novas regras

Em tempos de “amores líquidos” e incerteza, torna-se difícil definir as relações amorosas 

Juliana Rodrigues e Laís Andrade | Fotos: Gabrielle Guido/Labfoto | Arte: Juliana Rodrigues

Foi-se o tempo em que a única forma de relacionamento socialmente reconhecida era o namoro sério e monogâmico. A pós-modernidade trouxe à tona inúmeros questionamentos sobre as formas “sólidas” em relação ao que era reconhecido como certo e único modelo possível. Novos modelos de relacionamento se tornaram comuns, a exemplo do “ficar” sem compromisso e dos relacionamentos abertos, onde não há monogamia. Nesse cenário diferenciado, muitas vezes as “regras” não ficam muito claras. O que pode e o que não pode? Através de um formulário do Google, o Impressão Digital 126 obteve algumas respostas de jovens sobre o assunto. A maioria dos entrevistados preferiu o anonimato.

Em relação ao que se conhece como “estar ficando com alguém”, o comportamento mais apontado como característico é a não-exclusividade: pode-se ficar com aquela pessoa – o “ficante” -, mas também com outras. No entanto, muitos entrevistados também alegaram sentir desconforto com a ideia de ver o “ficante” com outra pessoa. É o caso de Natasha Avital, que deu a seguinte definição para essa forma de relacionamento: “Não é ideal fazer cobranças, mas tudo bem demonstrar carinho, dormir junto, transar, ficar com outras pessoas. Mas pra ficar com outras pessoas na frente de um/a ficante, o ideal é perguntar antes se tudo bem”.

Já em relação ao namoro, as respostas ao formulário indicam que as regras de exclusividade costumam ser negociadas de acordo com cada casal. O relacionamento pode ser monogâmico ou aberto. Também se ressalta o respeito pela individualidade e a sinceridade acima de tudo. O exercício da sexualidade foi mencionado por quase todos os entrevistados, mas em casos específicos o sexo está fora de questão. “Ter intimidade é importante, portanto acredito que possa tudo. Só não se deve ter intimidade sexual. É o que minha religião me ensina e é no que eu acredito”, defende uma das pessoas entrevistadas, mas que manteve o anonimato.

A transição de uma relação casual para algo mais sério envolve, segundo os entrevistados, alguns elementos essenciais. Para a maioria deles, conhecer amigos e família da pessoa com quem se está saindo é muito importante nesse processo, pois denota disponibilidade afetiva. As demonstrações de afeto e a inclusão da outra pessoa na rotina também são levadas em conta. No caso dos relacionamentos com tendências monogâmicas, o desejo por exclusividade e o desinteresse por ficar com outras pessoas são características marcantes.

Para os mais tradicionais, esse cenário pode até parecer confuso. Mas, entre os mais jovens, há quem concorde com essa nova visão sobre os relacionamentos, ainda que haja certa confusão às vezes. “Relações assim causam esse tipo de coisa, mas prefiro testar antes possíveis relacionamentos a viver como meus pais no passado, e namorar para casar”, explica a estudante Fabiana Guia.

Confira abaixo alguns depoimentos dos entrevistados sobre as próprias experiências:

Reflexões 

Esses questionamentos das formas de se relacionar chegaram até à academia. Na obra Amor Líquido, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman relaciona a “fluidez” dos relacionamentos pós-modernos com a lógica da mercadoria, que passou a ter proeminência com o advento do capitalismo global. A psicanalista Eunice Tabacof demonstra concordar com o pensamento de Bauman. “Eu acho que existe uma liquidez na sociedade de maneira geral, uma liquidez nos valores, na própria forma como o mundo se desenha, uma insegurança global sobre o estar no mundo”, afirma.

Darlane Andrade, psicóloga e pesquisadora do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher (Neim-Ufba), também considera que as transformações sociais das últimas décadas tiveram influência direta sobre as formas de relacionamento: “Devido a muitas mudanças sociais, históricas, culturais, econômicas e ao movimento feminista, que trouxe mudanças principalmente na sexualidade e nos papéis de gênero, a gente percebe que hoje a regra da fidelidade sofreu grandes transformações. A fidelidade maior hoje é a fidelidade ao seu desejo, e esse desejo vai nortear as escolhas para o tipo de relação que se tem”.

A pesquisadora aponta que um importante elemento das relações pós-modernas é a comunicação. Segundo Darlane, no modelo de família nuclear e patriarcal as regras já estavam pré-estabelecidas, enquanto nos dias de hoje é possível observar que as normas de cada relacionamento são uma construção mútua. “Historicamente, uma pessoa diz que está namorando com a outra quando essa relação envolve um sentimento de desejo sexual, amor, mas envolve também a questão da fidelidade. Mas se a gente for esmiuçar a relação de namoro, por exemplo, tem casais de namorados que têm a prática de troca de casais. Então, a fidelidade não é tradicional”, explica.

No entanto, para ambas as especialistas, não se pode generalizar a atual situação dos relacionamentos. Eunice considera, por exemplo, que em classes sociais mais altas ainda há a forte presença de valores tradicionais e lógicas de manutenção do patrimônio. Já Darlane acredita que a generalização é a principal falha do pensamento de autores como Bauman:

“Eles não trazem especificidades dos contextos. Seria o caso de olhar pra esses marcadores: gênero, raça, classe, pensando no local onde essas relações acontecem. Se eles falam de uma flexibilização eles estão falando também de um contexto específico. E no contexto local a gente tem que observar que nem todas as relações são tão fluidas, líquidas, assim. Tem muitas convenções que ainda perduram na nossa sociedade”.

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