Música transforma cantoras em deusas

Música transforma cantoras em deusas

Divas recebem a reverência de fãs que se tornam adoradores do talento de suas escolhidas  

Bruna Leite e Marina Montenegro | Foto: Divulgação

Chiquinha Gonzaga possivelmente adoraria conferir o  destaque das mulheres na música popular brasileira. A compositora, pianista e maestrina carioca lutou contra toda a opressão da sociedade patriarcal do século XIX para conseguir espaço no cenário musical ao invadir uma área que era apenas ocupada por homens abrindo novos caminhos.

Mas foram os concursos de rainha do rádio, realizados na década de 40, que deu lugar a uma nova fase para o feminino envolvido com a arte de cantar no Brasil. As competições se tornaram um grande sucesso de audiência e concediam às vencedoras um programa musical. Grandes vozes se tornaram divas do rádio conquistando a adoração de fãs, como Emilinha Borba, Marlene, Ângela Maria e Dalva de Oliveira. Elas lotavam teatros, casas noturnas e boates.

Emilinha Borba integrou a era de ouro do rádio. Foto: Divulgação

De lá para cá o grupo aumentou:  Elza Soares, Gal Costa, Rita Lee, Maria Bethânia, Cássia Eller, Joyce Moreno, Lan Lan, Clara Nunes, Nara Leão, Angela Ro Ro, Maysa, além das novas Céu, Karina Buhr, Thaís Gulin, Ana Cañas, Alice Caymmi, Tulipa Ruiz, dentre tantas outras cantoras, compositoras e instrumentistas. Essas mulheres tornaram-se referência e hoje são consideradas estrelas pelo público.

Mesmo com as conquistas femininas, o meio musical sempre foi majoritariamente masculino e as mulheres enfrentaram muitas dificuldades para alcançar reconhecimento. Elis Regina, uma das maiores cantoras brasileiras  certa vez destacou as dificuldades das artistas “O mundo é dos homens, é administrado por homens, os empresários são homens”, afirmou  em entrevista à TV Mulher, em 1980.

Baianas

Na Bahia, a cena musical do fim da década de 1980 apresentou uma nova configuração: a de estrela-intérprete, puxadora dos blocos de carnaval. Foi neste cenário que cantoras como Baby do Brasil, Sarajane, Margareth Menezes, Daniela Mercury e Ivete Sangalo se consagraram como rainhas de um  novo gênero musical: a a axé music.

O título de rainha do axé consolidava a versão baiana do star system. As intérpretes elevadas a tal status, possuem uma legião de fãs que as seguem, literalmente, pelos blocos de Carnaval. São fiéis que buscam copiar o estilo de se vestir e integram fã-clubes que se reúnem para falar sobre suas estrelas. A figura da rainha, como o próprio nome revela, coloca a mulher numa posição de poder, à frente dos palcos e dos trios, numa posição de grande visibilidade.

Ivete Sangalo é uma das estrelas poderosas da axé music. Foto: Mateus Pereira / Gov. Ba

Marilda Santanna, pesquisadora do tema, afirma que “heróis, astros, estrelas, reis e rainhas, são expressões normalmente utilizadas pelos meios de comunicação para se referirem àqueles que ocupam um lugar de destaque na realidade e na imaginação do mundo contemporâneo”.

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