Religiões matriarcais retomam a importância do feminino na espiritualidade

Religiões matriarcais retomam a importância do feminino na espiritualidade

Bruxaria e outras práticas ensinam caminho para culto ao poder feminino

João Bertonie e Mallu Silva | Multimídia: Gess Alencar

“Onde há uma bruxa, há um caminho”, diz a inscrição na placa azul, pendurada na parede e decorada com a imagem de uma bruxinha com seu chapéu pontudo. Não é o único chapéu que há por lá. Há inúmeros deles espalhados, fazendo companhia a uma profusão de vassouras de palha, cristais e altares. Onipresente também são as imagens de mulheres, quase sempre representando deusas ancestrais. No Templo Casa Telucama de bruxaria tradicional celta-ibérica, em Lauro de Freitas, o feminino é sagrado.

A mulher foi sacralizada a partir do momento em que os homens iam para as caçadas, sangravam e morriam. A mulher, por sua vez, sangrava todo mês e permanecia viva. “Aí se deu a sacralidade do útero”, explica a suma sacerdotisa Graça Azevedo. Estamos no ano 5.746 do calendário lunar, utilizado pelas bruxas quando estão naquele templo. Graça está há 42 anos à frente da casa.

Chamada de “suma” ou de “mama” pelas 80 bruxas e bruxos da casa, a Senhora Telucama já fez 18 sacerdotisas e 12 sacerdotes, além de ocupar lugar de destaque nos oito rituais que ocorrem no ano lunar, numa religião que, segundo ela, combina arte, ciência e filosofia.

Quem sente o chamado para a bruxaria e quer ser iniciado na tradição deve passar pelo Colégio Ponto de Mutação, centro de formação sacerdotal, sediado no próprio templo.  A preparação dura de sete  a nove anos. Os dois períodos iniciais são dedicados ao que a suma chama de autoconhecimento. Nos anos seguintes, estudam-se ciências, filosofia e demais disciplinas fundamentais para a bruxaria tradicional.

“São práticas existenciais, nas quais está o princípio do sagrado feminino, uma abordagem uterina de preservação desse grande útero que nos acolhe, o planeta Terra”, expõe Graça Azevedo, com o tom ao mesmo tempo didático e maternal que permite imaginar sua relação com os seus alunos. Durante a conversa, há frases que ela repete duas ou três vezes. “No princípio era o útero, o verbo veio bem depois” é uma delas, na qual a suma subverte e clássica passagem do Novo Testamento da bíblia cristã.

Nova era

A ideia do feminino como referência do sagrado, de ressignificação ou valorização, sempre existiu, mas ressurge a partir de um movimento chamado Nova Era, segundo a doutora em antropologia Fátima Tavares. “Esse movimento tem sua emergência no final dos anos 60 e início dos 70, com a contracultura americana”, conta. Para a pesquisadora, estas novas religiosidades ganham espaço ao contrapor o aspecto predominantemente masculino nas tradições cristãs.

Fátima defende que o diagnóstico destas novas religiosidades é que a nossa sociedade é altamente desequilibrada, com uma proeminência do princípio masculino. “O que se quer é uma ênfase no feminino para construir uma relação de equilíbrio”, diz. A Senhora Telucama ensina por um caminho parecido . “Na bruxaria, não definimos gênero. São todos humanos voltados ao propósito de servir e à preservação deste grande útero chamado planeta Terra”, afirma a bruxa.

Livro com receitas ritualísticas passadas de geração em geração

Guiada pela suma sacerdotisa, a doutoranda em Língua e Cultura Ingrid Oliveira, 28 anos, entrou em contato com a sua ancestralidade pagã em 2007, quando ainda tinha 18 anos. Para que a reportagem conseguisse seu contato, a mama precisou autorizar a entrevista e outra bruxa mediou a conversa. “Por meio do Sagrado Feminino, pude conhecer e respeitar a força transformadora que emana do ventre de todas nós, mulheres”, afirma. Ingrid é uma das pré-sacerdotisas do templo.

O culto ao Sagrado Feminino, contudo, não é feito apenas em comunidade. Por não conseguir encontrar uma casa de bruxaria que a contemplasse, Priscila Santine, 23, se define como uma “bruxa solitária”, fazendo seus rituais dentro do seu próprio quarto, na Boca do Rio. Em 2014, ela deixou a religião evangélica, seguida pela sua família, para se aventurar na wicca, crença neopagã surgida no início do século XX. Há um ano, resolveu se dedicar de forma independente ao culto das deusas ancestrais na bruxaria tradicional. “Cultuando as deusas e o sagrado feminino, eu me sinto realmente livre, eu escolho o que é certo e errado para mim”, completa.