Cozinha é espaço do sacerdócio feminino

Cozinha é espaço do sacerdócio feminino

Preparo de alimentos sagrados une exercício da sabedoria e transmissão de habilidades

Marcelo Ricardo e Pablo Santana | Foto: Elói Corrêa | Gov.Ba

No candomblé costuma-se dizer que “tudo come”. Da cumeeira- o local do assentamento central do templo-  até os atabaques, espaços e objetos sagrados são alimentados. Embora as as religiões de matriz africana possuam configurações diversas por conta das diferentes heranças litúrgicas, no  espaço da cozinha, geralmente, a presença feminina predomina.  Mas, diferentemente do lugar ser entendido como “área de  opressão”, comumente associado às mulheres nesses ambientes, na cozinha de axé a história é diferente.

Nos terreiros, a  Iyabasse (Mãe da Cozinha) é uma referência  importante, pois alimenta a comunidade e as divindades. Ela é quem coordena, lidera e organiza tudo referente à alimentação. É a grande maestrina da cozinha. É ela quem convoca a equipe de filhos e filhas para auxiliá-la”, explica a dramaturga, pesquisadora e educadora Fernanda Júlia, que é iyakekerê- a segunda na hierarquia de um terreiro de tradição ketu- do Ilê Axé Oyá L’adê Inan.

A cozinha nos terreiros é também associada a um lugar de aprendizado contínuo. Não há uma iniciação especifica, mas, um conhecimento orientado a partir da observação. Numa casa de axé pode ter mulheres ou homens na cozinha, pois depende da demanda da casa. Seja a contribuição de limpar, levar materiais e ajudar no preparo dos alimentos, a partir da decisão da iyabassé, os homens também podem contribuir, ainda que reconheçam como um espaço legítimo do poder feminino.

Poder

Admitir a importância das mulheres negras de candomblé no processo de libertação e emancipação do povo brasileiro é reconhecer a cozinha de axé como um espaço de poder, que durante décadas foi referida como uma prisão ou o lugar que cabia à subserviência. Para Fernanda Júlia, as mulheres negras potencializaram o processo civilizatório do Brasil por meio de seus tabuleiros nas ruas e os conhecimentos adquiridos dentro das cozinhas dos terreiros.

“O axé é empoderador em todas as suas instâncias. A comida é poder, cozinhar é poderoso. A história está cheia de mulheres que mudaram suas vidas a partir da cozinha. Luiza Mahin fomentava a revolução do seu tabuleiro”, reforça a iyakekerê.

No livro Na palma de minha mão: temas afro-brasileiros e questões contemporâneas”, o doutor em antropologia e professor da Ufba,  Vilson Caetano aponta as dificuldades da arte de mercar e acumular capital a partir das vendas dos quitutes. Ele explica que a expressão “cabeça para venda” seria atribuída a muitas mulheres que criaram seus filhos a partir do empreendedorismo.

A venda de acarajé foi arma da emancipação de diversas mulheres. Foto: Robson Mendes/ Gov. Ba

As lendas das Iyabás –  Nanã, Obá, Ewá, Oxum, Oyá e Yemanjá-  demonstram expressões utilizados no feminismo e ensinam como combater o patriarcado, machismo e a misoginia, sendo que muitos desses conhecimentos destacados nas suas histórias foram elaborados no âmbito da cozinha. Mulheres como Dadá, Dinha e Cira – baianas de acarajés renomadas no cenário baiano -, demarcam como cozinhar, vender comida em tabuleiros ou de porta em porta foi e continua sendo empoderador.

Oxum: a dona da cozinha

Vovó Cici é uma griot, ou seja, mestra na área de contar histórias da cultura afro-brasileira. Ela atua no Espaço Cultural da Fundação Pierre Verger, no Engelho Velho de Brotas.

Aqui ela conta um mito sobre Oxum, orixá que tem forte poder sobre a força que emana da cozinha.