“Eu aceito... eu ofereço…”: mulheres trocam apoio em rede social

“Eu aceito… eu ofereço…”: mulheres trocam apoio em rede social

Grupo no Facebook é espaço que mulheres encontram para pedir ajuda

Jessica Carvalho e Michelle Oliveira | Foto: Pixabay (com modificações) | Videos: Jéssica Carvalho, Michelle Oliveira e Divulgação  

Pedir ajuda é um ato de coragem. Seja para chegar a uma rua desconhecida que fica do outro lado da cidade, seja para organizar as bagunças internas e externas que surgem e vão se acumulando na vida. Para as mulheres, sejam elas mães de primeira viagem, experientes ou recém divorciadas, pedir ajuda muitas vezes significa fracasso.

Foi somente depois de criar coragem e pedir ajuda a 33 mulheres, que Isabela Silveira, artista de 33 anos formada em interpretação teatral pela UFBA, conseguiu equilibrar emocionalmente sua vida e organizar o quarto da filha que estava a caminho. A partir da vivência, surgiu a vontade de que mais mulheres pudessem experimentar a sensação de pedir ajuda e assim nasceu no Facebook o grupo “Eu aceito… Eu ofereço…” em 2016, que já reúne 15.323 mulheres.

Isabela Silveira criou o grupo “Eu aceito… Eu ofereço…” e acredita que ele é “uma utopia possível” | Foto: Arquivo pessoal

O funcionamento é simples, as pessoas podem pedir ajuda de qualquer tipo ou oferecer algo que acreditam ser útil para outra pessoa: uma companhia para um pôr do sol, alguém para auxiliar na faxina de casa ou uma bicicleta para o filho mais novo. A condição principal é que não seja permuta.

“O grupo é um exercício de reconstrução, de coletividade, de afetos e de acolhimento. As mulheres foram estimuladas a se detestarem o que é uma técnica de dominação, pois somos muito perigosas juntas. O grupo é funcional, as pessoas raramente não têm suas demandas ou ofertas atendidas e há poucos conflitos”, explica Isabela. Atualmente, a comunidade só aceita a entrada de mulheres (trans ou cisgêneros) e possui regras bem definidas: não pode haver pagamentos, trocas ou compartilhamento de links. Isso faz com que a necessidade de cada membro não seja ofuscada, acredita Isabela.

Uma utopia possível

O medo de pedir ajuda surge principalmente por causa do medo de ser julgada por familiares, amigos e conhecidos. No grupo, milhares de mulheres encontram apoio de pessoas desconhecidas, que estão dispostas a amparar umas às outras independente de qualquer motivo. Muitas vezes, elas estão em quadros de depressão e relacionamentos abusivos.

“Quando estava com a vida super desorganizada e percebi que não conseguia mais resolver sozinha, tive vergonha de pedir ajuda às minhas amigas. Então recorri àquelas 33 mulheres que não eram minhas amigas, mas eu admirava. Todas falaram sobre a coragem de pedir ajuda. Mulheres retadas, altruístas, que estavam me ajudando, mas também tinham vergonha de solicitar ajuda, porque é como se tivessem fracassado. Os homens tem outros fardos, mas não são cobrados por isso”, relata Isabela.

Depois de passar por uma sequência de eventos negativos que a levaram a desenvolver um quadro de depressão, Mônica* encontrou nas “manas” do grupo, como gosta de chamar, o apoio que não recebe nem mesmo da família. “Eles acham que depressão é frescura. Então para mim, o grupo é sensacional. Tenho apoio, cuidado e carinho de pessoas que não me conhecem, mas me dão força para superar cada dia. Fiz muitas amigas. Uma delas me levou para uma oficina de mosaico e foi um dos dias mais felizes da minha vida”, afirma.

Rede colaborativa

Às 16 pessoas que surgiram quando Isabela pediu auxílio, somaram-se mais duas mil no primeiro dia e 15 mil no primeiro ano. O grupo criado, cuja maioria de membros era de Salvador, cresceu e hoje abrange pessoas de todo o Brasil. Outras comunidades surgiram para que pessoas da mesma cidade se aproximassem, a exemplo do “Eu ajudo… eu ofereço, Rio de Janeiro”, criado por Vania Galha. “Achei a proposta do grupo maravilhosa e que seria interessante ampliar o círculo do amor. Isabela é a minha referência e pedi a ela autorização e orientações para a criação do grupo”, explica.

Após o fim do casamento e sendo responsável por duas crianças pequenas, Vania contou com a ajuda do grupo para mudar para Salvador. “Em um primeiro momento me senti constrangida de pedir ajuda e até fui julgada por um familiar, mas não fazia sentido acreditar na proposta do grupo a ponto de criar um nos mesmos moldes e não mergulhar na experiência”, avalia. Foi assim que ela chegou em Salvador e encontrou brinquedos para as crianças e um jantar em seu apartamento.

Itabuna, São Paulo e Ilhéus são algumas das cidades que também possuem grupos com a mesma proposta. Para Vania, eles são formados por pessoas que estão em busca da mesma coisa. “São pessoas desinteressadas nas ofertas que, quando aceitam ajudar, fazem ‘apenas’ para circular o bem”, diz. Isabela concorda. “Os fluxos de energia do universo são de continuidade. Se eu sou gentil com você, o favor  não precisa voltar para mim, mas para o outro”, defende.

Confira algumas histórias que surgiram no grupo:

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*Nome fictício a pedido da entrevistada