Regras para se vestir no trabalho constrangem mulheres

Regras para se vestir no trabalho constrangem mulheres

Da roupa à cor do batom, diariamente as mulheres são orientadas a se “comportar” no ambiente corporativo

Bruna Leite e Marina Montenegro | Imagens: Internet livre

Sabe-se que o mercado de trabalho ainda é muito machista, principalmente em relação ao espaço ocupado por mulheres. É frequente que elas sejam julgadas pela forma como se vestem e, principalmente, como se comportam.

O poder da sedução atribuído à mulher abre precedentes que as tornam alvos de manuais de etiqueta, além de inúmeros tutoriais na internet e sites de Recursos Humanos especializados em ensinar a mulher a como se vestir no ambiente de trabalho.

Em empresas privadas ou órgãos públicos o cenário é o mesmo. “Você tem que aprender que a gente não vai à praia com a roupa de trabalho, não é?”. Essa foi a frase que Carolina Oliveira*, funcionária de um órgão público do Estado da Bahia, escutou de uma colega de trabalho após ser constrangida pela forma que se veste.

Negra, cabelo black power de cor marcante, Carolina tem várias experiências negativas quanto às exigências para se vestir no trabalho. Ela costuma ir de saia jeans, camiseta, decotes e havaianas porque para ela, como passa a maior parte do dia no trabalho, tem que se sentir à vontade.

Ao ser questionada se já foi obrigada a seguir um padrão de roupas no ambiente de trabalho, ela responde: “Obrigada não, mas foi imposto uma vestimenta. No meu local de trabalho saiu uma circular com uma conduta, um texto ridículo, que falava da roupa à cor do batom, o cheiro do perfume. Foi imposto que todo mundo viesse assim [com roupa adequada ao ambiente de trabalho] porque senão teria que voltar [para casa], que não poderia certo tipo de sapato, tamanho de roupa, mas eu acho que isso é uma visão limitada”, pontua.

Fonte: Arquivo Pessoal

As barreiras são ainda maiores quando saímos do machismo e entramos no preconceito. Carolina conta também que, enquanto mulher negra, sua competência é julgada o tempo inteiro pela forma como se veste e como se apresenta às pessoas de outros setores. “Uma vez teve um problema em um setor e eu tive que ir resolver. Então, a diretora do setor me perguntou: é você quem vai resolver esse problema? Eu respondi: pois é, sou eu. E eu estava usando camiseta, saia e havaiana. Fui lá e resolvi o problema”.

Para Graziela Brito, gerente de Recursos Humanos, o ambiente de trabalho pede uma vestimenta mais “comportada”, mas considera que as mulheres devem se sentir confortáveis. “Em qualquer empresa, é necessário ter um código de vestimenta. Não é de bom tom utilizar roupas provocantes, pois pode passar a impressão errada para os seus colegas de trabalho. Eu sempre oriento os funcionários a se vestirem de acordo com a empresa em que estão inseridos. Se o ambiente for mais informal, não tem problema, mas se for um local de trabalho mais sério, acredito que seja importante se vestir um pouco mais formal. O importante é estar sempre confortável”, afirma.

Existe também o contraponto das que se vestem formais demais. A estudante de direito Renata Gualberto, estagiária em órgão do governo, conta que é julgada por vestir certas roupas. “Nunca fui obrigada, mas já ouvi indiretas e “dicas” de como me vestir para tal ambiente. Ainda que não use roupas curtas e insinuantes no ambiente de trabalho, adoro salto alto e uso meu cabelo grande sempre solto e isso parece incomodar um pouco”, conta.

A aparência das mulheres no ambiente de trabalho ainda é determinante para que suas competências e habilidades sejam questionadas. “Uma mulher que se arruma muito, que chama atenção pelo que veste é logo julgada como burra ou incompetente, mesmo que apresente um ótimo currículo”, afirma Renata.

* Nome fictício para preservar a fonte da reportagem