Filmes baianos ainda sofrem com pouca distribuição

Filmes baianos ainda sofrem com pouca distribuição

Festivais e internet são alternativas para realizadores

Saulo Miguez e Tiago Almeida

O baiano Calebe Lopes teve seu filme exibido no Festival de Cannes este ano. (Foto: Divulgação)

Aos 21 anos e em seu sexto curta-metragem, o jovem diretor de cinema Calebe Lopes realizou um feito almejado por muitos cineastas: teve o seu filme exibido no badalado Festival de Cannes. “Um Dia é da Vida, Outro é da Morte” esteve entre os selecionados da mostra short film corner, uma categoria não competitiva que reuniu produções de todo o mundo.

“Mandamos o filme e ele foi aceito. Devem ter sido inscritos uns 4 ou 5 mil filmes no corner, desses eles selecionaram 1800 que ganharam essa janela de exibição nessa mostra de mercado”, afirma.

Os desafios para exibir a película em uma das telas mais disputadas do mundo, no entanto, não foram menores do que os que Lopes e outros realizadores baianos vêm enfrentando para projetarem seus frames do lado de cá do Atlântico.

Lopes reconhece os avanços dos últimos anos, porém, conta que ainda são muitas as barreiras impostas aos filmes baianos nas salas locais sobretudo para os curtas-metragens. “Embora exista a Lei do Curta, que obriga a passar um curta antes de cada longa, ela não é cumprida. Então não existe um sistema de distribuição para esses filmes”.


Lei do Curta
A Lei do Curta regula a exibição de filmes brasileiros de curta-metragem nas salas de cinema do país. Ela possui como base o artigo 13 da Lei Federal 6.281, de 9 de dezembro de 1975, que diz que “nos programas de que constar filme estrangeiro de longa-metragem, será estabelecida a inclusão de filme nacional de curta-metragem, de natureza cultural, técnica, científica ou informativa, além de exibição de jornal cinematográfico, segundo normas a serem expedidas pelo órgão a ser criado na forma do artigo 2º”.  Confira a Lei na íntegra neste link


Segundo Lopes, a distribuição dessas produções está fadada a rotas alternativas às comerciais, como festivais, os canais fechados de TV e a internet. “No festival, é onde irá acontecer a reflexão sobre os filmes e o contato entre cineastas, cinéfilos e público geral. Os canais de TV a cabo dão uma sobrevida ao filme depois que ele passa em tudo o que é festival. E por fim, há a opção de liberar o filme na internet, temos exemplos de bons resultados de obras postadas no Youtube e no Vimeo que conquistaram números excelentes”.

Lopes ainda completa ao dizer que a crítica ao engessamento na distribuição é assunto recorrente nas rodas de conversas entre cineastas. “Você não quer fazer filme para ganhar festival, prêmio ou dinheiro, e sim para que ele seja visto pelo maior número de pessoas. Então, eu ainda acho que faltam maneiras de se exibir os filmes fora de mostras e eventos”.

Sobre exibir “Um Dia é da Vida, Outro é da Morte” na Bahia, até o momento tudo o que há são planos. “Já mandamos para festivais daqui e estamos organizando uma exibição na Walter da Silveira, mas ainda sem data”. Assim que rolar a confirmação, iremos divulgar na página do Facebook”. Assista abaixo ao trailer do filme “Um Dia é da Vida, Outro é da Morte”.

Falta tempo ($)
Egresso do Bacharelado Interdisciplinar com concentração em Cinema e Audiovisual da Ufba, Rogério Villaronga, 28, acabou de lançar o seu primeiro longa-metragem, o documentário “Amor, a razão”, que participou da 12ª Mostra de Cinema documental de Ipatinga-Minas Gerais, o Cinedocumenta. Ele conta que o tempo de duração do filme é grande obstáculo para que ele seja exibido em uma sessão convencional/comercial.

“A maior dificuldade é em relação ao tempo do meu filme que tem 50 minutos. Algumas salas pedem um mínimo de 60 minutos, ou então é disponibilizado um horário que tem pouco público, geralmente às 13h”.

Outra dificuldade apontada são os valores cobrados pelas salas, que chegam a R$ 1.600 por semana, o que acaba inviabilizando a sessão, sobretudo pela inexistência de políticas de incentivo a filmes independentes ou editais específicos para isso.

Para não deixar a película avinagrar, Villaronga planeja buscar os festivais. “É o espaço que os realizadores têm para exibir e interagir com outros filmes. Os festivais são onde os filmes independentes são vistos e onde entram em contato com um primeiro público”.

Disputa de espaço

George Bispo planeja exibir seu documentário no cinema. (Foto: Tiago Conceição)

 O mestre em Cultura e Sociedade, George Bispo,31, acaba de realizar seu primeiro filme, o documentário “Alabês” e, com dinheiro do próprio bolso, pretende exibir sua obra em uma Sala convencional de cinema. Bispo acredita que apesar das dificuldades é importante que as produções locais, sobretudo as independentes, disputem espaço com os filmes dos grandes estúdios.

“Você não vê nos cinemas por aí um filme abordando essa temática, então, a idéia é levar para o terreiro, mas também levar para um espaço consagrado como o cinema. Mais para frente pretendo lançar em festivais, fazer circular”.  O diretor conta que após a exibição nas telonas o filme será transformado em DVD, que será distribuído em escolas e bibliotecas públicas e comunitárias.

“Alabês” é um documentário que trata dos homens que dentro do candomblé têm a função de cantar e tocar instrumentos musicais para chamar os orixás para a terra e para incorporação. O projeto nasceu dentro de um terreiro de candomblé através de conversas com esses homens que narravam as suas histórias e relações com a tradição oral dentro da religião.

Satisfeito com o resultado final da produção, o jovem cineasta quer mais. Em breve, ele pretende rodar mais dois documentários e fechar uma trilogia sobre o candomblé. O capítulo dois deverá retratar as iabacês, mulheres que tem a função de cozinhar para o Deus da religião. “Já estou em fase de pesquisa e em breve vou escrever o roteiro”. O fechamento da trilogia ainda não está definido.

Há evolução
A exibição das produções baianas, por sua vez, vem aos poucos se consolidando, como afirma a responsável pela programação das Sala de Arte de Salvador, Suzana Argolo. Segundo ela, nos últimos anos, a presença desses filmes nas telas baianas aumentou significativamente.

Ela relata que, além das produções que entram na grade de programação, o circuito tem trabalhado em parceria com diversos realizadores para exibir pré-estreias e cabines de curtas, médias e longas-metragens.

“Recentemente tivemos o NordesteLab aqui em Salvador e muitos realizadores da região elogiaram a produção baiana. Hoje, nós já temos um ciclo mais bem definido de produção e exibição por conta desta maior abertura”.

O Nordestlab é um evento que busca fomentar o mercado audiovisual no nordeste baiano, o projeto promove palestras, workshops, oficinas e rodas de conversa com realizadores, produtores e interessados em audiovisual, sua ultima edição foi em maio deste ano.

Facilidades para produzir
É consenso entre os realizadores baianos que se caso as políticas de exibição acompanhassem os avanços relacionados à produção, muito mais cinema local seria mostrado nas projeções. “Para produzir eu acho que está sempre melhorando. Desde o advento das câmeras DSLR, das Canons mais baratinhas e lentes mais acessíveis. Só consigo enxergar coisas boas dessa democratização”, comenta Calebe Lopes.

Além da democratização tecnológica, a graduação em Cinema da Ufba foi uma capacitação a mais na formação teórica dos realizadores. O curso que surgiu em 2009 e até agora completou 7 turmas, já formou novos diretores que vem ganhando espaço no cenário nacional, como Jamilie Coelho e Adriano Big, que dirigiram, respectivamente, a animação “Orun Aiyê” e o documentário “Para Além dos Seios”.

Segundo a Ancine, as salas brasileiras bateram recorde de bilheteria em 2016

Jonas e o Circo sem Lona perde cerca de 90% do público na 3ª semana de exibição

A obra Os Dez Mandamentos – O Filme atraiu 11,3 milhões de espectadores e liderou o ranking de melhor bilheteria nacional do ano. O filme foi a primeira obra nacional a em mais de mil salas em todo o país (Foto: Divulgação)

Enquanto o filme Os Dez Mandamentos alcançou mais de dez milhões de espectadores em 2016, o documentário baiano “Jonas e o Circo sem Lona”, da diretora Paula Gomes, 37, que despontou este ano como uma das grandes produções do cinema local perdeu 90% do seu público em três semanas.

O longa-metragem conquistou o prêmio do público de melhor documentário no festival Cinelatino – Encontros de Toulouse, na França e  foi exibido no Festival Internacional de Documentários de Amsterdã.

O sucesso nos festivais, por sua vez, não se repetiu nas salas brasileiras. De acordo com dados do Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual, o filme chegou na terceira semana sendo exibido em quatro salas em todo o país e somou 115 espectadores.

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