T.I. também é assunto de mulher

T.I. também é assunto de mulher

Projeto OxentTI Menina aproxima estudantes do ensino médio da Tecnologia da Informação

Rosana Silva

Tecnologia da Informação é uma área onde a presença masculina é predominante. De acordo com dados do PNAD (2013), dos 500.000 de profissionais que trabalham no setor de TI, apenas 19% são mulheres. Esta realidade tem feito com que mulheres criem maneiras de ampliar o interesse do público feminino pela Tecnologia. O projeto OxenTI Menina surgiu com este objetivo. Composto por Brenda Costa, 20, Ive Gavazza, 26, Jamillle Cerqueira, 27, Juliana Reichow, 32, e Clara Cerqueira, 24, a iniciativa procura inspirar estudantes jovens através da tecnologia.

Facilitadoras do OxenTI (Foto: Divulgação)

“Atuamos com programação e empreendedorismo porque são, em nossa visão, coisas com potencial de ampliar os horizontes de atuação delas”, explica Juliana Reichow, bacharela em Sistemas da Informação, na Universidade do Estado da Bahia.  A economista Ive Gavazza aponta que o projeto atende principalmente as garotas que estudam nas escolas públicas. “O objetivo da OxenTI Menina é gerar ferramentas para uma galera que ainda está distante das áreas das exatas. Nosso trabalho é ser a ponte”.

Responsáveis por fazer com que o Technovation Brasil 2016 acontecesse da cidade de Salvador, as integrantes do projeto participaram como mentoras  e competidoras. Elas chegaram a semifinal da competição com o aplicativo Rede Saúde.  O evento internacional desafia estudantes mulheres do ensino médio a resolver problemas locais por meio da tecnologia.  “Na edição do Technovation 2016, o aplicativo que chegou a final tentava resolver o problema dos postos de saúde da cidade, deixando à disposição do usuário informações dos postos de saúde, como especialidades, horário de funcionamento, endereço e telefone”, conta Brenda Costa, estudante de Sistemas da Informação na Universidade Ruy Barbosa. Elas também atuaram como mentoras do Desafio Hackathon – Respeita as Minas, nos dias 3 e 4 de Junho de 2017, em Salvador. O evento teve o objetivo de desenvolver soluções para o combate à violência contra as mulheres na Bahia.

Há mulheres no setor de TI

O trabalho de incentivar o interesse das estudantes pelos assuntos que envolvem a Tecnologia da Informação esbarra na falta de representatividade que, muitas vezes, é causada pela invisibilidade das mulheres que atuam no setor. “Não há como estimular interesse por algo que ainda pareça distante. É necessário mostrar que existem mulheres na área, mulheres criando na área, mulheres que vieram do mesmo background delas se destacando na área”, afirma Ive Gavazza.

As ações promovidas pelo OxenTI Menina ampliou o conhecimento das estudantes sobre a importância e as formas de usar a tecnologia. Jennifer Santos, 19, estudante do ensino médio, ficou feliz por ter aprendido a programar. “Para mim era um bicho de sete cabeças que só os nerds conseguiam dominar. Elas me explicaram que só precisava de dedicação. E descobri que podia fazer meu próprio aplicativo, que poderia vê-lo na Play Store. Meu caderno de ideias está cheio”. Neste ano, Jennifer Santos participou da edição Technovation 2017, com a proposta de um aplicativo que trazia informações sobre alimentação saudável. “Infelizmente, eu e minha parceira não passamos para a próxima etapa, mas podemos continuar com nossos aplicativos”.

Luana NG, 18, afirma que depois da experiência de aprender a programar, a  tecnologia não é um diferencial, mas uma exigência. “É muito importante que as pessoas conheçam que este mundo da tecnologia vem mudando nosso mundo. Eu achei super legal a experiência e tenho certeza que vai me ajudar em muitas coisas”. Por causa do OxenTI em aprendi a fazer um aplicativo, eu nunca imaginaria que conseguiria fazer um”.

“Infelizmente, a tecnologia está associada a qualidades ditas como masculinas e mulheres que as possuem podem ser vistas como masculinizadas (de forma pejorativa), pelos mais preconceituosos”, analisa a pesquisadora Mônica Paz.

A desigualdade de gênero no setor de TI é um desafio enfrentado para a conquista da igualdade de oportunidades e respeito no mercado.  Jamille Cerqueira,  bacharela em Sistema da Informação, na Faculdade Santíssimo Sacramento, afirma que existe mudança no setor de TI. “Percebemos que as mulheres vêm se destacando cada vez mais na área em paralelo aos homens. Não concordo que o uso e habilidades das tecnologias são restrita aos homens, esse cenário vem mudando. O objetivo do OxenTI Menina é este, contribuir para essa mudança”. Atualmente, Jamille Cerqueira é coordenadora de Tecnologia de uma Secretaria de Educação, numa cidade da Bahia. Ela lidera uma equipe de onze pessoas.

Juliana Reichow acrescenta que o preconceito limita o acesso de mulheres ao campo das tecnologias. “O que temos, ainda, é, de um lado, uma barreira maior à entrada e permanência de mulheres em algumas áreas, especialmente as chamadas STEM (do inglês Science, Technology, Engineering and Math – Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática), por conta dos preconceitos que existem advindos de nossa sociedade que não só é sexista, como tende a criar caixas muito fechadas para cada um de nós”.

(Design: Rosana Silva)

No imaginário social a tecnologia é considerada atributo masculino, como explica a pesquisadora Mônica Paz.  “Infelizmente, a tecnologia está associada a qualidades ditas como masculinas e mulheres que as possuem podem ser vistas como masculinizadas (de forma pejorativa), pelos mais preconceituosos. Em alguns casos, até a sexualidade das mulheres é discutidas devido a sua atuação ou interesse por tecnologias. Diante dessas crenças e estereótipos, muitas mulheres são desencorajadas a atuarem na TI, quando não são encorajadas a suprimirem sua feminilidade para continuar atuando neste meio masculino”.

Na pesquisa de doutoramento pela Universidade Federal da Bahia, Mônica Paz investigou a atuação de um grupo de mulheres na comunidade de Software Livre e verificou que muitas trabalham para a conscientização da comunidade a respeito das questões de gênero, apesar das dificuldades. “Creio que são as próprias mulheres e em ações conjuntas que devem ser protagonistas na mudança de suas vidas. Os grupos, coletivos e ações de mulheres para mulheres podem atuar despertando o interesse e o empoderamento de mais mulheres nesta área”.

É desta forma que o OxenTI Menina vem contribuindo para equilibrar as desigualdade de gênero no setor de TI, sobretudo, compartilhando conhecimentos para as mulheres jovens. “A tecnologia liberta. Traz o conhecimento e a autonomia para realizar qualquer tipo de trabalho que se queira realizar. Esse tipo de sentimento que eu gostaria de passar para essas meninas. Infelizmente, Salvador sempre foi cruel com a periferia e mais ainda com as meninas que tem que engolir todo tipo de pensamento limitante”, declara a biotecnologista Clara Cerqueira.

Mônica Paz pontua que a falta políticas públicas contribuem para a manutenção da desigualdade entre gênero no setor de TI. “O problema já está caracterizado, o que faltam são mais políticas públicas que visem reverter esse cenário, bem como as que impulsionem a mudança social e cultural, que são as principais barreiras para a maior atuação das mulheres na TI”.

Combate à violência contra mulher é a proposta para o Desafio Hackathon

Realizado em Salvador, nos dias 3 e 4 de junho, no Instituto de Matemática e Estatística, da Universidade Federal da Bahia, a primeira edição do evento Desafios Bahia Hackathon teve como tema a campanha “Respeita as Minas”. A ação foi promovida pela Secretaria Estadual da Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado da Bahia, numa parceria com a Secretaria de Política Para Mulheres do Estado (SPM), Universidade Federal da Bahia (UFBA), Companhia de Processamento de Dados do Estado (Prodeb) e a Polícia Militar da Bahia.

De acordo com a secretária Julieta Palmeira da (SPM), uma das questões mais importantes é a violência contra a mulher. “Não podemos ver a violência como uma violência social de um modo geral, mas relacionada ao machismo. A Bahia está acima da média em feminicídio, que é um crime hediondo”.  A secretária frisou que para combater a violência é necessário fortalecer a Rede de Atenção às mulheres, que envolve a Ronda Maria da Penha, as Delegacias das Mulheres, o Ministério Público, o Tribunal de Justiça, A defensoria Pública, além da SPM.

A subcomandante da ronda Maria da Penha, a capitã Ana Paula Costa, falou sobre a importância da Ronda Maria da Penha, os desafios na prevenção da violência contra as mulheres e os ganhos das ações implementadas. “Houve uma redução de 23% no número de ligações desde que fomos para Periperi por conta da simples circulação da viatura”.

Diante das problemáticas expostas, os 32 jovens – 22 mulheres e 10 homens – iniciaram a maratona que começou no dia 3 junho e terminou no dia 4 de junho. A partir dos desafios enfrentados pela Ronda Maria da Penha, a equipe vencedora desenvolveu uma plataforma com procedimentos informatizados. Nela, as mulheres assistidas contarão com um diário a fim de relatar acontecimentos da sua rotina.

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