Já ouviu falar em demissexualidade?

Já ouviu falar em demissexualidade?

Jovens baianos contam suas experiências sobre a descoberta dessa sexualidade ainda pouco conhecida

Cris Almeida e Gabriela Medrado

Você já conheceu uma pessoa gente boa, simpática, inteligente, e bonita, e não sentiu vontade nenhuma de ficar com a pessoa? Já passou a se sentir muito atraído(a) por alguém depois de meses de amizade, sendo que antes não tinha nem uma faiscazinha? Já sentiu que não tem tanto interesse por sexo quanto as pessoas que você conhece? Pode parecer estranho à primeira vista, mas isso é comum na vida de quem é demissexual.

A demissexualidade, ao contrário do que se pode pensar, não tem nada a ver com sentir atração pela Demi Lovato, nem pela Demi Moore. É uma sexualidade que faz parte da chamada área cinza, um espectro de transição entre a assexualidade (a ausência total de atração sexual) e a alossexualidade (categoria onde entram os heteros, bis, gays e pans, que sentem atração sexual). Para uma pessoa demi, a atração sexual só se dá depois que se forma um vínculo emocional e afetivo com a pessoa.

O termo é bastante recente, e tem se popularizado nos últimos anos através de grupos na internet, sites e fórums. Tem conquistado sobretudo jovens que conhecem a demissexualidade através da internet e se identificam, e o assunto tem ganhado importância nas discussões sobre sexualidade. Na Bahia, jovens acolhem a nova palavra e compreendem um pouco melhor os próprios desejos.

Giovanni Isaac, de 19 anos, percorreu um longo caminho para reconhecer sua sexualidade. Entre se achar uma mulher lésbica, se descobrir homem trans e perceber sua demissexualidade, ele passou por várias transformações na sua identidade: “Aos 13 anos achava que era uma mulher lésbica, depois bi, depois homem hetero, pan, até que me apresentaram a demissexualidade, e pensei ‘Pronto, é isso!’”, conta. Sempre pesquisando bastante sobre gênero e sexualidade, Isaac se descobriu demi após se apaixonar pelo seu melhor amigo, também demissexual. “Percebi que todas as pessoas por quem me apaixonei antes foram minhas amigas. Até pensei que eu só gostava de ser à moda antiga, porque nunca ficava antes de namorar, mas é uma coisa minha”.

 “Tive problemas em um relacionamento porque a pessoa não entendia e achava que eu não tinha interesse sexual nela ou que eu estava transando por obrigação”, diz Luara Maciel.

Já o estudante Fernando Silva, de 20 anos, descobriu sua sexualidade no ano passado, em um teste da internet. “Antes disso não sabia bem o que eu era, tinha pessoas que eu achava bonitas, mas que não me despertavam nada. Ficava triste, achava que tinha algum problema sexual. Se eu não tiver um laço afetivo com a pessoa simplesmente não sinto atração”, relembra. Descobrir a demissexualidade foi um alívio: ‘as pessoas têm uma resistência a palavras e definições novas. mas eu particularmente gostei de ver algo assim e me identificar, saber o que sou, e que isso é normal. Me senti menos sozinho”, conta.

Preconceito

Bandeira da demissexualidade

Se sentir contemplado por uma definição e não se sentir mais sozinho é um grande alívio, porém sexualidades que fogem do tradicional podem estar cercadas de preconceitos, tabus, e concepções erradas. No caso da demissexualidade não é diferente. Apesar de ser um termo ainda pouco conhecido, é comum que se propaguem ideias sobre o assunto que não condizem com a realidade de quem se identifica como demi. Um exemplo disso é como a demissexualidade é frequentemente associada ao celibato, à escolha de não fazer sexo, ou esperar para transar pela primeira vez com o parceiro após o casamento.

“Muitos acham que ser demissexual é escolher só transar com quem a gente gosta, mas não é assim. Só conseguimos sentir atração por alguém com quem já temos um vínculo emocional. Não estamos negando um desejo, não é uma escolha”, explica Silva. Diferente de pessoas que por qualquer motivo preferem não transar sem ter um relacionamento mais profundo, mesmo que se sintam atraídas, para os demissexuais a atração depende da conexão emocional, e vem depois desta. É importante notar também que esta conexão pode se desenvolver ao longo de anos, meses, ou mesmo dias, não possui uma intensidade definida, e não significa que demissexuais tenham necessariamente uma vida sexual e amorosa pouco ativas.

Isaac lembra também que a demissexualidade não deve ser associada a disfunções sexuais ou traumas. “Muita gente acha que pessoas que não são hetero sofreram algum tipo de abuso ou violência. No meu caso eu realmente sofri um abuso sexual, e não escondo isso, mas não é isso que define minha sexualidade. Ela faz parte de mim, é algo que tenho desde sempre, não tem necessariamente a ver com nada que aconteceu comigo”, explica. A crença de que sexualidades não normativas são fruto de distúrbios psicológicos é um estigma que não só não se prova verdadeiro, como contribui para diversos tipos de opressão.

“Algumas pessoas não gostam de se colocar em uma caixinha, e tudo bem, mas o termo está aí para quem se identifica e não quer se sentir sozinho”, diz Fernando Silva.

A estudante Luara Maciel, de 22 anos, também sofre com a incompreensão: “Eu vejo como falta de informação, porque as pessoas tendem a não sair da caixa. Então algo que foge um pouco do que elas estão acostumadas a ver é difícil de entender. Fazem essa relação com o celibato, por exemplo, e então eu me posiciono e explico”. Essa falta de informação atinge também profissionais das áreas de psicologia e sexologia, que ainda não sabem lidar com a demissexualidade. Nenhum dos profissionais soteropolitanos procurados para esta reportagem concordou em falar sobre o assunto e todos afirmaram falta de conhecimento sobre o tema.

Relacionamentos

Justamente por causa de julgamentos errados e incompreensão do que é a demissexualidade, se relacionar romanticamente com outras pessoas pode ser difícil quando se é demi. A escolha de se falar ou não sobre a sexualidade ao conhecer pessoas novas é algo muito pessoal, e muitas pessoas preferem não revelar sua sexualidade no início: “Não sou de falar ‘sou demissexual’ logo de cara, mas sempre explico para as pessoas que preciso me envolver emocionalmente antes de qualquer coisa”, explica Silva. Ele esteve recentemente em uma relação com um homem que foi compreensivo, e a paciência foi fundamental para se construir um vínculo.

Para Luara, se comunicar e explicar como melhor sobre como a demissexualidade funciona é importante. “A partir do momento que eu entendi o que era e que não tinha nada de errado comigo, passei a mostrar isso para quem estava comigo. Tive problemas em um relacionamento porque a pessoa não entendia e achava que eu não tinha interesse sexual nela ou que eu estava transando por obrigação”, conta.

Mesmo fora dos relacionamentos românticos, falar sobre sexualidade tem consequências nas relações interpessoais. “Falei com minha mãe que ia dar uma entrevista sobre ser demi e ela disse ‘Ah, agora todo mundo tem que ter um rótulo diferente’. Mas querendo ou não o ser humano é feito de rótulos, desde o que a gente veste ao que a gente é, e eu me identificar como demi e entender as coisas que eu passo e as outras pessoas não é importante”, reflete Giovanni. “Fico feliz de ter tido amigos que me apresentaram a diferentes ‘rótulos’, e saber o que existe além do LGBT”, conta.

Já Silva reflete sobre o fato de sempre escutar que não existe necessidade de se criar uma palavra para designar o que é a demissexualidade: “Algumas pessoas não gostam de se colocar em uma caixinha, e tudo bem, mas o termo está aí para quem se identifica e não quer se sentir sozinho”. Já Luara acredita em trazer visibilidade para a sexualidade como um caminho para a aceitação social: “Minha família volta e meia pede para eu ficar quieta com minhas bandeiras. Mas acho que as pessoas precisam conhecer e saber que isso existe, tanto quem é demi quanto quem não é, para que todo mundo respeite a diversidade”.