Youtubers saem da internet e lotam teatros em suas apresentações

Youtubers saem da internet e lotam teatros em suas apresentações

Fãs lotam teatros para assistir espetáculos de youtubers, enquanto apresentações tradicionais sofrem com falta de público (Foto: Apresentação de Whindersson Nunes em Salvador no dia 21 de junho. Reprodução/Facebook)

Paloma Rigaud e Marina Alves

“Minha Vida Não Faz Sentido”, peça teatral apresentada por Felipe Neto. (Foto: Reprodução/Facebook)

Os youtubers vem ganhando espaço na mídia desde o “boom” da profissão em 2010. Dos vídeos próprios e improvisados difundidos na rede social, aos poucos, eles passaram a invadir os programas de televisão, o cinema e os teatros brasileiros. A legião de fãs que cada um destes jovens carrega vem enchendo os olhos e os cofres dos teatros, que sofrem para conseguir o mesmo público em um espetáculo tradicional. No mês de junho, por exemplo, Whindersson Nunes, com 20 milhões de inscritos e apenas 22 anos, trouxe seu espetáculo “Proparoxítona”, que está em turnê pelos teatros do país, para a Concha Acústica do Teatro Castro Alves e esgotou os ingressos.

Após o sucesso das apresentações de stand-up comedy, agora começa um novo movimento, que tem o mesmo formato, mas com protagonistas diferentes. Durante muito tempo, nos acostumamos com atores saindo dos palcos para entrarem nas telas. Agora, os youtubers estão fazendo o caminho inverso e tomando conta dos palcos. Eles saem da sua plataforma de origem e já começam a se apresentar, inclusive em propagandas e passam a ter o reconhecimento enquanto autores de suas biografias. Assim, a demanda dos fãs de ver os ídolos de perto surgiu, e já não é mais suficiente acompanhá-los apenas através da tela do computador. Youtubers, como Felipe Neto, Christian Figueiredo, Bianca Andrade, Pedro Rezende e Kéfera Buchmann, passaram a encontrar nos palcos além de uma forma de “extensão” dos seus vídeos, mais um lugar para se apresentar para seus fãs.

Para Maytta Martinelli, 23, que foi para o espetáculo de Whindersson este ano pela primeira vez, o que ela mais gostou foi o contato. “Você estar perto, interagir com o artista. Ele conversa com a plateia, pergunta o seu nome, fala diretamente com as pessoas, e acho que isso é o que difere mais dos vídeos”, aponta. Esta foi a segunda passagem de Whindersson por terras baianas em pouco mais de seis meses. Em novembro, o youtuber também apresentou um espetáculo aqui, com todos os ingressos vendidos.

De acordo com o youtuber e editor dos vídeos do canal GamePlayRJ, Caio Messias, esse é um dos principais motivos para o surgimento das apresentações. “Por que você acha que os livros e os filmes sobre youtubers não fizeram sucesso? Os fãs precisavam desse contato real”, explica o soteropolitano que conta com mais de 70 mil inscritos em seu canal.

Espaço ou Interesse, o que realmente falta?

Com ingressos esgotados e sessões extras tendo que ser marcadas, não restam dúvidas que essas produções foram uma saída bem pensada para a atual crise econômica. De acordo com Alex Monteiro, sócio da empresa Non-Stop, contratada por diversos influenciadores digitais, o projeto surgiu de uma tentativa de tornar real o que surge no digital.

Ele também afirma que não há conflito entre a classe artística e as personalidades da internet, que agora dividem os holofotes. “Não recebemos crítica, afinal, também são artistas expondo suas artes. A maioria deles cria texto, atua, grava e edita em seu canal”, comenta. De acordo com um dos seus associados, Whindersson Nunes, eles são artistas como quaisquer outros. “Existe espaço para todos”, declarou.

Há quem não concorde com essa afirmação, acreditando fortemente que essas apresentações tomam o lugar do teatro local, mesmo que indiretamente. De fato, muitas apresentações acabam por falta de público, enquanto pessoas que não têm tanto tempo de palco lotam teatros.

Para o youtuber Caio Messias, por acontecerem no teatro, muitas vezes esses espetáculos acabam “roubando” o espaço das peças locais. “Se acontecessem em uma casa de festas, por exemplo, não estaria tirando o lugar de uma matinê, pois arrecada da mesma forma. Mas a partir do momento que se coloca essas apresentações no teatro, elas passam a ser mais lucrativas e acabam se tornando mais vantajosas do que as apresentações locais”, defende.

O diretor da Outra Companhia de Teatro, Luiz Antônio Jr., nega que há uma tomada de espaço. “Eu não posso dizer isso, porque, por exemplo, eles não tomam o meu espaço. Acho que tem espaço para tudo. Para todo tipo de teatro. Até porque se eu for pensar assim, os youtubers vão ocupar os teatros maiores, por exemplo, não é algo que se reflete no meu trabalho, porque eu não vou para esses lugares maiores, é um outro tipo de pesquisa”, argumenta. Por outro lado, ele acredita que existe um interesse comercial. “Eles querem estar ali pelo dinheiro e não necessariamente pelo viés artístico ou cultural. É dinheiro, a gente sabe disso”.

Já para a estudante Luiza Guerra, 21, que acompanha vídeos de diversos influenciadores no Youtube, não é exatamente assim. “É óbvio que o que eles mais visam é o lucro. Eles fazem essa tour porque sabem que tem quem queira ver. E não há nenhum problema com isso porque esse é o sistema econômico vigente no nosso país”, afirma. E reconhece, “eu acho que Salvador é um grande centro cultural sem reconhecimento. Não damos valor à cultura daqui, e isso não é culpa de um vlogger que consegue vender o seu produto, é culpa da educação, da falta de incentivo aos atores iniciantes e às peças independentes”.

A produtora soteropolitana, que faz parte do projeto Salvador em Cena, – que busca trazer espetáculos nacionais para a capital baiana, com o intuito de diversificar a cultura e criar, para o público, a oportunidade de assistir essas apresentações – Marlucia Sie, acredita que os youtubers trabalharam muito para chegar onde estão. “Por trás deles existe uma grande estrutura empresarial, que pensa como fazer, onde fazer, no cenário etc. Quanto aos textos deles nas apresentações, interessam aos jovens que os assistem. São bobos? Para mim, sim! Mas para a minha filha, não”, reflete. Porém, por mais que a produtora reconheça o trabalho dos jovens apresentadores, ela conclui: “É uma grande apresentação, onde eles falam fatos cotidianos que os jovens adoram. Mas não é teatro”.

Há quem diga que esses influenciadores podem ajudar a formar um novo público para o teatro. “A cultura do jovens de ir ao teatro já vem sendo transformada, mesmo antes dos youtubers. O Salvador em Cena trouxe para a cidade o espetáculo Zero de Conduta, por exemplo, e ele teve duas sessões extras. Os jovens vão ao teatro se o tema os interessa. Não é tão difícil assim transformar essa realidade, basta dialogar com os adolescentes”, explica Marlucia.


 

Os fãs e o teatro

Quem sempre acompanhou tudo pela internet, teve uma experiência diferente ao ver os youtubers de perto. Para os fãs, as apresentações teatrais surgiram não só como uma forma de contato, mas também como uma maneira de conhecer melhor esse espaço, já que muitos deles não costumavam frequentá-lo.

Para Marina Gulias, 30 anos, fã de Whindersson, ver o astro de perto foi uma forma do teatro chamar sua atenção. Ela assistiu a sua última apresentação no TCA com duas primas, uma de 9 anos e outra de 14, e uma tia. “Chama a atenção sim. A pessoa vai uma vez e pode até se interessar por outros tipos de apresentação”, explica.

Antonio Edson, 14 anos – fã de Pedro Rezende, dono do canal Rezendeevil, e de Marco Túlio, do Authentic Games -, que não costumava frequentar teatros, diz que foi a apresentação dos youtubers sobre jogos que criou essa vontade. “Do Rezende foi por causa dos games, porque eu sempre gostei de coisas assim. É uma sensação bem ‘daora’ estar perto de alguém famoso”, revela orgulhoso.

Já sobre as críticas acerca das apresentações, Manuela Nascimento, 21, que acompanha o canal de maquiagem e as apresentações da Bianca Andrade, a Boca Rosa, afirma que as apresentações não buscam apenas dinheiro, mas passar uma mensagem. “As pessoas falam como se fosse só isso, mas não é. Eu acompanho ela desde que ela não era ninguém e essa peça sempre foi um sonho dela. Se fosse só pelo dinheiro ela teria escrito livro como os outros. Vai muito além. É linda a mensagem que ela passa”, conta.

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