Abandono de casarão afeta funcionamento do Cine Teatro Solar Boa Vista

Situação do espaço que já foi a casa de Castro Alves altera paisagem do parque e teatro sofre com a diminuição de público

Paloma Morais e Tayane Rodrigues

Parte exterior do Cine Solar Boa Vista no Parque Solar Boa Vista ajuda a afastar visitantes pela aparência de abandono (Foto: Labfoto – Daniel Figliuolo)

O Cine Teatro Solar Boa Vista, localizado no Parque Solar Boa Vista em Engenho Velho de Brotas, que já foi palco de grandes artistas da cena musical e teatral brasileira, vem sofrendo com a perda de público após um incêndio em 2013 destruir parte de um casarão que faz parte do parque. A situação de abandono atrai usuários de drogas, pessoas em situação de rua, animais nocivos à saúde e, ao mesmo tempo, afasta visitantes e espetáculos de grande porte que costumavam fazer parte da programação do espaço.

Cássia Eller, Nana Caymmi, Djavan, Luiz Caldas e Ivete Sangalo são alguns dos artistas que já se apresentaram no Solar. Em sua estrutura, o teatro conta com um palco principal em formato misto (italiano e semi arena), a Sala Silvio Robatto, com capacidade para 300 pessoas, além de um mini palco no Foyer para performances e pequenas apresentações, duas salas para ensaios e oficinas e sala multimeios para aulas e pesquisas sobre arte e cultura.

Momento em que o casarão foi atingido por incêndio. (Fonte: Correio)

Porém, as grandes apresentações e o espaço lotado de espectadores ficaram só na lembrança de funcionários e moradores da comunidade. Desde janeiro de 2013, o lugar não foi mais o mesmo. O casarão que já foi a residência do poeta Castro Alves abrigava a Secretaria Municipal de Educação (Smed) e a capela São João de Deus foi atingido por um incêndio. Conforme laudo pericial realizado pelo Departamento de Polícia Técnica (DPT), divulgado em março do mesmo ano, as chamas tiveram início por conta de um curto-circuito no ar condicionado. O prédio teve cerca de 30% da área destruída. Janelas e portas foram danificadas, vidros estilhaçados e o assoalho do piso superior e da estrutura que suportava o telhado desabaram. Ainda segundo o laudo, o prédio não atendia as normas de segurança. Ele não possuía sistema de detecção de fumaça, alarme de incêndio e de evacuação. O prédio não tinha também o sistema de extinção e de água pressurizada, que poderia ter ajudado a prevenir a difusão das chamas.

“Esse abandono tem influenciado para que os produtores e artistas procurem menos o nosso espaço, e por mais que ele pareça abandonado, ele não está abandonado por nós aqui da coordenação”, diz o coordenador do espaço Paulo Vinícius.


Inauguração do Cine Teatro Solar Boa Vista em 1984 (Foto: Arquivo)

Histórico – O ex-coordenador do espaço cultural, Chico Assis, conta, em um memorial do bairro de Engenho Velho, que a região era um engenho de cana-de-açúcar do século 19. O casarão amarelo, localizado no Parque Solar Boa Vista, que teve sua estrutura interna destruída em um incêndio em 2013, era a sede desse engenho, onde morava o senhor Machado da Boa Vista com a sua família. Depois de anos, em 1858, o casarão foi obtido pelos pais de um dos mais renomados poetas brasileiros, Castro Alves, que viveu parte de sua infância no local. As lembranças que o poeta tinha de sua infância foram fontes de inspiração para muitos de seus poemas, como “A Boa Vista”, escrito em 1867. Após o falecimento de Castro Alves, em 1871, sua família vendeu a fazenda. Em 1874 o parque passou para o Estado, que instalou inicialmente o Asylo São João de Deus, que depois tornou-se o Hospital Juliano Moreira, em 1925. Entre os anos 1983 e 1985, o parque abrigou a sede provisória da Prefeitura de Salvador, e surgiu, nessa mesma época, a ideia de criar o Cine Teatro Solar Boa Vista para movimentar o entorno da região. O teatro foi inaugurado em 1984 e a fazenda nomeada como Parque Solar Boa vista, a partir deste mesmo ano.


Quatro anos depois, o imóvel, que é patrimônio do Estado, mas estava cedido à Prefeitura quando aconteceu o incêndio, não passou por nenhum tipo de reforma. O casarão, que fica na entrada do parque, sempre foi uma referência para o teatro. Segundo a ex-funcionária do Solar Boa Vista, Maria da Paz, de 60 anos, que atua hoje como assistente de coordenação na Secult, a falta de movimento de pessoas que frequentavam e trabalhavam na secretaria provocou desocupação da região. “O parque ficou mais deserto. O público sempre teve receio de vir ao Solar, mas depois do incêndio ficou pior. Com a prefeitura tinha movimento de carro, gente estacionando os carros no parque, entrando e saindo”, pontuou.

De acordo com o coordenador do Cine Teatro Solar Boa Vista, Paulo Vinícius, o abandono do casarão afetou de forma significativa a frequência de público no espaço cultural. “Nós estamos na parte mais recuada, praticamente na parte de trás do parque [depois do casarão] e as pessoas acabam achando que não tem nada aqui no Solar e isso prejudica as nossas ações porque a própria comunidade não frequenta o parque e por consequência deixam de frequentar as atividades no teatro”, afirmou.

Ele ainda diz que a falta de manutenção do imóvel influencia também na procura de produtores e artistas no Solar Boa Vista. “Esse abandono tem influenciado para que os produtores e artistas procurem menos o nosso espaço, e por mais que ele pareça abandonado, ele não está abandonado por nós aqui da coordenação, pois nós temos buscado fazer parcerias com proponentes, parceiros da comunidade, sempre dando apoio no que a gente pode”, disse.

Sérgio Laurentino, integrante do Bando de Teatro Olodum e produtor cultural, que é um dos proponentes que está com a peça “E se Deus fosse preto” em cartaz no Cine Teatro Solar Boa Vista, diz que o espaço é o único que fomenta a cultura em Brotas. Porém, para ele, apesar da boa impressão com o equipamento e dele ser um dos melhores de Salvador, o entorno do teatro causa retraimento do público. “É a calamidade da nossa governança, que prepara um equipamento tão bom num centro da cidade e esquece do seu entorno e da mobilidade”, criticou.

Impasse na reforma do casarão

Casarão no Parque Solar Boa Vista incendiado em 2013 permanece fechado (Foto: Daniel Figliuogo)

Um imbróglio entre Governo e Prefeitura impede que a reforma do casarão finalmente comece e o espaço recupere sua boa imagem, segundo Vinícius, o coordenador do teatro. “É um parque que a gente percebe que não tem sido visto principalmente pela Prefeitura, que deveria cuidar dos parques da cidade. Mas legalmente temos tentado buscar documentos que comprovem a concessão do estado para prefeitura e também a devolução”.

Por sua vez o assessor de comunicação, Marcelo Brandão, da Secretaria da Administração do Estado, afirma que o casarão foi entregue em boas condições para a Prefeitura, e que a reforma deveria ser realizada pelo órgão após o incêndio. “Tínhamos um termo de cessão para a Prefeitura há mais de 10 anos na época, então a gente entendia que a responsabilidade era da Prefeitura”, alegou.

Segundo Brandão, após anos de impasse, o Governo decidiu recentemente transformar o casarão em uma unidade de Saúde. A Secretaria de Saúde do Estado da Bahia (Sesab) realizará as devidas reformas. De acordo com o assessor de comunicação da Sesab, Pablo Barbosa, a edificação abrigará o Distrito Sanitário de Brotas, que deverá sofrer intervenções estruturais para abrigar o Centro de Tratamento de Feridas de referência para pacientes egressos de unidades hospitalares da rede estadual, objetivando a redução do tempo de permanência em leitos de hospitais de maior complexidade.

O Solar das memórias

A ex-funcionária do teatro, Maria da Paz, começou a trabalhar no espaço cultural em 1992 e lembra com carinho do espetáculo “Cuida Bem de mim”, peça que atingiu recorde de público no Solar e tinha em seu elenco Lázaro Ramos e Wagner Moura. Maria José, de 68 anos, moradora do Engenho Velho há 37 anos, tem um ponto comercial próximo à entrada do parque há 15 anos, e fala como o local era frequentado até os anos 2000. “Criei meus dois filhos brincando no parque. Era muito bonito, com fontes luminosas, piscinas, mas depois da invasão virou isso aí. Festa da escola era no teatro”, lembrou.

Já Carlos Antônio Fernandes da Silva, de 39 anos, segurança e morador do Engenho Velho há 6 anos, diz que nunca frequenta o teatro por falta de boas atrações. “Não tem atração que me motiva a ir lá”, afirmou. Antônio Fernandes, que morava no bairro na época que teve o incêndio do casarão amarelo disse que o abandono do imóvel traz insegurança para a população e desmotiva as pessoas a frequentarem o bairro. “Olha aí, o abandono. Quando a Secretaria de Educação funcionava tinha mais movimento, manutenção. Hoje tá assim, as árvores chamando atenção. Botou um tapume e nada foi feito. Quantas pessoas já levaram tiro e facada aí?”, concluiu.

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