Mercado de animação cresce e gera oportunidades para realizadores baianos

Mercado de animação cresce e gera oportunidades para realizadores baianos

Saulo Miguez e Tiago Almeida

De 2001 até 2017 foram produzidos 29 longas-metragens do gênero no país. Entre os anos de 1953 e  1990, o Brasil só havia produzido 13 filmes do tipo

O mercado de animação no Brasil vem crescendo ao longo dos anos. Esse gênero do audiovisual tem gerado oportunidades para profissionais de diversas áreas, como designers, produtores de vídeo, roteiristas e diretores de arte. De acordo com levantamento do animador Marcelo Marão, membro da Associação Brasileira de Cinema de Animação (ABCA), de 2001 até 2017 foram produzidos 29 longas-metragens do gênero no país. Para se ter uma ideia, de 1953 – quando foi produzido o primeiro longa-metragem de animação brasileiro “Sinfonia Amazônica”, até o final dos anos 1990, o Brasil só havia produzido 13 filmes do tipo.

Sessão do AnimArt (Foto: Divulgação)

Esse crescimento reflete no mercado baiano. A cidade de Salvador, por exemplo, sediou em 2016, dois importantes festivais do gênero. Em setembro, as sessões do AnimArt lotaram a sala Walter da Silveira. Enquanto em maio, o Anima Mundi exibiu na Caixa Cultural mais de 30 produções nacionais e internacionais.

Segundo o Sebrae, a tendência de crescimento desses números é influenciada pela facilidade de acesso a equipamentos e tecnologia para a produção, o que diminui os custos. Programas de fomento ao setor audiovisual e o Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), além do aumento da demanda de distribuidoras e canais de televisão por conteúdo nacional também contribuíram para esse boom.

Animador ainda é pouco valorizado
Apesar dos avanços, o profissional de animação na Bahia ainda é pouco valorizado. Segundo o ilustrador George Lopes, 32, a falta de mão de obra especializada e a baixa remuneração são problemas para a atividade. “É uma área que paga pouco e é muito complicado o cara botar um projeto próprio pra frente sem conseguir subsídios e lucrar com isso”, afirma George.

Ilustrador George Lopes (Foto: Saulo Miguez)

Isso, no entanto, não é motivo para pessimismo. Lopes, que trabalha em uma emissora de TV, reitera que os governos estadual e federal vem investindo m incentivos na área de animação com a lei do audiovisual e editais promovidos pela Ancine e o Faz Cultura.

Em maio, o governo do estado lançou um edital no valor de R$ 20 milhões para fomento do setor audiovisual baiano. O montante foi captado junto à Ancine e será destinado para produção de conteúdos audiovisuais inéditos sobre a Bahia que serão exibidos na TVE. No mesmo dia do lançamento, a TVE Bahia anunciou a exibição de 250 horas de conteúdo audiovisual brasileiro independente e inédito na Bahia, que incluem 19 séries de animação.

Capacitação
Para entrar no tão sonhado mercado de trabalho é preciso se capacitar. Hoje existem diversos cursos presenciais e online que possibilitam o ensino de técnica de design e animação, além da infinidade de tutoriais na internet que podem auxiliar quem precisa tirar alguma dúvida sobre o processo criativo.

Um diploma de graduação, no entanto, ainda faz a diferença. “É importante o curso superior porque ele te dá uma formação que é reconhecida no mercado. Para mim foi importante, porque uma porta se abriu e eu consegui meu emprego fixo”, conta Lopes.

Quem busca uma formação que o habilite a trabalhar com animação vai encontrar no curso de Design Gráfico o caminho para isso. A formação é oferecida pela UFBA, dentro da Escola de Belas Artes, e tem duração mínima de 4 e máxima de 8 anos. Na  Unifacs, ela pode ser feita em 3 anos e pela faculdade DeVry/Rui Barbosa tem duração de 2.

“Nessa área sempre surgem coisas novas, é preciso se atualizar”, diz estudante Adelmo Queirós

O estudante de design da Escola de Belas Artes, Adelmo Queirós, 24, deve concluir o curso ainda este ano, mas já trabalha como videografista em uma importante rede de televisão. “Eu sempre gostei de jogos e animação, mas o que me fez trabalhar com isso foram as oportunidades que surgiram para mim”.

Estudante de design Adelmo Queirós (Foto: Saulo Miguez)

Queirós cursou uma disciplina voltada para animação e logo se identificou com a técnica, o que o fez decidir trabalhar na área. Em seguida, conseguiu um estágio na emissora e pouco tempo depois foi contratado de forma efetiva. Hoje, realiza animações gráficas dentro do núcleo de chamadas televisivas.

O jovem reconhece que quando comparada com as cidades do Rio de Janeiro e São Paulo, Salvador ainda oferece um número limitado de oportunidades. Mas, para aqueles profissionais mais dedicados sempre surgem trabalhos. “Uma dica que eu dou é ter força de vontade e nunca parar de estudar, porque nessa área sempre surgem coisas novas, é preciso se atualizar o tempo todo para não se tornar um profissional obsoleto”, completou.

Cursos técnicos
Quem busca um caminho mais rápido para a formação profissional encontra nos cursos técnicos uma alternativa. Em Salvador, as escolas Saga e Gracom buscam atender essa demanda. De acordo com Neilson Rodrigues, coordenador pedagógico da Gracom, a escola, costuma formar 200 alunos por ano.

Ele faz questão de ressaltar a diferença entre um curso intensivo e um superior. “A gente vê que aqui em Salvador tem essa deficiência. Se você procurar uma faculdade vai achar o curso de Design, mas lá é teoria, aqui é pratica”, destaca.

A duração de um curso técnico leva de dois a dois anos e meio e o aluno pode aprender todo processo criativo de animação desde técnicas de desenho em 2D e 3D até a criação de efeitos especiais para narrativas audiovisuais. Outra vantagem é a parceria que essas escolas fazem com algumas empresas de games e design que costumam contratar alunos em formação.

Empreender para animar
Para realizar o sonho de ver seu trabalho ganhar vida, a animadora Jamile Coelho, 27, resolveu montar a própria produtora. Em 2011, fundou a Estandarte Produções, empresa especializada na técnica de animação stop motion.

 “A gente vê que a animação pode ser um instrumento de combate ao racismo e intolerância religiosa”, diz  a animadora Jamile Freitas.

Durante graduação no Bacharelado Interdisciplinar de Artes com concentração em Cinema e Audiovisual, Jamile participou de diversas oficinas e cursos livres de animação o que a fez se apaixonar pelo gênero.

Ela relembra que desde criança já admirava a técnica de stop motion. “Quando assisti ‘A Fuga das Galinhas’ decidi o que queria fazer da minha vida quando crescesse. Foi uma janela que se abriu como uma possibilidade de profissão”, afirmou.

Atualmente, se dedica também a trabalhos sociais e realiza oficinas de animação em terreiros de candomblé e comunidades negras. “A gente vê que a animação pode ser um instrumento de combate ao racismo e intolerância religiosa”, disse.

A aproximação com os terreiros se deu quando há dois anos Jamile lançou o curta-metragem “Òrun Àyé: A criação do mundo”. O filme conta em stop motion a história da criação da natureza e da humanidade através da mitologia africana.“Òrun Àyé é um sonho. A gente já sabia que seria uma potência pelo fato de falarmos sobre racismo e intolerância religiosa com tanta ludicidade”.

O filme contou com a participação de artistas importantes da Bahia como João Miguel e Carlinhos Brown. Ele estreou em Recife, em 2015, e já foi exibido em 20 estados brasileiros. A produção ganhou projeções também fora do país e já foi vista em outras dez nações.

A primeira animação
Em 2017, é comemorado o centenário da animação no Brasil. De acordo com a Associação Brasileira do Cinema de Animação (ABCA), em 22 de janeiro de 1917 foi lançado o curta “O Kaiser”, de Álvaro Marins, o primeiro filme do gênero no país.

O filme tem como protagonista o Imperador Guilherme II. Para mostrar seu poder sobre o mundo, o personagem tira o seu capacete e o coloca sobre o globo terrestre, mas este cresce, se revolta e termina por engolir o líder alemão.

A obra não foi preservada, como muitos outros filmes antigos. Em 2013, foi produzido o documentário “Luz Anima Ação”, do diretor Eduardo Calvet, buscou contar a história desta animação.

A partir de um fotograma que não se perdeu, Calvet convidou oito animadores brasileiros para recriar o curta. O resultado, que pode ser visto a seguir, mistura diferentes técnicas de animação e é uma homenagem a Marins e ao cinema brasileiro.

https://www.youtube.com/watch?v=pD5yZd4KhxU

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