Política nas escolas?

Política nas escolas?

Professores e alunos discutem os projetos Escola Livre e Escola Sem Partido

Cris Almeida e Gabriela Medrado

Antagonicamente, duas proposições foram as responsáveis por causar o primeiro conflito político na Câmara Municipal de Salvador em 2017. Trata-se dos projetos de Lei (PL) “Escola Livre” (EL) e “Escola sem Partido” (ESP), liderados por partidos que, historicamente, caminham em lados opostos: Partido dos Trabalhadores (PT) e Democratas (DEM). Seja livre ou sem partido, os principais afetados pela PL – alunos, professores e demais funcionários – veem na discussão dos projetos a oportunidade de opinar sobre temas pouco tratados dentro das salas de aulas.

Protocolado pelo vereador Alexandre Aleluia (DEM), o ‘Escola Sem Partido’ defende que o espaço das salas de aula não deve ser utilizado para o que ele classifica como “doutrinação ideológica”. Do outro lado, está a vereadora Marta Rodrigues (PT), autora do “Escola Livre”, que defende a “pluralidade” e “liberdade” de pensamento em todas as escolas da capital baiana e é um claro contraponto à ideia inicial.

Ilustração: Cris Almeida

É o que pensa também o professor de história da rede particular e municipal, Paulo Ricardo Ribeiro Sant’Anna, que defende o debate sobre política como forma de evitar erros nas escolhas futuras. “Quanto mais discutimos política mais nos aperfeiçoamos e evitamos cometer certos erros que são tão pertinentes ao povo brasileiro”.

Apesar de apoiar, Sant’Anna aponta falhas no projeto Escola Livre também. “Não podemos fechar os olhos ao cabresto que alguns professores põem em seus alunos. Guiando-os à militância. Isso não é educar, não é garantir saber político. Um verdadeiro professor é aquele que dá subsídios, gera habilidades para que seus pupilos sigam adiante por sua própria conta, sem reproduzir vontades alheias, mas sim criar sua própria interpretação política”.  

Questionado sobre como costuma abordar política em suas aulas, deixando espaço para que os alunos tenham suas próprias opiniões, o educador informou que “como professor de história, sempre busca exemplos do passado”. “Explico problemas corriqueiros que sofremos nos dias atuais buscando políticos de ambos os lados ideológicos para não haver proteção. Mostro como a direita e a esquerda agiram no passado em situações similares e deixo que eles identifiquem a melhor forma de resolver o problema”, concluiu.

 “Não podemos fechar os olhos ao cabresto que alguns professores põem em seus alunos, guiando-os à militância. Isso não é educar” Paulo Ricardo Sant’Anna, professor de história

Daniel Garrido, aluno do terceiro ano do ensino médio no Colégio Sacramentinas, em Salvador, acredita que falar de política durante as aulas é importante, mas é preciso muita cautela. “O ideal é que os professores falem, mas que nos ouçam também. Porque às vezes eles só querem induzir nosso pensamento para que estejamos alinhados com os deles, mas não deve ser assim. Tem muita gente que não sabe o que pensar e acaba indo na onda”, destaca.

A estudante Duda Moura, de 17 anos, concorda com o colega de sala. “É inegável o poder que um professor tem dentro da sala, então a aprovação do projeto acaba sendo uma responsabilidade que muitos não tem. Apesar disso, acho que temos que falar de política em sala, sim. Falamos muito pouco e agora é um momento decisivo no cenário”.

Apesar da oposição de ideologias, os projetos têm o mesmo nível de abrangência: valem para todas as escolas públicas municipais e particulares de Salvador. O que leva a discussão para outro nível. Alguns parlamentares classificaram o Escola Sem Partido como “lei da mordaça” e teme que o projeto cause censura e prejudique a formação de alunos críticos, sobretudo os de instituições públicas, com ensino já defasado.

A professora de gramática Aimara Fernandes, responsável por nove turmas, discorda e rebate. “O risco de persuasão é imensurável. Já vi colegas meus levantando bandeira e com discurso apaixonado sobre um determinado partido, imagina isso em sala de aula. À depender da série pode causar sérios danos. Não me sinto segura o suficiente para falar de política com meus alunos”, desabafou. Ainda segundo a educadora, o projeto “Escola Livre” pode banalizar o tema, já que “passa a ideia de que todo mundo é apto para falar de política”.

Recém chegada ao ensino médio, Paola Freitas, de 15 anos, é a favor da Escola Sem Partido”. “Meus professores falam bastante de política nacional, mas quase nada local. Prefiro que não falem nada porque, a menos que você seja militante aos 15 anos e já siga algum dos dois lados — direita ou esquerda –, é muito fácil ‘fazer sua cabeça’”. A estudante do Colégio Municipal Eduardo Campos, em Cajazeiras VI, periferia de Salvador, acredita que os colegas são “um terreno fértil para manipulação”.

“Política faz parte da vida, do mundo real, principalmente nas democracias. Como é possível cogitar a interdição desse tópico na escola?” Raquel Nery, professora e doutora em Educação pela UFBA

A professora e doutora em Educação pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), Raquel Nery, classifica o Escola Sem Partido como um movimento conservador, de direita e não progressista. “O projeto surge como reação a uma série de demandas da sociedade que requerem que certos aspectos pautados pelos Direitos Humanos fossem contemplados pelo currículo da Educação Básica. Não existiria ESP se não tivesse havido um governo com políticas públicas sensíveis a essas demandas, atendidas de um modo ou de outro nos países desenvolvidos”.                         

Sobre o EL, Raquel explica que “é simplesmente a reação às ameaças representadas pelo ESP”.  “Busca, por princípio, resguardar a liberdade e autonomia do profissional da educação, cuja atuação não deve sofrer nenhum tipo de vigilância ou cerceamento”.

A partir disto, a especialista no campo da formação de professores questiona o “poder” do professor dentro da sala de aula. “Considero descabida e desprovida a ideia de que os jovens estudantes padeçam de algum tipo de vulnerabilidade moral e intelectual. Os professores são de fato “poderosos”, influentes, principalmente os “bons”, mas não podem tudo, né?!”                  

Raquel conclui dizendo que “bom seria se superássemos essa polarização absurda e empobrecedora e dispensássemos o primeiro projeto, provocando, como efeito, a não necessidade do segundo. Política faz parte da vida, do mundo real, principalmente nas democracias. Como é possível cogitar a interdição desse tópico na escola?”. E alerta: “o que é fundamental garantir é a pluralidade de posições, orientações, tendências, guardadas os limites da ética e dos direitos humanos”.

SOBRE

Os projetos ainda tramitam no Paço Municipal e têm sido discutidos e apreciados na Câmara Municipal de Salvador, durante as sessões da Casa. As mesmas proposições correm no âmbito Federal e devem acrescentar, de acordo com suas especificidades, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação.