UFBA economiza R$ 250 mil nas contas de água… mas poderia ser mais

UFBA economiza R$ 250 mil nas contas de água… mas poderia ser mais

Água Pura está em vigor há 13 anos e possibilita uma redução no consumo de água da universidade. Porém, metade das unidades ignoram o programa

Maryanna Nascimento e Priscila Santos

Nunca houve uma manhã em que Rafael Rodrigues esquecesse de visitar o hidrômetro da Escola de Dança da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Lá, o ritual é sempre o mesmo: ele anota qual o consumo de água marcado no aparelho e depois salva a informação em um sistema. O porteiro não vê problema em gastar cinco minutos com a atividade ‘extra’. Isso porque essa rotina colabora para a conservação da água e ainda economiza cerca de R$ 250 mil mensais nas contas da universidade.

O passo a passo que Rodrigues faz diariamente é parte do Água Pura, que está em vigor desde 2004 e foi desenvolvido pela própria universidade. Graças ao programa, é possível acompanhar o consumo diário da água em todas as unidades da UFBA, através de um sistema virtual. Com os gráficos gerados, identifica-se quando há alguma irregularidade nos resultados. De acordo com dados fornecidos pelo programa, a redução de consumo per capita passou de 42 litros para 18 litros por dia, apenas com o uso do sistema aliado a medidas básicas de manutenção.

O motivo da instabilidade no sistema pode ser desde uma festa no final de semana, que gerou um aumento no uso das torneiras, descargas e bebedouro, ou um cano estourado em um local de difícil acesso. No fim das contas, se não houver uma equipe de manutenção predial para fazer a checagem, o procedimento é simples: o servidor da unidade acessa o Sistema Integrado de Patrimônio, Administração e Contratos (Sipac) e faz um chamado para a Superintendência de Meio Ambiente e Infraestrutura (Sumai), que fará a vistoria e resolverá o problema.

Apesar do retorno positivo, Maria do Socorro Gonçalves, uma das desenvolvedoras do programa junto ao Asher Kiperstok, coordenador geral, acredita que o resultado poderia ser ainda melhor se houvesse uma adesão de todas as unidades. “O problema é que nem todas fazem isso. Algumas nunca fizeram, outras começaram mas pararam. As unidades não levam muito a sério”, reclama. A fala de Socorro é reiterada com o levantamento feito no mês de julho pelo programa. De 88 unidades cadastradas, 44 delas não fizeram atualização alguma no sistema. Ou seja, a metade tem ignorado o Água Pura.

Design: Priscila Santos

Unidades desatualizadas

Diante do contexto de recessão econômica, é ainda mais importante evitar que o dinheiro público escorra pelo ralo. Com a ausência de metade das unidades da UFBA no programa, a universidade deixa de economizar e investir nela. Além disso, dentro das participantes ainda existem aquelas que são regulares (15 a 21 medições em 30 dias) ou precárias (3 a 14 medições no mesmo período), o que também deve ser motivo de atenção.

A Faculdade de Comunicação da UFBA faz parte das unidades regulares, correspondente a 23% do total. Segundo Cleison Aquino, chefe de apoio da Facom, a justificativa para a não inserção em alguns dias são os finais de semana e feriados. “Só quem trabalha nesse período é porteiro e segurança. Porteiro é porteiro, segurança é segurança. Não posso exigir isso deles e atribuir tarefas extras porque de pouco em pouco se torna desvio de função”, explica.

Os Pavilhões de Aulas da Federação (PAF) II, IV e V da UFBA, localizados no bairro de Ondina, são alguns dos exemplos das unidades que nos últimos 30 dias não estão participando do programa Água Pura. Segundo Fernando Bandeira, chefe do Pavilhão de Aulas Reitor Felipe Serpa, a atual reorganização das unidades está impactando na cooperação com o projeto. “Estamos em um processo de descentralização dos prédios e a perspectiva é que seja retomada a adesão ao programa”, declarou em entrevista ao ID 126 na segunda quinzena do mês de julho.

A Editora Universitária da UFBA (Edufba) também não está participando do Água Pura. A Edufba comunicou que embora os dados do hidrômetro sejam anotados regularmente em uma planilha impressa, informação apurada e confirmada pelo ID 126, o que não está existindo é a inserção desses dados no sistema por motivos não identificados. Quando informados pela equipe de reportagem que eles também deveriam incluir no sistema, um funcionário da Edufba informou não saber da informação e cobrou o acompanhamento regular por parte da equipe gestora do programa. Procurada para comentar a alegação da Editora, Maria do Socorro Gonçalves não foi encontrada.

Dados do programa Água Pura sobre a participação das unidades da UFBA (Design: Priscila Santos)

‘Unidades ótimas’

Quando uma unidade faz a inserção no sistema por cerca de 30 dias consecutivos, ela entra no ranking do Água Pura como ‘unidade ótima’. Atualmente, apenas 13 de 44 ganharam esse título, o que corresponde a 15% do total. Uma delas é a Escola de Dança, em que o Rodrigues faz parte. O porteiro acredita que o processo é simples, mas é preciso ter boa vontade e pensamento crítico. “O desperdício de água futuramente vai afetar bilhões de pessoas em todo o planeta. Hoje, temos no interior do estado pessoas que não têm nenhum balde de água para a mínima higiene. Temos uma reserva boa, mas ela não é inesgotável”, problematiza.

A Escola de Medicina Veterinária da UFBA também está entre as melhores no ranking do número de medições. João de Deus, auxiliar administrativo, assim que chega na unidade tem como primeira tarefa a atualização dos dados no sistema do Água Pura. Ele reconhece o programa como uma ferramenta importante para auxiliar na contenção de gastos e assim como Rodrigues, chama a atenção para futuros problemas ambientais. “Estamos apresentando dificuldades em relação ao abastecimento de água no planeta e a cada dia a tendência é piorar”, adverte.

A poucos quilômetros de João de Deus e Rodrigues, que trabalham em Ondina, Jailton Menezes e Ramon Araújo também fazem as suas partes – cada um tem a responsabilidade de assumir a atividade em dias intercalados. Menezes chega por volta das 5h50 na Escola Politécnica da UFBA, na Federação, e antes mesmo de entrar no prédio vai até o hidrômetro que fica na parte externa, próximo ao estacionamento. Segundo ele, isso não é considerado um desvio de função, mesmo ele sendo contratado como porteiro. “É rápido e eu não reclamo. É uma atividade simples que ajuda a universidade”, diz.

No caso da Politécnica, o chefe de apoio José Mariano da Silva e o assistente administrativo Hélio Sérgio Oliveira, ambos responsáveis pela manutenção predial, são mais uma etapa da força-tarefa. “O nosso papel é acompanhar o sistema para ver se houve alguma alteração. Se acontecer, rodamos pela unidade e verificamos onde está o problema para que a solução seja tomada”, explica. Quando aparece algo estranho, também é hora de colocar a mão na massa, como chama atenção Silva. “Na maior parte das vezes, quem lança os dados no sistema não está tão preocupado em checar onde está o problema”, opina.

Como a comunidade acadêmica pode ajudar?

A tarefa é simples e toda a comunidade acadêmica, alunos, servidores e professores, também pode se engajar no programa participando do Ecotime – grupo de pessoas responsáveis por etapas do Água Pura. Para que isso aconteça, é preciso solicitar o cadastro no site ou se candidatar a uma das bolsas do programa, no caso de alunos. Para os mais ocupados, fechar a torneira do banheiro ou comunicar ao Sipac em caso de vazamentos também é uma alternativa.

Angélica Prado, 24 anos, estudante de Engenharia Civil da UFBA e bolsista no projeto é uma das responsáveis por monitorar e acompanhar as unidades participantes dando o suporte necessário para solucionar as demandas existentes. Há cerca de um ano participando do projeto, a aluna conta que a experiência é significativa tanto para a sua formação pessoal quanto profissional. “Acho que ao participar do projeto, adquiri uma consciência mais apurada em relação ao cuidado que devemos ter com um bem tão raro como a água. Além disso, no projeto somos incitados a desenvolver a nossa visão crítica buscando sempre aprofundar o nosso conhecimento”, afirmou.

Outro que resolveu abraçar a causa é o Arthur Carvalho, 20 anos, aluno de Bacharelado Interdisciplinar de Ciência e Tecnologia da UFBA que participa do projeto há um ano. A partir da sua experiência com o programa, o estudante criticou a postura de alguns dirigentes de unidades que encaram o Água Pura como algo que vai além das atribuições do cargo e portanto não deve ser priorizado. “Vemos na prática o descaso com a coisa pública e precisamos da boa vontade dos dirigentes das unidades”, declarou o aluno.

Segundo Carvalho, o projeto está em uma fase de mudanças e uma delas é o foco na divulgação e articulação com a Reitoria da UFBA, cobrando de forma mais ativa o comprometimento das Unidades com o programa. “Caso o aluno identifique algum tipo de vazamento ele pode ajudar comunicando a unidade. Se continuarmos com esse descaso, vamos nos aproximar cada vez mais de um abismo, precisamos ter uma maior consciência ambiental”, alertou.

 

“É um processo simples, só requer boa vontade”

Rafael Rodrigues, 58 anos, porteiro

Rafael Rodrigues, porteiro de Dança que participa ativamente do programa Água Pura

Porteiro da Escola de Dança da Ufba desde 1995, em 2004 Rafael Rodrigues foi escolhido para ficar responsável por mais uma função: anotar e lançar no sistema do Água Pura diariamente os dados fornecidos pelo hidrômetro da unidade. Se para alguns isso é desvio de função, para ele é um prazer. “Se eu pudesse eu iria em cada unidade e fazia a leitura, mas não posso.”

Abracei o programa Água Pura da UFBA tendo em vista que a água é um recurso natural e infelizmente haverá guerra daqui a 20, 30 anos. Temos no interior do estado pessoas que não têm nenhum balde de água para a mínima higiene. Parabenizo a Universidade Federal da Bahia pela implementação desse programa. Hoje eu sei mensurar quanto a Escola de Dança gasta por dia: 3,7 a 4 metros cúbicos de água. Lamentavelmente, existe uma brecha que quando os reservatórios de água são lavados, este grande volume de água é jogado fora, cerca de 40 mil litros de água que poderia ser tratado pela Embasa. Sugeri ao programa Água Pura que, em parceria com a Embasa, pensasse em um mecanismo para que essa água não seja desperdiçada para suprir a necessidade das pessoas que precisam. Eu sou da seguinte opinião, desperdício zero. As descargas, por exemplo, poderiam ser dadas com a água da chuva. Esse programa Água Pura é uma iniciativa muito importante, que eu abracei e é uma honra pra mim participar desse programa. Deve ter uns 15 anos isso de lá pra cá, nenhum dia eu deixei de lançar as leituras do hidrômetro da Escola de Dança. É um processo simples, só requer boa vontade, interesse e pensar no país, no estado. Afinal, o desperdício de água futuramente vai afetar bilhões de pessoas em todo o planeta. Temos uma reserva muito boa, mas ela não é inesgotável. Aconselho aos diretores e gestores que enfatizem a participação dos seus colaboradores no programa, é um processo muito simples e vai beneficiar toda uma população, contribuindo para evitar o desperdício. É um programa de excelência. Se eu pudesse eu iria em cada unidade e fazia a leitura, mas não posso.