Grandes e invisíveis: relatos sobre fetichização no corpo da mulher gorda

Grandes e invisíveis: relatos sobre fetichização no corpo da mulher gorda

Mulheres gordas buscam as redes sociais para desabafar contra o fato de serem vistas apenas como objetos sexuais

Júnior Moreira e Thiago Conceição

Geane Pereira, 33 anos, já terminou relacionamento porque o rapaz exigia que ela emagrecesse (Foto: Júnior Moreira)

“‘Minha delícia, adoro mulheres como você’. Quando o homem chega assim, já sei que só está me vendo como um pedaço de carne”. Esta fala é da cabeleireira soteropolitana Geane Pereira, 33 anos, mas poderia ser de diversas gordas que, com o tempo, aprenderam a lidar com a fetichização das suas curvas. Ao retroceder na história da humanidade, percebe-se que o corpo da mulher sempre foi alvo de especulações, desejos e restrições. Do molde curvilíneo da antiguidade, em que elas eram retratadas com seios fartos e quadril largo, como símbolo de fertilidade, passando pelos anos de 1960, momento em que o desenho feminino passou a ser mais erotizado e à mostra, chegando aos musculosos corpos dos anos 2000, a sociedade constantemente tenta enquadrar um padrão. E aquelas que não se encaixam, tendem ser vistas como segunda, terceira, quarta opção ou até mesmo como alvos apenas de desejos masculinos.

Para a psicologia, fetiche, que vem do inglês fetish, significa um interesse sexual por objetos específicos ou partes do corpo – exceto as genitálias – que dão gratificação sexual, a exemplo do pé ou uma farda de militar. Ou seja, é um desejo estritamente ligada ao sexo, e que, quando aplicado na pessoa, acarreta em objetificação desse ser apenas por uma característica física. Este é o problema levantado pelas diversas “Geanes”. Quem é alvo desse olhar pode se sentir reduzida, afinal suas qualidades, anseios pessoais e projetos de vida não serão levados em consideração.

A analista técnica, Leila Ferreira, 33 anos, convive com a pressão desde sempre. Gorda, tenta driblar esse reducionismo direcionado às mulheres fora “dos padrões pré-estabelecidos” na hora de buscar parceiros. “É complicado, pois você já sofre preconceito por ser mulher gorda. Se ainda for negra, quanto mais ‘escurinha’, pior a rejeição”, pontua e lembra:

“Na maioria das oportunidades, a gente não vai encontrar um cara que nos assuma oficial e socialmente. Para não ficarmos sozinhas, nos relacionamos com eles, mesmo sabendo que somos só fetiches. Pelo menos para mim, sempre funcionou desse jeito”, confessou Leila Ferreira, de 33 anos

Internet torna-se suporte para apoio

Segundo Leila, na tentativa de disfarçar os reais interesses, muitos homens propõem a ideia do relacionamento aberto. “É desculpa para não nos assumir. Claro que existem pessoas que realmente têm isso como meta de vida. No entanto, é raro no caso da mulher gorda. E se o cara liga depois das 22h, ele só quer sexo mesmo”, acrescenta. Diante desse argumento, em março de 2017, ela decidiu fazer um “textão” no Facebook em resposta a um “Oi, sumida” que recebeu de um homem na madrugada. Confira o desabafo:

Design: Thiago Conceição

O texto acima foi publicado no grupo “Gordinhas Lindas da Bahia – Oficial (GLB-O)”, criado em 2012, que possui mais de 5,4 mil membros. O espaço foi criado para funcionar como meio de discussão dos assuntos referentes ao universo da mulher gorda, como a busca pela autoestima, problemas cotidianos, dúvidas gerais etc. Por conta disso, este tema não fica de fora. Volta e meia, relatos semelhantes são depositados nos fóruns para debate coletivo. Administrado por Sandra Santos, Katia Mauricia, Jozy Soares, Janaina Vieira e Jhan Hebertt, o GLB-O tem um esquema de funcionamento próprio, com diversas regras de convivência, em que o respeito é um dos pilares principais.  “O grupo foi criado como fruto da necessidade de ter um espaço para a mulher gorda de Salvador. O principal objetivo é empoderar às mulheres. Quando a gente passa a entender que somos iguais a qualquer outra, percebemos que não precisamos aceitar qualquer tipo de relacionamento”, alertou Sandra.

 “Esses tipos que não assumem, chamamos de ‘caçadores’. Eles mentem para se aproximar, fazem o papel do bom moço, mas só querem sexo”, explica Geane Pereira

Único homem na organização do grupo, Jhan entende o seu lugar de fala. Por isso, sua atuação é inibir as ações de pessoas que têm posturas gordofóbicas, organizar algumas dinâmicas internas, além de banir indivíduos que entram para colocar propagandas de produtos para emagrecimento. “Participava das atividades, um dia conheci as administradoras e fui convidado para integrar o time, pois sentiram a necessidade de uma figura masculina na moderação”, ponderou. O administrador recrimina a postura masculina de reduzir essas mulheres ao âmbito do sexo. “Fetiche todo mundo vai sentir, de um jeito ou de outro. O que acho errado é a manipulação de pessoas que aproveitam a carência para sua satisfação. E isso é resultado dessa sociedade que não aceita a mulher gorda. Para eles, no máximo, o cara pode se relacionar com aquelas que tenham curvas de estilo ‘Panicat’”, critica.

Como toda regra tem exceção, Jhan pode ser considerado a exceção que confirma a regra. Desde pequeno se sente atraído por esse biótipo feminino, e, por isso, enfrenta com frequência os olhares de reprovação das pessoas, incluindo familiares e conhecidos. “Percebi o desejo com uns oito anos de idade, mais ou menos. Ficava interessado nas minhas colegas gordinhas. Sempre assumo meus relacionamentos e isso é questionado por onde vou. Tenho amigos que falam ‘não entendo o que te leva a ficar com aquela gorda, tem tanta mulher bonita no mundo’”, lembra e finaliza: “Você não pode ficar com uma pessoa de braços largos, barrigão, pois será criticado. Se a pessoa não tem uma cabeça legal e se deixa levar, ela não irá assumir o relacionamento”.

Foi por vivenciar histórias assim que a Geane procurou o grupo para dividir suas dores. “Esses tipos que não assumem, chamamos de ‘caçadores’. Eles mentem para se aproximar, fazem o papel do bom moço, mas só querem sexo”. A cabeleireira lembra que se deu conta deste preconceito com um antigo namorado após engordar. “Começamos a ficar juntos quando tinha uns 17 anos. Na época, estava mais magra. Era alta, muito peito e bunda. Quando fui engordando, ele parou de querer sair comigo. Um dia, sentei ao seu lado, ele simplesmente levantou e foi para a outra cadeira. Parei para pensar: ‘Será que ele tem vergonha de mim?’”. Em seguida, confessou que em outro momento ele disse: “Quando você vai emagrecer? Se não ficar mais magra, a gente vai ter que terminar”.  Para Geane, essa situação resultou no hiato de três anos sem querer ficar com ninguém. “Estava esperando encontrar o príncipe encantado, coisa que não aconteceu até hoje”.

Solidão como companhia

O fato é que as mulheres gordas são julgadas por todos os lados por serem como são. “Nossa, você tem até um rosto bonitinho”, “Se emagrecesse um pouquinho ficaria linda”, são frases escutadas no cotidiano delas. Além da rejeição, em que são vistas apenas como ‘passatempos’ para os homens, o que inviabiliza uma vida amorosa estável, para aquelas que almejam esse status, elas são, muitas vezes, ignoradas no mercado de trabalho, na TV, no cinema, na publicidade, sem nem terem o direito de reclamar, pois serão tachadas como o comportamento desviante do aceitável.  “A mulher gorda precisa aprender a se amar, entender um pouco sobre o feminismo, não permitir ficar refém de relacionamentos abusivos em casa e em namoros”, reafirmou Sandra.

Apesar do debate atual, esse tema já era discutido há alguns anos. Uma pesquisa intitulada “Por que o mundo odeia as gordas”, de 2006, revelou que 52% das leitoras acham que é pior engordar 15 quilos do que reduzir o salário em 30%; 37% ficam incomodadas vendo uma mulher gorda comer hambúrguer com batatas fritas e 66% admitiram já ter feito um comentário maldoso ao ver uma mulher gorda usando biquíni. Os dados são da revista Marie Claire. Sendo assim, das formas de discriminação discutidas, talvez a que envolva as mulheres gordas seja a mais delicada, pois ao analisar que atitudes racistas ou homofóbicas são condenáveis, aparentemente não há problemas em condenar alguém acima do peso esperado. Com isso, a solidão vira uma realidade na vida de centenas delas. Muitas se isentam do mundo por não saber lidar com os frequentes ataques e descasos das pessoas; outras que idealizaram durante anos uma relação estável enclausuram-se por frustração ao perceber que serão encaradas apenas para prazeres sexuais.

Segundo a psicóloga Julianna Brito, que apresenta experiência com pessoas indicadas à cirurgia de redução de estômago (bariátrica), muitas de suas pacientes chegam ao consultório com grau elevado de baixa autoestima. O diagnóstico pode ser associado às dificuldades do cotidiano. “Atendo muitas mulheres que se queixam da dificuldade em encontrar roupas, de comprar apenas o que cabe e não o que as agradam. Citam que muitas vezes não conseguem emprego ou até mesmo uma promoção no trabalho em função da aparência, da obesidade. Por vivermos em uma sociedade, que cultiva como padrão de beleza a magreza, e podemos perceber isso desde as barbies, as propagandas de TV até a maioria das atrizes. Essas mulheres, muitas vezes, desenvolvem o sentimento de rejeição, começam a não ter o sentimento de pertença e iniciam crenças negativas sobre si, o que contribui diretamente para a construção de uma baixa autoestima”, explicou.

A jornalista e youtuber Alexandra Gurgel tem levantado questionamentos sobre a invisibilidade desta população, especialmente das mulheres. No final de 2016, ela publicou no seu canal um vídeo de 17 minutos elencando os motivos que formam a equação da “Solidão da mulher gorda”. Em um misto de desabafo e estudo, Alexandra toca nas principais feridas do assunto. Assista:

 

Concurso de Miss Plus Size apoia ou limita?

Flávia participando de um desfile plus size. (Foto: Reprodução /Facebook Flávia Xavier)

Na contramão das mulheres que se isolam por não conseguirem lidar com as pressões sociais oriundas das suas formas, outras começam a despontar em busca de valorização dos seus contornos. Militantes gordas passam a ocupar seus espaços e com isso, obviamente, o mercado se atenta.

Nessa lógica, surgem, aqui no Brasil, em 2011, as modelos plus sizes (tamanho grande). A ideia, que se vende, é da representatividade, de buscar fazer uma moda para todas. No entanto, dentro de movimentos feministas e nas opiniões de diferentes estudiosos da moda, existem questionamentos quanto ao fato da metodologia do Miss Plus Size contribuir para a cultura da objetificação desta mulheres. Entre as discussões, a problemática de que no momento em que tenta se criar um padrão da mulher grande, o evento vai colocar a margem quem não pertence ao quadro estético.

Ao olhar um pouco para trás e analisar o mais tradicional concurso de misses, que é o Miss Universo, criado em 1952, nota-se que ele foi e é fundamental para reforçar e criar novas concepções da ditadura da beleza, além de colocar as mulheres em situação de objeto à espera da avaliação masculina. Sandra reconhece ter problemas com concursos do tipo. “Não entendo você pagar para ser reconhecida como uma mulher bonita. São gastos com inscrições, roupas, maquiagens e cabelo. Muitas nem tem esse dinheiro, sabe? Além do mais, é complicado, pois não veremos representatividade. É pouco provável encontrar uma vencedora que vista 60, mesmo que tenho o rosto mais bonito”, frisou.

Para Flávia Xavier, que foi uma das candidatas no miss plus size em Uberlândia, Minas Gerais, e hoje trabalha como modelo, o concurso é “um pouco fachada”. “Não é para gorda. Ele não vai pegar alguém que veste mais de 60 e trabalhar para colocar no desfile, sabe? Hoje, percebo que se trata de algo mais para o lado financeiro”, iniciou. Depois, teceu críticas aos organizadores do evento. “O pessoal que organizou o trabalho de miss aqui [Uberlândia] não deve gostar muito das características da gorda. Não sei como funciona nos outros estados, mas aqui é assim”, frisou.

Flávia diz que sempre foi acima do peso “ideal” e que também é alvo de fetichização. “Nos meus 12 para 13 anos, sofri muito. Depois, tive relacionamentos onde não era assumida. O cara virava e dizia: ‘Se você falar que está namorando comigo, a gente não fica mais’. Era difícil ouvir coisas desse tipo. Existe também a questão de que eles dizem que a gordinha é só boa de cama, fora outros desrespeitos absurdos que a gente vai ouvindo”, criticou.

A modelo reconhece que há diferentes formas de objetificação da mulher gorda, sendo miss ou não, por isso, é preciso o olhar atento das pessoas. “Nós precisamos nos valorizar. A sociedade é um reflexo dos nossos comportamentos”, concluiu Flávia.

Design: Thiago Conceição

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