Já que é para tombar

Já que é para tombar

(Foto: Helemozão/ Marcha do Empoderamento Crespo)

A Geração Tombamento e sua nova forma de fazer política

Carolina Carvalho e Raysa Pires

Tombar. Fazer cair, derrubar. Cair soltando-se. Colocar (bens móveis e/ou imóveis) sob proteção do poder público. Tombamento. Ato de reconhecimento do valor cultural de um bem. Reconhecimento artístico, histórico e cultural. Transformar em patrimônio. Quem acompanha as redes sociais e evolução dos movimentos artísticos e culturais, sem dúvida alguma, já ouviu falar da Geração Tombamento. Composta por jovens negros vindos da periferia e donos de um estilo único e poderoso, a Geração Tombamento chega com suas tranças, black powers, turbantes, roupas e adereços coloridos, procurando afirmar a identidade e autoestima negra e transgredir valores conservadores.

                                              (Fotos: Helemozão)Entretanto, segundo a pesquisadora do doutorado em Programa de Comunicação e Cultura Contemporâneas da UFBA Helen Campos, a estética não é pauta recente dentro do movimento negro. “Desde a década de 1970, com os panteras negras, com os black powers, os cabelos tingidos, os cabelos sendo valorizados em sua forma natural, a estética negra já vem sendo debatida”, afirma a Hellen. Ainda segundo ela, o boom da discussão vindo da Geração Tombamento se dá, principalmente, por causa da presença das redes sociais e a visibilidade que esses meios proporcionam. Por falar em redes sociais, a Geração Tombamento concentra-se majoritariamente nelas e se organiza e estrutura através delas.  É o que muitos chamam de ativismo online. “Eu até brinco sobre a “política dos textões”. Através daqueles “textões”, eles e elas conseguem desenvolver narrativas muito apagadas, falar do seu lugar, das suas experiências com essas opressões, denunciá-las e, a partir dos relatos, conseguir desenvolver uma síntese para transformar tudo isso em instrumento político”, fala Samira Soares.  

Saindo do mundo virtual

Não só de redes sociais vive o movimento. A geração do afrotombamento também estabeleceu uma nova forma de manifestar: a organização de uma militância dentro das festas das cidades. Em Salvador, podemos encontrar a Batekoo, uma festa que hoje se identifica como um movimento cultural e que nasceu da necessidade dos jovens negros se sentirem representados nas festas privadas da cidade. “A gente ia muito pras festas em casas de Salvador e as festas eram com um público majoritariamente branco, com música majoritariamente branca e a gente não tinha muita referência e muita representatividade”, como afirma Carolina Neves.

 

 Caroline Neves acredita que movimento Batekoo chegou para empoderar identidade negra (Foto: DeuZebra)

De edição em edição, a Batekoo foi se fortalecendo e ganhando visibilidade no Brasil. Hoje a “festa-movimento” ocupa espaços em várias cidades brasileiras e leva consigo o empoderamento da identidade negra, além de abraçar diversas causas sociais. No último final de semana de julho, uma festa foi organizada para arrecadar fundos para a família de Rafael Braga, único preso pelas manifestações de junho 2013 por carregar uma garrafa de desinfetante. A acessibilidade é  outro fator relevante para a organização, que prioriza sempre preços populares para que todos possam ter acesso.

 

Marcha do Empoderamento Crespo levou 3 mil pessoas às ruas na primeira edição em 2015 (Foto: Helemozão)


Saindo das festas, a geração tombamento também se faz presente nas ruas de Salvador. A Marcha do Empoderamento Crespo, surgida em 2015, é resultado de uma série de encontros de crespas e cacheadas que acontecia no país. “A Marcha participou de vários encontros e a partir dali a
gente viu que era necessário trazer um debate político, mostrar que a nossa estética fazia parte de um processo de empoderamento e que ele não era só voltado ao capital”, enfatiza a organizadora Samira Soares.

A primeira edição levou 3 mil crespos e crespas às ruas e foi construída através de debates sobre a estética negra, feitos em escolas de ensino fundamental e médio até as universidades e comunidades periféricas. Samira Soares relata que é imprescindível o debate da estética para enxergar uma outra militância, que vai além da aparência mas que perpassa, sobretudo, a construção da subjetividade negra.

De geração para geração

A afirmação dessa estética pelos jovens é algo que também deixa marcas em outras gerações. Contrariando o que muitos colocam sobre a efemeridade do movimento, a geração tombamento tem influenciado diretamente seus familiares a resgatar a identidade e a beleza negra. Afrotombamento é um instrumento que nos ajuda a compreender a estrutura do racismo,  os marcadores sociais que marginalizam certas identidades e a importância de afirmar-se negro como um ato político de resistência. 

 

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