Publique você mesmo

Fanzineiros exploram publicação para disseminar histórias, projetos e ideias que não encontram espaço na mídia tradicional

Paula Holanda

Feira Pedra Papel Tesouro que teve a primeira edição em 2017 em Salvador (Foto: Pati Almeida)

“Enquanto houver rebeldia, transgressão, vontade de mudar o mundo”, diz o pesquisador de quadrinhos Elydio dos Santos Neto, “vai ter fanzineiro no mundo”. O fanzine — abreviação para “fan magazine”, ou “revista de fã” — é uma publicação amadora e artesanal, que pode ser impressa ou digital e envolver textos, ilustrações e/ou fotografias. Em geral, os fanzines (também chamados de “zines”) estão mais ligados à temáticas como música, arte marginal e manifestações alternativas relativas à cultura e à política, mas existem zines sobre todo o tipo de assunto — afinal, qualquer um pode publicar sobre qualquer coisa.

O fanzine — por ser sempre feito de forma independente, tratar de temáticas específicas e por isso ter um público-alvo bastante segmentado — costuma ser publicado em pequenas tiragens, raramente passando dos 50 exemplares. É um formato midiático que, como os demais veículos da mídia alternativa, surge com a proposta de dar visibilidade a ideias, projetos ou formatos de conteúdo pouco discutidos e explorados pela mídia massiva. A origem dos fanzines não é consensual, mas costumam apontar “Sniffin’ Glue”, publicado pelo britânico Mark Perry em 1976, como uma publicação independente pioneira e uma das mais relevantes da história da mídia alternativa.

A auto publicação é também uma forma de negar as cartilhas empresariais e mercadológicas e realizar um trabalho autoral que represente completamente suas convicções e seu estilo de expressão visual e/ou textual. “Publicamos para tornar públicas as nossas ideias, e por isso publicar independentemente é importante”, diz a curadora e produtora cultural Flávia Bomfim. “Ao publicar independentemente, nós não somos censurados, podemos fazer literalmente o que quisermos”, diz Bernardo de Mendonça, que faz adesivos, cartazes e camisas e criou recentemente a editora Trovoa. “Não dependemos de aceitação, nem estamos tão sujeitos às críticas”, completa.

Inicialmente, os fanzines eram feitos através de xerox de recortes e colagens de revistas, o que garantiu ao formato uma estética peculiar que até hoje é reproduzida, com ilustrações e tipografias toscas e impressões monocromáticas — por ser mais barata, a impressão em preto e branco é muito mais comum do que a colorida. Com o avanço da tecnologia e o advento de novas ferramentas de editoração, diagramação e tratamento de imagem, os fanzines tornaram-se cada vez mais. Existem diversos formatos de zine, mas, por se tratar de um formato econômico, o mais comum é o A5 — ou seja, metade de uma folha A4.

As feiras de impressos são excelentes oportunidades para a comercialização, troca e sociabilidade daqueles que estão envolvidos com a prática de publicação independente — seja como vendedor, seja como consumidor. Entre as feiras de destaque nacional, podemos citar a Plana, em São Paulo, e a Dente, em Brasília. Em Salvador, a publicação independente tem sido estimulada por iniciativas como a Primeira Feira de Publicação Independente, criada em 2015, a Feira Ladeira, criada em 2016, e a Pedra Papel Tesouro, criada em 2017 — todas realizadas por Flávia Bomfim em conjunto com diferentes grupos de artistas. “As feiras têm como objetivo provocar encontros, levarem as pessoas a saírem de casa para consumir ideiais criativas, literatura e artes visuais”, diz Flávia. “Também procura promover articulações entre artistas e editores”.

Além delas, temos também a Feira Paraguassu, criada em 2016 pelo coletivo Sociedade da Prensa. A Primeira Feira de Publicação Independente, que aconteceu no Segundo Festival de Ilustração e Literatura da Bahia, contou com mais de 35 expositores de diferentes estados do Brasil. As feiras surgem com a proposta de divulgar e distribuir o trabalho destes editores que não têm apoio da mídia massiva.

Edição do 13 zine (Foto: Jones)

O formato impresso surge como uma maneira de se aproximar de quem se interessa pelo trabalho e pelas temáticas exploradas pelos publicadores. “Eu queria conhecer o meu público, entender quem está consumindo o que eu produzo” diz Jones, criador do projeto de pichação LVC e publicador do 13 zine, “e o formato que mais promove o contato entre autor e público continua sendo o impresso”. “Escolhi o impresso porque acreditamos que, por ser material tátil, facilita na circulação. É mais fácil de ser visto, tocado, circulado”, argumenta Bernardo.

Para atingir um público específico, os publicadores independentes devem pensar de maneira cuidadosa no conteúdo, na diagramação e nas fotografias ou ilustrações. “O zine [impresso] não só como uma forma independente de publicar uma ideia, mas também como um livro-objeto, ou um objeto artístico”, diz a artista visual Luma Flôres. “Então comecei a pesquisar mais sobre papeis, sobre formas de encadernação manual, sobre diagramação de livros, técnicas de impressão artesanal”.

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