Acessibilidade ainda é questão a ser enfrentada nos teatros de Salvador

Acessibilidade ainda é questão a ser enfrentada nos teatros de Salvador

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Apesar da sensibilidade da área cultural, pessoas com deficiência enfrentam dificuldades em consumir produções culturais em Salvador

Ítalo Cerqueira e Helena Mafra

Não tem sensação mais prazerosa do que assistir a um belo espetáculo no teatro. Um texto que te cativa, uma atuação poderosa dos atores, um lindo cenário e uma iluminação que encanta. Mas nem todo mundo tem a chance de fruir dessa atmosfera. Pessoas com deficiência precisam de recursos de acessibilidade para exercer o seu direito à cultura, como é previsto no artigo 125 da Constituição Brasileira: todo cidadão deve ter “o pleno exercício dos direitos culturais”, sendo que o Estado deve garantir o acesso às fontes da cultura nacional, apoiar e incentivar a valorização e a difusão das manifestações culturais.

Segundo levantamento realizado pelo Censo 2010 do IBGE, Salvador possui mais de 700 mil pessoas com algum tipo de deficiência, o que corresponde a 26% de toda a população. A cidade possui cerca de 40 teatros distribuídos em diversos bairros, porém nenhum deles apresenta acessibilidade plena para pessoas com deficiência. Se há rampas de acesso ou piso tátil, falta tradução em libras, audiodescrição das peças teatrais e, até mesmo, qualificação das equipes para lidar com esse público. Porém, isso não é um impeditivo para que essas pessoas frequentem esses ambientes.

Cadeira de rodas de Juscilene Souza é carregada pelas escadas do Cine Teatro Lauro de Freitas (Foto: Acervo pessoal/Juçara Souza). #PraCegoVer Fotografia de duas mulheres carregando uma cadeira de rodas escada abaixo.

Apesar das dificuldades, a funcionária pública Juçara Souza faz questão de levar sua irmã ao teatro. Juscilene Souza nasceu com paralisia cerebral, é cadeirante e necessita integralmente que outra pessoa a acompanhe. Juçara afirma que, em diversos teatros, ela enfrenta problemas com obstáculos em rampas, escadas e banheiros não adaptados.

“A gente tem que batalhar para conseguir a acessibilidade. Não dá para desistir, pois as pessoas com deficiência precisam desta vida social. Minha irmã é outra pessoa hoje, porque sempre estou levando ela para um lugar e para outro”, opina a funcionária pública. Juscilene desenvolveu o gosto por musicais e espetáculos teatrais românticos, inclusive sua admiração pela representação é tanta que ela tem frequentado aulas de teatro.

Pensar a acessibilidade para o artista e o público com deficiência, é reconhecê-los enquanto protagonistas do fazer e do fruir artístico. O coreógrafo e dançarino Edu O, que é cadeirante, afirma que quando ele vai ao teatro ele não tem a liberdade em escolher onde ficar, ou assiste ao espetáculo de cara com o palco, ou no fundo atrás de todo mundo. “Não há um pensamento arquitetônico, onde eu vou assistir”, indigna-se. Entretanto, ele alerta que a acessibilidade não pode ser pensada apenas para o público. “A fala do nosso corpo e de nossa expressão por via da arte não é pensada pelos espaços culturais, eles não pensam a gente nesse lugar de artista”.

Ele afirma que é difícil contar com acessibilidade nos teatros de Salvador, entretanto sabe das dificuldades orçamentárias em fazer adaptações arquitetônicas, serviços de tradução em libras, legendagem e audiodescrição. “Tudo isso é muito caro, são serviços que não são tão populares”, reconhece ao mesmo tempo em que aponta soluções no âmbito das políticas públicas. “Dentro dos próprios editais, é necessário que tenha reservado uma parte de dinheiro para produções que ofereçam acessibilidade, vindo como critério de aprovação, porque você está ganhando dinheiro público e está possibilitando a fruição e acesso a todas as pessoas”.

A cientista social e atriz Cristina Gonçalves perdeu a visão desde muito cedo, mas nunca deixou de frequentar os espaços culturais da cidade, apesar de raramente haver o recurso de audiodescrição. “É claro que quando você está assistindo a uma peça, você perde muita coisa, a questão do figurino, da movimentação no palco, das expressões físicas, corporais e faciais, você perde a compreensão global do texto”, explica.

Cristina alerta que faltam nos espaços culturais além da acessibilidade no âmbito arquitetônico, recursos comunicacionais – tais como a audiodescrição e folders em braile – e questões em como receber e atender o público com deficiência. “Se a gente tivesse nesses espaços essas três condições de acessibilidade, teríamos muito mais condições de acessar à cultura”, acredita.

Espaços reconhecem problemas de acessibilidade

Os teatros da cidade reconhecem que a questão da acessibilidade é uma necessidade para a população com deficiência para fruir das produções artísticas e culturais. A produtora Ana Caroline do Rosário do Teatro Gamboa Nova, localizado nos Aflitos, explica que “a acessibilidade é uma preocupação sim do espaço, mas infelizmente não é uma prioridade”. Ela nos conta que o número reduzido de pessoas na equipe de produção e de prestação de contas, além do orçamento apertado, são impeditivos para se promover ações plenas de acessibilidade no local.

Ao que se refere à infraestrutura, uma reforma foi feita no primeiro nível do teatro para receber os cadeirantes com melhor conforto, porém requalificar outras dependências é bastante complexo: “mexer nessa estrutura física é um pouco complicado, por ser uma casa antiga, um casarão vertical e o imóvel não pertence à equipe de gestão do espaço”, explica Ana Caroline.

“Acho que o panorama hoje ainda é bastante carente e restrito. Temos que ampliar, já que para o público cego e surdo a acessibilidade nos teatros de Salvador é muito difícil”, reconhece diretora do Teatro Módulo Vadinha Moura

Ela acrescenta que na programação, a equipe já tem a sensibilidade de buscar parceiros que promovam ações de acessibilidade: “desde o ano passado, a gente tem iniciativas de espetáculos e exposições que promovem certa acessibilidade para pessoas com deficiência visual e auditiva, sendo que nesses momentos nós tivemos uma mobilização legal, as pessoas vieram ao teatro e assistiram às peças”.

A diretora do Teatro Módulo, Vadinha Moura, participa de uma rede de gestores de espaços culturais de Salvador. Em encontros periódicos, são discutidos temas pertinentes aos espaços e a acessibilidade é um tema que já esteve presente nessas reuniões.

Para atingir a acessibilidade ideal, Vadinha diz que é necessário um trabalho bastante direcionado, com dinheiro que possa cobrir as obras e a tecnologia requerida, porém os custos são altos e inviáveis no momento. “Com tantos custos que o espaço cultural tem, a gente ainda não consegue seguir um trabalho nessa direção. É importante e extremamente necessário, mas de que forma fazer isso? Talvez seja necessária uma aproximação maior com as associações direcionadas a esse público”, indica.

Há 20 anos, o Teatro Módulo promoveu um debate acerca de recursos de acessibilidade para pessoas com deficiência auditiva, física e visual, que na época era mais escasso e precário do que é hoje. “Ao longo desses anos, temos feito algumas modificações. Não tínhamos espaço, por exemplo, para colocar os cadeirantes e agora já temos. Construímos uma rampa do foyer para dentro do teatro. Aos poucos foram feitas essas modificações e estamos mais próximos desse público”, considera a diretora que reconhece a carência de estrutura e aparelhos para o público cego e surdo.

O Teatro também considera que fazer campanhas online ajudam a trazer o público cadeirante para os espetáculos, além de fazer com que eles sejam melhor atendidos. “A gente pede nas redes sociais que nos avisem com antecedência quando alguma pessoa com deficiência vai comparecer ao nosso espaço. Dessa forma, nossa equipe pode atendê-los com mais tranquilidade. Pedimos para que cheguem mais cedo e damos prioridade”, informa Vadinha.

A diretora diz ainda desconhecer outros teatros em Salvador que disponibilizem o necessário para que pessoas com deficiência visual e auditiva possam fruir de apresentações e espetáculos. “Acho que o panorama hoje ainda é bastante carente e restrito. Temos que ampliar, já que para o público cego e surdo a acessibilidade nos teatros de Salvador é muito difícil. Não temos um trabalho direcionado para isso”, reconhece.

 Além das rampas e pistas táteis

Público assiste ao espetáculo no Teatro para Sentir (Foto – Marcelo Gandra Fotografia). #PraCegoVer Fotografia de uma representação teatral. A plateia, que possui uma pessoa cadeirante, assiste atenta à peça de teatro. No centro, a atriz em vestido vermelho sob um piso xadrez faz sua encenação. No cenário, há mesas, cadeiras comuns, uma cadeira de rodas e uma maca.

Para que a pessoa com deficiência tenha acesso a toda a estrutura do teatro, intervenções arquitetônicas que permitam sua total autonomia são necessárias. Muitas vezes, quando falamos em acessibilidade a primeira imagem que nos vêm à cabeça são as rampas de acesso e as pistas táteis, porém os recursos de acessibilidade são muito mais e eles devem pensar na pessoa com deficiência física, mental, visual e auditiva.

O arquiteto Adson Ribeiro da Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Desenvolvimento Social (SJDHDS) explica que a acessibilidade é algo muito mais amplo que imaginamos, pois ela perpassa por diversas nuances “desde a acessibilidade arquitetônica, além da comunicacional e das barreiras atitudinais que devem ser vencidas”. E em cada tipo de acessibilidade, inúmeros recursos precisam ser pensados “desde uma simples maçaneta, a altura das tomadas e interruptor, tudo isso pode ajudar ou prejudicar na autonomia da pessoa”, exemplifica o arquiteto ao falar sobre a acessibilidade estrutural.

Para Ribeiro, os custos para a acessibilidade arquitetônica são os mesmos custos de uma manutenção em edificações. “Adaptação independente do custo deve ser feita, mas o ideal é que o edifício nasça acessível, o que torna toda concepção mais barata, mas adaptar é questão de manutenção, independentemente do valor, deve ser feita”.

Na Universidade Federal da Bahia (UFBA), o grupo de pesquisa Tradução, Mídia e Audiodescrição (TRAMAD) há treze anos desenvolve um trabalho pioneiro no país de audiodescrição e legendagem eletrônica em diversas produções culturais. A professora e coordenadora do grupo de pesquisa Manoela da Silva explica que além do acesso físico ao teatro, a pessoa com deficiência precisa ter o acesso aos seus bens culturais.

“O que é importante dentro da acessibilidade é que não podemos ter uma sessão específica para pessoas com deficiência. A acessibilidade é aquilo que permite que tanto a pessoa com deficiência, quanto seus familiares e amigos possam fruir conjuntamente”, pontua a professora.

Manoela explica que a sensibilidade dos produtores aumentou ao longo dos anos em relação aos recursos de acessibilidade, uma realidade que foi impulsionada também por uma legislação específica. Porém é necessário fornecer recursos de audiodescrição, tradução em libras e legendagem com qualidade. “Geralmente se procura baratear os custos, tentando atender a legislação com o preço mais baixo possível. É preciso que se garanta que o recurso esteja presente, mas com a qualidade do que esteja sendo oferecido”.

Ainda de acordo com a professora, há grande desconhecimento dos produtores em relação aos recursos de acessibilidade. Primeiramente, quando um produto vai para adequação, ele deve ir já fechado, pois qualquer alteração posterior muda completamente o trabalho realizado anteriormente. Segundo, há diferenças entre pessoas surdas e ensurdecidas, portanto há pessoas que compreendem a tradução em libras, mas outras que é essencial a legendagem eletrônica. Por fim, nem todo profissional que tem o domínio de libras é um tradutor: “para você ser intérprete, é necessária uma velocidade de raciocínio muito grande, então precisa de treinamento e prática para isso”, explica.

Nada adianta oferecer uma boa infraestrutura, com tecnologia e pessoal capacitado para receber pessoas com deficiência, se o teatro não desenvolve as devidas ações de formação de público. “Hoje, o que você tem é poucas pessoas com deficiência indo para as sessões, porque são ações muito esporádicas”, ressalta a professora Manoela Silva.

Iniciativas oferecem recursos de acessibilidade em teatros da cidade

Em Salvador, duas grandes iniciativas mostraram na prática como recursos de acessibilidade fazem a diferença para pessoas com deficiência. Em um, é dada a oportunidade às pessoas com deficiência de fruir peças de teatro, em outro o artista com deficiência ganha os holofotes.

O Espaço Xisto Bahia, localizado nos Barris, é considerado um dos mais acessíveis da cidade em termos arquitetônicos. Desde 2015, o local se tornou sede do projeto “Semana Cultural Acessível”, em que uma série de atividades formativas e artísticas apresentam ao público o protagonismo das pessoas com deficiência nas artes e possibilitam ao público conhecer melhor os recursos de acessibilidade.

Ninfa Cunha em espetáculo teatral na Semana Cultural Acessível (Foto – Alexandra Hirsch). #PraCegoVer A fotografia retrata em seu centro uma mulher com deficiência em cena, vestindo um vestido verde brilhando, sendo suspensa por dois homens portando turbantes vermelhos e saias de ração brancas.

Ninfa Cunha é a coordenadora do Xisto, mas também ela é artista e cadeirante. Sua atuação à frente do espaço reforça a importância do projeto acontecer por lá. Ela acredita que ocupar os palcos é uma forma de mostrar toda a potência do fazer artístico das pessoas com deficiência e também de provocar. “Quem está no palco é o artista e não a pessoa com deficiência. O preconceito eu sinto muito quando estou em cena, mas eu fico feliz da vida, porque vejo como uma resposta. Às vezes, usa-se arte para incomodar e provocar”, revela Ninfa.

Portanto, a “Semana Cultural Acessível” pode ser considerada como um momento de consagração da produção artística das pessoas com deficiência aqui em Salvador, porque quem está na plateia se reconhece no palco e o artista ganha espaço para demonstrar toda a riqueza e diversidade de sua produção artística.“Quando há debates para se falar sobre assuntos sérios, o público é menor. No entanto, quando tem apresentações e oficinas, o pessoal comparece mais. Isso só comprova a carência desse público de opções culturais acessíveis”, acredita a coordenadora.

Ela pontua que todo o trabalho de luta e representatividade, no qual a Semana está incluída, mudou a postura das pessoas ainda que de forma tímida: “hoje as pessoas estão mais abertas para receber o público com deficiência. Claro que elas ainda não sabem muito bem o que fazer para ajudar, querem tentar e muitas vezes acabam atrapalhando, mas eu vejo que algo se abriu para melhor”.

Ninfa Cunha se apresenta na Semana Cultural Acessível (Foto – Vinícius Nascimento). #PraCegoVer Fotografia mostrando duas pernas de costas, ao fundo duas pernas de frente em uma cadeira de roda.

Em 2014, o Teatro Vila Velha recebeu o projeto “Teatro Para Sentir”, que tornava espetáculos teatrais acessíveis para pessoas com deficiência física, auditiva e visual, utilizando ferramentas de audiodescrição para cegos e tradução em libras para surdos. Idealizado pela produtora cultural Giuliana Kauark, o projeto foi realizado entre os meses de setembro e outubro de 2014, com três espetáculos teatrais voltados para o público adulto e infanto-juvenil. De um público total de 1.582 pessoas, 467 compunham o público-alvo (adultos, jovens e crianças com deficiência e seus acompanhantes).

“A média nacional de público com deficiência e acompanhantes em projetos de acessibilidade costuma ser de 10%, e o Teatro para Sentir atingiu 30%. Conforme pesquisa de público realizada durante o projeto, a maioria nunca havia assistido a um espetáculo acessível e elogiou muito a iniciativa”, celebra Giuliana.

O “Teatro Para Sentir” surgiu a partir da certeza que o acesso a obras artísticas é um direito de todos e é necessário agir para reduzir as barreiras físicas do lado da produção cultural, como também promover a mobilização de público com deficiência para se integrar à cena cultural. “Se a inclusão é uma urgência por parte dos produtores e gestores culturais, por outro lado ela não pode ser viabilizada por meio da ‘exclusão’, mantendo ainda o público com deficiência distante dos espaços e dos projetos culturais existentes na nossa cidade”, explica Giuliana.

Apesar do sucesso da primeira edição, o projeto não conseguiu financiamento para outras edições, nem para o desenvolvimento de outras frentes, como o Arte Para Sentir: “essa seria uma ação de caráter mais estruturante, tornando a acessibilidade cultural menos objeto de ações pontuais e esporádicas, e mais um serviço básico e um item imprescindível em todo e qualquer espaço ou projeto cultural”, explica a produtora. A falta de recursos para essas ações demonstra o quão importante é a batalha diária pela acessibilidade e que ela seja um dia entendida como um direito básico.

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