Redes sociais aumentam o número de adoções de animais em Salvador

Redes sociais aumentam o número de adoções de animais em Salvador

Instituições de adoção utilizam as redes sociais para compartilhar as fotos dos animais e internautas se sensibilizam

Marina Fraga Maia e Paloma Rigaud

Ártemis à esquerda, Mimi no centro e Bartolomeu à direita (Foto: Lucas Alexandre)

Os miados de três filhotes de gato invadiram a sala de Lucas Alexandre, estudante de veterinária e voluntário do Instituto Patruska Barreiro, numa noite de fevereiro de 2016. Eles tinham sido abandonados num terreno baldio do lado da casa do estudante, dentro de uma caixa. Na manhã seguinte, mais quatro gatinhos foram encontrados e resgatados. Destes sete filhotes, Alexandre decidiu ficar com três, Ártemis, Mimi e Bartolomeu. Recentemente, Lucas resgatou mais quatro filhotes e pretende doá-los através de feiras de adoção e das redes sociais, como Instagram e Facebook.

Até então criador de aves exóticas, o estudante começou a morar com os felinos e, consequentemente, a se acostumar com um novo tipo de convivência. “Claramente tudo mudou na minha vida, porque eu nunca tive gatos, meu contato sempre foi com aves. Mas eu aprendi a respeitar os momentos deles, e eles respeitam os meus momentos. Aprendi a ter mais paciência, mais calma e a amar mais”, revela. Para ele, adotar um animal é a melhor forma de descobrir o que é amor. Nem todos os casos de adoção, no entanto, acontecem assim. Muitos dos animais que são resgatados só encontram uma nova chance através de abrigos e ONGs.

Hoje, o meio utilizado para divulgar as ações dessas ONGs são as redes sociais, como Instagram, Facebook e WhatsApp. O efeito, portanto, acaba sendo relativamente grande, já que qualquer pessoa pode ter acesso àquele conteúdo online. A intenção é atingir a maior quantidade de pessoas possíveis. Além de eficientes, as redes não apresentam gastos para as ONGs, que enxergam nessa possibilidade a oportunidade de conscientizar mais pessoas, doar mais animais e não gastar mais dinheiro. O que é muito importante, já que é unânime que a maior dificuldade entre as instituições é o custo para se manterem abertas. Como a quantidade de animais abandonados não diminui, e muitos acabam sendo deixados nas portas das ONGs e abrigos, os gastos são altos. A ração, o veterinário, as medicações, os funcionários, tudo isso demanda um pagamento. A despesa é fixa, a ajuda não.

Dados recolhidos no dia 30 de agosto de 2017. (Design: Marina Fraga Maia)

Neste contexto, o Instagram e o Facebook têm ajudado essas ONGs a doarem mais animais. São postados vídeos e fotos dos animais para adoção, o que chama mais atenção das pessoas dispostas a adotarem. No Instagram, os stories fazem mais sucesso. Já no Facebook, são as transmissões ao vivo. As pessoas se interessam mais por vídeos, justamente por conseguirem ter uma visualização melhor do animal. As plataformas acabam sendo um meio de contato mais direto, também. Os adotantes não precisam mais esperar o retorno de um e-mail ou de uma ligação. O contato pode ser feito diretamente via mensagem em qualquer uma das redes sociais que a ONG possui.

Esse é o caso da seção baiana da Associação Protetora dos Animais – ABPA, criada em 1939, com o intuito de tirar os animais das vias públicas e atingir a adoção responsável. O abrigo adotou o Instagram como a principal rede social em março de 2014, e o utiliza como uma forma de conversar diretamente com os adotantes. Por ser um meio de contato com menos ruídos, o abrigo também pensa em adaptar a adoção por e-mail para as redes sociais. “A gente conversa rapidinho pelo direct, já pega o contato, já liga, é bem mais rápido. É bem mais eficiente. Fora que a gente fica também sabendo da vida da pessoa. Porque a gente tem esse interesse de saber”, esclarece Fernanda Sousa, voluntária que ajuda na administração das redes sociais da ABPA-BA.

Desde outubro de 2016, o Instituto Patruska Barreiro também vem utilizando o Instagram para compartilhar publicações sobre seus animais para doação, sobre as feiras – que acontecem todo primeiro sábado de cada mês – e para ajudar animais de rua que sofreram algum mau trato ou acidente a se recuperarem em clínicas veterinárias. São através das postagens que eles arrecadam dinheiro para cobrir os custos das despesas de veterinário do animal necessitado.

Outros tipos de posts que costumam ser feitos são a divulgação de rifas – onde o valor é arrecadado para ajudar nos gastos mensais -, pedidos de contribuição (as ONGs aceitam tanto doações de dinheiro como doações de ração, remédios e qualquer tipo de ajuda que possa beneficiar os animais), bazares, bingos, aniversários e parcerias.

O processo de adoção

As redes sociais são, no entanto, apenas uma forma de mediação. Elas não são o único passo que você precisa dar para adotar um animal. As ONGs têm um processo de avaliação para entender se o adotante tem o perfil correto para conviver com um animal e para fornecer o que é necessário para mantê-lo. Depois de entrar em contato com o instituto escolhido, o adotante passa por uma entrevista. Assim, os voluntários podem entender qual tipo de animal é procurado, qual o tamanho, o temperamento, o espaço onde ele vai ficar e, claro, se a pessoa possui capacidade de cuidar dele.

A entrevista ainda é uma parte muito importante da adoção responsável. “É porque, na verdade, esses animais já passaram por um período de sofrimento, então o mínimo que a gente espera é que a pessoa tenha uma condição de mantê-los com dignidade, com assistência médica, em um local saudável para eles viverem. Que eles tenham uma vida melhor do que a que eles tem no abrigo”, conta Fernanda. Normalmente, é necessário também, na hora da adoção, levar documentos de identificação, comprovante de residência e doar um valor para o abrigo escolhido. Isso acontece justamente pela dificuldade que eles têm de receber doações fixas. Então esta é a forma que o adotante tem de ajudar o local que resgatou o animal que está sendo adotado.

As feiras de adoção costumam acontecer em pet shops e supermercados parceiros das ONGs, como é o caso da Mundo Pet Brasil, localizada na Av. ACM, que promove feiras pelo menos duas vezes por mês. A pet shop tem uma parceria com a ABPA-BA e o Instituto Patruska. Essas ações também são divulgadas nas redes sociais da instituição, que acredita na eficácia das plataformas. “Sempre lançamos campanhas e divulgamos nossas feirinhas de adoção, inclusive promovemos campanhas nas mídias sociais incentivando também a arrecadação de alimentos para nossas ONGs parceiras”, explica André Santos, operador de loja da Mundo Pet.

Iara Castro e Tony Perdona, adotantes de Amora. (Foto: Marina Fraga Maia)

Tony Perdona e Iara Castro adotaram uma cadela na primeira feira que participaram, do Abrigo São Francisco de Assis, realizada na Mundo Pet. O casal acompanhava o abrigo nas redes sociais e decidiu conhecer os animais pessoalmente antes de adotar. “Eles fazem um trabalho muito bonito, e as redes sociais ajudam a divulgar isso”, afirma Iara. “Até a forma que eles passam as coisas para a gente te faz pensar e querer ajudar a causa”, complementa.

O lado ruim

Há também, no entanto, um lado negativo. Muitas das pessoas que encontram esses abrigos e ONGs pelas redes sociais ao invés de ajudar desejam abandonar animais. É para evitar o incentivo ao abandono que o endereço da sede do Instituto Patruska não é divulgado, por exemplo. “Muitas vezes as pessoas entendem que a ONG tem obrigação de recolher animais, como se isso fosse um serviço mantido pelo governo. Isso gera desgaste entre as relações sociais, pois a realidade é muito mais dura do que pensam”, explica Patruska, fundadora do instituto.

Esse é um problema relatado por todos os entrevistados. A Associação Célula Mãe, entidade que faz mutirões de castração e feiras de adoção, relata o mesmo tipo de dificuldade. “Mostramos nosso trabalho e a dificuldade na esperança de recebermos ajuda para podermos continuar a salvar vidas, mas as pessoas na sua maioria veem as reportagens, vídeos, postagens e nos procuraram para que acolhamos seu animal”, expõe Pilar, voluntária da associação. A população, independente de condição social, não compreende a falta de verba que as ONGs enfrentam. Ao contrário, muitas pessoas acreditam que é um dever da entidade e não do poder público, o que acaba dificultando o trabalho feito por elas.

Elas também ajudam

Aldenora Araújo, desde pequena, resgatava animais de rua para cuidar deles e buscar alguém que pudesse adotá-los de forma responsável. Na época em que começou com essa atividade, essa tentativa se dava em feiras de adoção, para as quais ela levava os animais já castrados, vacinados e vermifugados para que eles pudessem ser adotados. Atualmente, Aldenora conta com a ajuda da sua filha, Tainara Araújo, para fazer essa divulgação através das redes sociais.

Agora elas também tem o apoio de grupos e instituições que divulgam, em suas redes sociais, fotos dos animais acolhidos por elas, e promovem eventos de adoção semanais. “Antes dessas parcerias com esses grupos de adoções e das redes sociais, as adoções eram poucas. Cerca de 10% do que é hoje”, afirma Tainara.

Mas não só Tainara e Aldenora que fazem esse trabalho. Muito pelo contrário, esse tipo de divulgação se espalha pelas redes sociais constantemente. Brenda Alves adotou sua gata em janeiro de 2016 através de uma publicação vista no Facebook. Ela não conhecia a pessoa que estava cuidando dos gatos, mas entrou em contato e adotou mesmo assim. Brenda afirma que as redes sociais têm influenciado muito na adoção dos animais, visto que a informação da disponibilidade de um animal pode alcançar muito mais pessoas através das redes sociais.

Sissy Cerqueira também adotou seu animal através de uma rede social. Seus amigos publicaram no stories do Instagram que estavam doando um hamster, e ela adotou. Sissy também já divulgou que buscava um lar para uma cadela que encontrou na rua e, por conta disso, conseguiu que ela fosse adotada. “Os filhotes desse hamster também foram doados tudo pelo insta. Com as redes as pessoas ajudam a divulgar e compartilhar a situação do pet e muito mais gente fica sabendo”, conta.

Nota do editor e professor: Marina Fraga Maia, uma das repórteres desta reportagem, não resistiu a tanta fofura dos animais que esperavam ser adotados. Ela foi escolhida por um cachorrinho e a memória do smartphone anda lotada de fotos do novo pet.

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